terça-feira, 23 de setembro de 2008

Gabeira diz que tomou a frente no caso do Galeão


Alessandra Duarte
DEU EM O GLOBO


"É melhor ter uma pessoa criativa e independente a ter uma pessoa obediente", diz, referindo-se a Paes

Repetindo a palavra "líder" cinco vezes em seu discurso ontem no Clube de Diretores Lojistas do Rio, o candidato do PV a prefeito, Fernando Gabeira, intensificou sua estratégia de campanha: mostrar-se como alguém que pode construir parcerias com os governos federal e estadual, não por ser "amigo do presidente e do governador"- numa referência ao candidato Eduardo Paes (PMDB) -, mas por sua liderança:

- Ouvimos os candidatos dizerem que são amigos do presidente e do governador. Isso é muito bom, mas não basta. É preciso ser um líder, e é preciso ser independente e criativo. Vejam o caso do Aeroporto do Galeão. Eu entrei em cena, denunciei o processo de decadência do Galeão, pedindo apoio para a recuperação e defendendo a concessão à iniciativa privada. O governador também defende isso. E o presidente aceitou a tese. Trabalhamos juntos, e não somos amigos. É melhor ter uma pessoa criativa e independente a ter uma pessoa obediente e sem capacidade de criação. Por isso, para o próprio Lula e para o próprio Cabral, eu sou o melhor candidato, embora eles ainda não reconheçam isso, porque a cegueira partidária não permite que eles vejam isso.

Gabeira voltou a marcar diferença entre seu discurso e o de Paes, que tem se apresentado como síndico:

- Não acredito que a campanha vai se dar entre um candidato de esquerda versus um de direita. Vai se dar entre um candidato que se propõe a ser síndico e um que se propõe a ser o líder. E, no segundo turno, vai haver um líder político propondo conduzir a cidade, e alguém dizendo que será um bom síndico, o que é importante, mas não é decisivo.

Dança de votos no Rio


Maiá Menezes
DEU EM O GLOBO

Gabeira e Jandira avançam onde Paes perdeu; peemedebista tira votos de Crivella

Líder nas últimas pesquisas, o candidato do PMDB a prefeito, Eduardo Paes, perdeu espaço entre os eleitores mais ricos para Fernando Gabeira (PV) e Jandira Feghali (PCdoB). Caiu de 30% para 21% entre os que ganham mais de dez salários mínimos, enquanto Gabeira foi de 20% para 31%; e Jandira, de 7% para 15%. Se recua por um lado, Paes avança por outro, em terreno associado ao senador Marcelo Crivella (PRB): entre os eleitores que ganham até dois salários mínimos, oscilou de 27% para 30%; Crivella caiu de 28% para 22%.

A comparação entre os dados das duas últimas pesquisas Datafolha mostra o troca-troca na corrida rumo ao segundo turno das eleições à prefeitura do Rio. E ajuda a explicar as estratégias de Gabeira e Jandira, de olho em uma vaga na disputa: o alvo agora é o eleitorado de Paes, já que acreditam que Crivella está em curva de queda.

- Um candidato com crescimento repentino (como Paes) não tem voto consolidado. Ele não tem nada de sólido - diz o coordenador dos programas de TV de Jandira, Paulo de Tarso, responsável pelas inserções que lembram o discurso duro de Paes, na CPI dos Correios, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Depois de atrair o chamado voto de opinião, agora o desafio é conquistar o eleitorado popular que oscila de Crivella para Paes. Jandira adotou discurso voltado para áreas de "menor grau de informação e renda". Os ataques serão dirigidos ao peemedebista, a quem chama de "almofadinha".

Paulo de Tarso explica que o alvo é Paes porque Crivella tem "percentual de votos mais consolidado". O senador, no entanto, já deu outra explicação: teria havido um pacto de não-agressão entre os dois, ambos da base do governo Lula.

"Havia uma idéia de desperdício de voto"

Defendido pela candidata do PCdoB, o voto útil não é bandeira de Gabeira, que ontem, no programa eleitoral, argumentou: "Agora, as pessoas podem votar no candidato que consideram o melhor e participar de uma campanha vitoriosa". Em agenda ontem, no Centro do Rio, dentro da estratégia de "desconstruir" o discurso do candidato do PMDB, Gabeira fez duras críticas a Paes.

- Havia uma idéia de desperdício de voto. Depois da pesquisa, podemos deixar claro que é possível chegar ao segundo turno. Acredito que isso (votar em Gabeira) vire um movimento - disse o publicitário Lula Vieira, coordenador dos programas de TV de Gabeira, informando que, também de olho no eleitorado perdido por Crivella, está ampliando a participação popular no programa.

Na última pesquisa Datafolha, divulgada no dia 19 pela TV Globo, Paes aparece com 26%; Crivella, com 18%; Jandira com 13%; Gabeira com 11%; Solange Amaral (DEM) com 5%; Alessandro Molon (PT) com 4%, Chico Alencar (PSOL) com 3%; e Paulo Ramos (PDT) com 2%. O percentual de indecisos, que não variou em setembro, foi de 6%.

Para Paes, o que importa é que tem mantido um equilíbrio em todas as faixas de renda. Ele afirma que manterá a linha propositiva, sem reagir a ataques dos adversários.

Crivella alega que há erros na metodologia da pesquisa mas reconhece que, em algumas regiões da cidade, enfrenta "oscilações". No fim de semana, ele criticou o governador Sérgio Cabral, padrinho de Paes.

O cientista político Eurico Figueiredo vê instabilidade nos números de Crivella:

- Ele ainda tem gordura a perder.


E prevê mais pedras na direção de Paes:


- Todos vão atacá-lo. Como a subida dele foi rápida e forte, não deu tempo de cristalizar o eleitor.

O fim do mundo


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. "Se não aprovarem o pacote até sexta-feira, não teremos segunda-feira", comenta um executivo financeiro brasileiro diante das negociações que se desenrolam no Congresso em Washington. Esse é o tom catastrófico, com a previsão do fim do mundo, que está sendo usado pelas autoridades econômicas dos Estados Unidos na tentativa de colocar contra a parede a maioria democrata, de cuja adesão depende a aprovação das medidas. O Partido Democrata está em uma sinuca de bico. Se não aprovar o pacote de U$700 bilhões do governo, que tem o objetivo de reorganizar o mercado financeiro, mas ninguém sabe que resultado terá, será culpado pela crise que inevitavelmente virá, com conseqüências imprevisíveis, até mesmo não termos uma segunda-feira no dia 29 de setembro.

Se, no entanto, aprová-lo nos termos em que foi para o Congresso, os democratas estarão se submetendo ao rolo compressor republicano, o que já se mostrou altamente prejudicial quando ajudaram a aprovar o Patriotic Act, em conseqüência dos atentados de 11 de setembro de 2001, e depois foram acusados de terem dado suporte a atitudes radicais do governo, inclusive escutas ilegais e torturas a presos políticos.

Aprovar poderes ilimitados para o secretário do Tesouro, mesmo que tenham perspectiva concreta de poder a partir de 15 de janeiro do ano que vem, sem que os cidadãos comuns que não conseguem pagar suas hipotecas tenham algum tipo de alívio, seria dar um aval ao governo republicano que causou toda essa tragédia econômica.

Aprovar um socorro aos bancos e banqueiros que quebraram, sem limitar seus ganhos daqui para frente seria o mesmo que admitir que ninguém tem que ser punido pela ganância e pela irresponsabilidade que o candidato democrata Barack Obama aponta como as verdadeiras razões da crise.

O pacote de socorro que o governo republicano montou no último fim de semana tornou-se o ponto central da campanha presidencial, e nem mesmo o candidato oficial, o republicano John McCain, encontra ambiente político para dar um aval cego à administração Bush.

Ele criticou o governo por não ter se adiantado à crise, e disse que não é possível dar um poder tamanho ao secretário do Tesouro Henry Paulson, que, pelo projeto apresentado, poderia definir unilateralmente o que fazer com o dinheiro aprovado pelo Congresso e seria inimputável em qualquer instância judicial.

McCain está propondo que uma comissão de "notáveis", mesmo que partidários, tenha a incumbência de acompanhar e fiscalizar as decisões da Secretaria de Tesouro durante os dois anos estimados para a limpeza do mercado financeiro.

Obama também não está disposto a dar "um cheque em branco" para a administração Bush, e leva a discussão para a proteção aos mutuários da casa própria. O que retirará de sua candidatura a ameaça de ser considerada co-responsável por qualquer medida impopular que venha a ser tomada pelo governo na defesa dos interesses de Wall Street, que Obama coloca como contrários aos interesses da "Main Street" (rua principal), ou seja, a população de maneira geral, que não tem dinheiro aplicado, mas sofre com as conseqüências da crise na economia real.

Há também um consenso entre os candidatos de que uma nova regulamentação do mercado financeiro deverá surgir dessa crise, com um acompanhamento mais próximo e mais firme de agências reguladoras, novas ou mais provavelmente as já existentes, mas com poderes reforçados e, mais importante até, falando entre si, para que o acompanhamento do que acontece no mercado tenha mais transparência. E as informações possam ser consultadas pelos participantes do jogo, sejam os investidores pessoas físicas, sejam as empresas.

Uma das razões por que os próprios bancos pararam de emprestar dinheiro entre si, na semana passada, foi que não havia informações confiáveis no mercado sobre que instituições tinham crédito podre, e em que quantidade.

Parece inevitável que o mercado financeiro não seja mais o mesmo daqui para frente, e que alguns investimentos desapareçam, por falta de ambiente propício a alavancagens estratosféricas como vinha acontecendo.

Um tema que já se discute abertamente, mas não agrada aos participantes do mercado financeiro, e muito menos aos candidatos, é a conseqüência de todo esse movimento de salvamento na economia real.

O próximo presidente, a ser eleito em novembro, receberá o país com o enorme déficit fiscal ocasionado pela guerra do Iraque e aumentado pelo pacote que está em debate no Congresso.

O programa de impostos que os dois candidatos apresentaram já não tem mais nada a ver com a realidade, nem os cortes prometidos por Obama para as classes mais baixas, nem o aumento apenas para os mais ricos.

Também McCain não poderá manter sua promessa de permanecer na política de Bush de incentivar as classes produtoras cortando impostos, e nem garantir que não aumentará os impostos de ninguém.

Parece inevitável, embora dificilmente o tema venha a ser puxado por qualquer dos candidatos, que um aumento de impostos em 2010 aconteça diante do aumento dos gastos públicos já contratados.

Como o orçamento de 2009 já estará aprovado pelo Congresso com base na proposta do atual governo, a calibragem desse aumento terá que ser feita no segundo ano da próxima administração, quando já teremos uma idéia de como o novo governo estará lidando com a "herança maldita" recebida da gestão Bush.

Isso na suposição de que o pacote será aprovado ainda esta semana, e que o fim do mundo não chegará na próxima segunda-feira.

E ainda abanamos o rabo


Clovis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Um grande craque do mundo financeiro, com experiência nos dois lados do balcão (governo e iniciativa privada), escreve para corrigir uma informação da coluna: foram seis de oito, e não três de cinco, as financeiras independentes de banco que quebraram nos Estados Unidos.

Poderia ter acrescentado que foram todas as oito, agora que a Morgan Stanley e a Goldman Sachs tomaram a iniciativa de abandonar a independência (e a conseqüente regulação bem mais frouxa, quando não inexistente) para se tornarem bancos também. O "New York Times" diz que o pedido é o reconhecimento de que "seu modelo de finanças e investimento tinha se tornado demasiado arriscado e que necessitavam do colchão de depósitos bancários".

Será que agora o Brasil e seus analistas vão abandonar o complexo de vira-lata (apud Nelson Rodrigues) e deixar de abanar o rabinho ante as miçangas oferecidas pelos colonizadores, no caso, os colonizadores financeiros? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve um orgasmo quando o Brasil foi alçado a "investment grade", palavra que ele disse nem saber pronunciar direito. Mas era a "declaração", segundo Lula, de que o Brasil "é um país sério".

Bobagem, Lula. O pessoal que diz quem é e quem não é "investment grade" não viu (ou viu, mas ficou quieto, o que é suspeito) todas essas grandes e históricas firmas financeiras deixarem de ser sérias até o ponto de quebrarem.

Outra coisinha: foi o pessoal da Goldman Sachs quem inventou a sigla Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) para designar as supostas potências mundiais do ano 2020. Se não enxergaram os riscos que corriam em 2007/2008, serão capazes de enxergar lá longe? A crise deixou evidente que acreditar nessa gente é acreditar em duendes. Prefiro jogar os búzios ou consultar cartomantes.

Marcação homem a homem


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Os dois até usam a mesma expressão. O presidente Luiz Inácio da Silva e o governador José Serra prometem mergulhar “de cabeça” no segundo turno para tentar eleger os respectivos candidatos à Prefeitura de São Paulo.

É possível que nenhum dos dois tenha a intenção explícita de medir forças - o governador certamente não tem -, mas, uma vez iniciado o embate da reta final, será inevitável a “leitura” antecipada do embate presidencial de 2010.

Serra é o candidato mais cotado entre os nomes apresentados ao eleitor nas pesquisas e Lula, o mais lembrado nas citações espontâneas, já avisou mais de uma vez aos oponentes que não perderá a chance de eleger o sucessor.

Portanto, nada mais óbvio: lutando na mesma praça em regime de exclusiva dedicação ostensiva, ambos roubarão a cena principal oficialmente reservada a Marta Suplicy e ao adversário a ser definido nas próximas duas semanas - Geraldo Alckmin ou Gilberto Kassab.

Ainda que procurem fugir dos temas nacionais, durante as três semanas de campanha entre o primeiro turno e a etapa final, presidente e governador terão suas ações examinadas sob a ótica da política nacional e da disputa federal daqui a dois anos.

Com a popularidade de Lula chegando aos píncaros (77,7% na pesquisa CNT/Sensus de ontem), o governador José Serra é o menos interessado em confrontos diretos.

Tanto que a idéia de Serra é ficar dentro do cardápio local. Argumenta que por onde anda ninguém lhe cobra a abordagem de assuntos de caráter nacional - políticos muito menos - e diz que o eleitor não se lembra de falar no presidente quando o diálogo é com o governador.

Se, como afirma, escuta a voz da rua, Serra também se pauta pelas pesquisas. E estas não o aconselham a confrontos. Mostram o eleitorado refratário a brigas partidárias e indicam que uma parcela significativa de adeptos do governo Lula hoje é bastante sensível à perspectiva de amanhã votar em Serra para presidente.

Por isso mesmo, no seu discreto roteiro do primeiro turno, o governador seguiu os passos da agenda presidencial em São Paulo. Osasco, São Bernardo, Suzano, Guarulhos e Diadema são alguns exemplos de municípios onde Lula esteve e Serra viu-se obrigado, por pressão dos correligionários, a visitar logo depois.

Apenas para marcar presença, sem ataques contraproducentes. No segundo turno, a idéia da marcação homem a homem persiste, bem como a intenção de atuar sem extrapolar o limite da fidalguia taticamente mais conveniente.

Só que não jogará como quiser; terá de levar em conta as circunstâncias, cujas condições serão impostas pelo presidente Lula. Se a ele convier a amenidade, o ambiente será ameno. Mas se considerar a eleição de Marta como ponto de honra e achar para isso oportuno partir “para cima”, o governador terá de escolher entre revidar ou ouvir calado.

Lembrando que não é Lula e sim seus adversários que precisam se preocupar com eventuais desgastes resultantes de conflitos. A confortável situação do presidente dispensa tais precauções. Ele transita em patamar muito acima dos oponentes e dispõe de salvo-conduto para pintar e bordar em seus discursos sem o menor risco.

O presidente pode vir a alterar seus planos no segundo turno em virtude das implicações nacionais futuras, mas até o presente momento não dá sinal de compartilhar da política de boa vizinhança. Ao contrário.

No fim de semana Lula esteve em São Paulo para mais um ato público de ajuda à sua candidatada e tripudiou sobre as agruras do campo adversário.

Chamou os adversários de Marta de “hipócritas”, fez piada do mote “com Lula tudo bem” consagrado pelo candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, chamou de “oportunista” o DEM e ainda fez pouco do partido de Gilberto Kassab, por fazer oposição a ele no Congresso e se fingir de governista nos palanques.

Ambos engoliram calados os desaforos, produzidos no afã do presidente de conclamar o eleitorado a eleger a candidata do PT no primeiro turno.

Hipótese fora de cogitação no PT, mas a única em que Lula e Serra poderiam preservar com segurança o clima de cordialidade atual, evitando o risco de freqüentar o mesmo ambiente em posições francamente opostas antes do início oficial da campanha de 2010.

O astro


Mal saiu a pesquisa CNT/Sensus indicando o nome do presidente Lula como o mais lembrado para a próxima eleição presidencial, Brasília já pôs em sua agenda de boatos a retomada da proposta de mudança na Constituição para dar a ele a chance de mais uma eleição consecutiva.

Conviria ir devagar com o andor antes de interpretar esse resultado como um aval ao terceiro mandato. A pesquisa não pergunta o que pensa o eleitor sobre a mudança na regra do jogo. Além disso, se esses números fossem reproduções fiéis das vontades, os 1,9% dados a Dilma Rousseff na mesma lista enterrariam desde já a candidatura da ministra.

As tropas de Napoleão


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Tudo faz sentido. Nos EUA, onde as pessoas perdem suas casas e são chamadas a pagar a conta da crise financeira, Bush vai ladeira abaixo. Já no Brasil, o Ipea informa que 13,8 milhões pularam de faixa social entre 2001 e 2007. A aprovação do governo beira os 70%, e a popularidade de Lula bate recordes, a caminho dos 80%. O efeito Lula nas eleições municipais é óbvio. E a capacidade dele de transferir votos em 2010 e emplacar o sucessor? Pelo andar da carruagem e das pesquisas, a tese do terceiro mandato vai recrudescer e ele terá dois caminhos: ou se render às pressões da companheirada e à própria coceira continuísta, ou tentar se transformar no principal, talvez decisivo, cabo eleitoral.

Dilma Rousseff, potencial beneficiária dessa herança, teve apenas 1,9% das manifestações espontâneas da pesquisa CNT-Sensus de ontem, mas isso quer dizer pouco a dois anos da eleição. O importante, por ora, é que ela é a primeira entre os presidenciáveis lulistas, atrás só dos tucanos José Serra, favorito, e Aécio Neves, em segundo.

Comparação: em Belo Horizonte, a candidata Jô Moraes, do PC do B, disparou nas primeiras pesquisas, mas, com a propaganda eleitoral e a força do governo do Estado e da prefeitura, passou a comer poeira.

Márcio Lacerda, PSDB-PT-PSB, assumiu a liderança.

Outra: em Recife, dez entre dez transeuntes apostavam que o ex-governador Mendonça Filho, do DEM, estava virtualmente eleito.

Mas o poder de Lula, do governador Eduardo Campos (PSB) e do prefeito João Paulo (PT) são irresistíveis, e o petista João da Costa, um desconhecido, já prepara a posse.

Dilma está hoje como Lacerda e Costa no início da campanha, tranqüilona, esperando sentada a chegada das tropas de Napoleão. Sentada, diga-se, em cima do pré-sal, do PAC, do Bolsa Família e dos quase 80% de Lula. Para pânico da oposição, ou ele se elege, ou pode eleger até um poste. Mais um, ou uma.

A ofensiva fiscalista dos governadores


Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Passadas as eleições, os governadores estaduais devem desencadear uma ofensiva sobre o Congresso e o Judiciário para influir na votação de mais de 40 projetos que aumentam os gastos públicos. Na mira dos governadores estão inclusive leis já aprovadas e sancionadas, como aquela que estabelece o piso salarial dos professores.

A aprovação do piso salarial dos professores da rede pública já havia acionado a luz amarela no gabinete dos governadores, mas uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em entrevista à TV Brasil, na última semana, levou os Estados a acionar seus mecanismos de defesa.

"Se for aprovado no Congresso um acordo entre os líderes, certamente que não vetarei", disse Lula em referência ao projeto que acaba com o fator previdenciário, em tramitação no Senado.

São dois os projetos que alteram regras atuais da Previdencia sob a análise dos congressistas. Um deles indexa os benefícios ao salário mínimo. O outro acaba com o fator previdenciário.

Segundo cálculos das assessorias técnicas dos governadores, a despesa previdênciária deve atingir 7,11% do PIB em 2008 e 11,23% em 2050, de acordo com os números e as regras atuais. Se a extensão da regra do reajuste do salário mínimo a todos os benefícios previdenciários for aprovada, esse percentual passará para 18,17% do PIB em 2050.

Considerando-se apenas o projeto que revoga o fator previdenciário e altera a regra do período base de cálculo do salário-de-benefício (elimina média longa desde julho de 1994 e restringe à média curta dos últimos 36 meses), o impacto será de 16,35% do PIB em 2050.

São duas medidas do tipo que podem levar ao rebaixamento do Brasil pelas agências de classificação de risco (muito embora elas não estejam com o prestígio muito em alta atualmente, quando seus palpites são favoráveis, sempre merecem os aplausos do governo federal).

O que alarma governadores é que o chamado espírito da Lei de Responsabilidade Fiscal parece estar desencarnando da União, como demonstram o aumento dos gastos com pessoal e declarações como a de Lula à TV Brasil.

Bem ou mal os Estados se adaptaram à LRF. Até a governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, acabou de apresentar o primeiro orçamento equilibrado de seu conturbado governo. Alagoas parecia um caso perdido, mas aos poucos procura se ajeitar. Aécio Neves acertou as contas deixadas por Itamar Franco. São Paulo, que já estava arrumado, pode agora apresentar suas melhores planilhas de investimentos dos últimos anos.

Dos mais de 40 projetos com impacto fiscal, os que causam maior impacto nos Estados são o do piso dos professores e o que regulamenta o que é gastos com Saúde nos Estados. Só em São Paulo, esse projeto da saúde, se aprovado, teria um impacto equivalente a R$ 1,450 bilhão. Isso sem falar que a exclusão do gasto com inativos como despesa de saúde abre precedente para medidas parecidas na educação.

No caso dos professores, o que está em jogo não é propriamente o piso de R$ 950. Estados mais ricos, como São Paulo, já pagam mais que esse valor a seus professores. O que está em jogo são alguns penduricalhos colocados no Congresso - mas sancionados por Lula - ao projeto do governo, como a invasão de competências estaduais e municipais e, o que é mais grave, a reintrodução na economia do veneno da indexação.

Ocorre que a lei prevê o reajuste anual automático do piso nacional pela variação do valor mínimo por aluno do Fundeb. Procuradores estaduais e secretários de Educação, reunidos, concluíram que a norma é inconstitucional, pois invade a competência de Estados e municípios e contraria a norma constitucional de que só lei específica pode determinar aumento de salários dos servidores públicos.

O salário dos professores, portanto, foi indexado ao piso. O governo resolveu então enviar um outro projeto ao Congresso que substitui esse critério de reajuste pela variação do INPC, o que à primeira vista parece mais razoável, mas tem o inconveniente de reintroduzir no setor público e na economia brasileira o veneno inflacionário da indexação de preços e salários. A emenda saiu pior que o soneto: indexa o salário dos professores ao piso e indexa o piso ao INPC.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1095&portal=

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

CNT/Sensus: Avaliação positiva do governo Lula bate recorde e chega a 68,8%, mas Serra lidera intenção de votos para 2010

Rodrigo Vizeu
DEU EM O GLOBO/REUTERS
Publicada em 22/09/2008 às 13h00m

BRASÍLIA - A avaliação positiva (ótimo e bom) do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu de 57,5% em abril para 68,8% em setembro. A pesquisa do Instituto Sensus e encomendada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) também mostrou que a avaliação negativa (ruim e péssimo) caiu de 11,3% para 6,8%. O número dos que consideram a administração federal regular foi de 29,6% para 23,2%. (Como você avalia o governo Lula?)
O percentual de ótimo e bom bateu o recorde anterior, de abril, e é o maior de toda a série histórica do levantamento, realizado desde julho de 1998, ainda no governo Fernando Henrique Cardoso.

Segundo o diretor do Instituto Sensus, Ricardo Guedes, o novo recorde se deve ao bom desempenho da economia e aos programas sociais. Para o pesquisador, o recente crescimento da inflação e dos juros ainda não afetou a percepção da população.

- As reservas estão em alta, a economia funciona. Levantamentos sobre os resultados dos programas sociais indicam que eles fomentaram as economias locais e geraram empregos - afirmou Guedes.

A avaliação do desempenho pessoal do presidente Lula também cresceu, indo de 69,3% para 77,7%. A desaprovação do presidente caiu de 26,1% para 16,6%. A última vez que a aprovação pessoal do presidente foi tão alta foi no início do mandato de Lula. Em julho de 2003, ela foi de 77,6%.

O presidente aparece como um importante cabo eleitoral nas eleições municipais: 15,5% dos entrevistados votariam apenas no candidato indicado pelo presidente, enquanto 28,6% poderiam votar no nome sugerido pelo petista. Os dois percentuais somados chegam a 44,1%, índice de voto potencial em candidatos de Lula. Não votariam nos candidatos a presidente 19,9% do eleitorado. Outros 30,9% só apoiariam se conhecessem ( clique e leia mais ).

Serra lidera intenções de voto para 2010

A pesquisa voltou a avaliar a intenção de voto para a sucessão presidencial em 2010, sem Lula, e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), mantém liderança na pesquisa estimulada. Ele aparece na frente em todas as simulações de que participa.
A ministra da Casa-Civil, Dilma Rousseff (PT), nas simulações em que aparece, ocupa o terceiro ou quarto lugares no primeiro turno e é derrotada pelo PSDB no segundo.

Em uma primeira hipótese, Serra teria 38,1% dos votos, contra 17,4% do deputado Ciro Gomes (PSB), 9,9% da ex-senadora Heloísa Helena (PSOL) e 8,4% da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

No caso do PSDB escolher Aécio Neves, o líder das pesquisas passaria a ser Ciro Gomes, com 24,9%, contra 18,2% do tucano, 13,4% de Heloísa e 8,6% de Dilma. Em uma disputa em que PT trocaria Dilma pelo ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), Serra ficaria com 38,5%, contra 19,6% de Ciro, 10,6% de Heloísa e 2,7% de Patrus.

Tampouco a ex-ministra e ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy se sairia tão melhor como nome petista. Também ficaria em último, com 5,9% das intenções de voto. Na dianteira apareceriam Serra (37,9%), Ciro (18,9%) e Heloísa (10,4%).

Em uma hipótese sem Ciro, Serra lideraria com 45,7%, contra 12,5% de Heloísa e 10% de Dilma. Trocando Serra por Aécio, esse cenário se embolaria: Aécio teria 22,4%, Heloísa 21,2% e Dilma 12,3%.

Em um eventual segundo turno entre Serra e Dilma, o governador ficaria com 51,4% das intenções de voto, contra 15,7% da ministra. Aécio também derrotaria Dilma por 34% contra 18,4%. Serra também venceria Patrus por 55,1% a 7,7% e Ciro por 47,1% a 22,5%.

Pequena projeção explica desempenho ruim dos petistas

O mau desempenho dos candidatos petistas contrasta com a alta avaliação do presidente Lula. Para o diretor do Instituto Sensus, Ricardo Guedes, isso se deve à ainda pequena projeção dos nomes do PT, entre eles Dilma, a atual preferida de Lula.

- Os nomes mais fortes do PT não estão no cenário político, como José Dirceu e Antonio Palocci. Os nomes atuais são mais recentes. Dilma ainda não tem a imagem tão atrelada à do presidente. Além disso, falta-lhe uma marca - afirmou.

Guedes acrescentou que, apesar de Lula ser o maior cabo eleitoral do país, não é qualquer nome indicado por ele que será eleito:
- O candidato escolhido deve ser palatável - disse.

O pesquisador também ponderou que, apesar dos candidatos do PT ainda aparecerem mal nas pesquisas, eles devem ganhar musculatura e se aproveitar mais da avaliação de Lula quando começar o período eleitoral de 2010. Ele citou como exemplo o caso do candidato do PSB à Prefeitura de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, que tinha 3% no início da campanha e já ultrapassou 40%. O candidato se aproveitou da alta aprovação de seus maiores apoiadores: o governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel (PT).

Inflação subiu para 81,1% dos entrevistados

A pesquisa CNT/Sensus mostrou ainda que para 61,5% da população, a qualidade de vida melhorou nos últimos quatro anos. Ela piorou para 11,6% dos entrevistados e se manteve igual para 25,8%. De acordo com Ricardo Guedes, historicamente, governos com nível altos nesse indicador tendem a fazer os sucessores.

- É uma boa referência em todos os quadros que tendem para o bipartidarismo, como costuma acontecer em nossas eleições presidenciais - disse Guedes.

Ainda de acordo com o levantamento, 58,1% dos entrevistados acreditam que o poder de compra do salário-mínimo no governo Lula é maior que nas administrações anteriores. Um total de 15,9% dos entrevistados afirmou ser beneficiário de pelo menos algum dos programas sociais do governo, enquanto outros 49,7% conhecem pessoas beneficiadas. Um terço (33,3%) não conhecem pessoas que recebem benefícios estatais.

Já 75,3% da população demonstraram tendência a votar em candidatos que mantenham os atuais programas sociais, enquanto apenas 13,6% não apoiaram nomes com esse compromisso.

A inflação subiu para 81,1% dos entrevistados. O número estava em 67,7% em abril deste ano. 11,6% acreditam que os preços se mantiveram estáveis e 3,1% acham que estes caíram. Para 69,2%, o maior aumento dos preços se deu nos alimentos. Em seguida aparecem impostos e tarifas (4,8%), produtos de limpeza (2,4%) e transporte (1,3%).

A pesquisa CNT/Sensus foi realizada de 15 a 19 de setembro em 136 municípios de 24 estados de todas as regiões do país. Foram entrevistadas 2.000 pessoas. A margem de erro é de três pontos percentuais.


O labirinto latino-americano


José de Souza Martlns*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS
Publicado em 21/9/2008

À falta de uma utopia fundadora da identidade nacional, a Bolívia unificou-se à força e importou o colonialismo.


É velha história a de que a Bolí­via é um país inviável. Produto histórico de uma colagem políti­ca que atendeu a conveniências geopolíticas e de ocasião no mo­mento das independências lati­no-americanas, acabou juntan­do o que não se juntava anão ser pela exploração econômica, pe­Ia opressão social e pela domina­ção política; Não é o único caso de países gestados por artifícios vários, tanto aqui na América Latina quanto na Europa, na Ásia e na África. O discurso so­bre a inviabilidade boliviana tem a sua dose de malícia inte­resseira. Se as enormes diferen­ças lingüísticas, culturais e étni­cas, tão características da Bolí­via, fossem obstáculos à afirma­ção de um país, a Suíça não exis­tiria. No entanto, existe, é prós­pêra e sólida, reunindo harmoni­camente povos de quatro dife­rentes línguas e várias religiões. A diferença é que os suíços com­partilham o credo republicano da comunhão política que unifica no respeito à diversidade.

Muitos países ditos inviáveis o são porque não encontraram a referência unificadora, a uto­pia fundadora de uma identida­de nacional e da premissa de que o todo antecede os interes­ses das partes e das facções. Acabaram perdendo-se na uni­ficação forçada das ditaduras explícitas ou dissimuladas, meio de realimentar as formas de dominação e exploração eco­nômica que transferiu para den­tro o colonialismo de fora. O de­senvolvimento econômico difí­cil dos países latino-america­nos tem sido feito à custa da inte­riorização dos vínculos de domi­nação colonial, no chamado co­lonialismo interno, que cimen­tou com base no desenvolvimen­to desigual as unidades nacio­nais _ a prosperidade de umas regiões em detrimento de ou­tras. Portanto, desigualdades que só podem ser superadas por meio de pactos e não por meio de conflitos.

Nas décadas recentes, a dinâ­mica da civilização contra a bar­bárie, já em si equivocada, deu lugar a uma nova polarização, cujo equívoco não é menor: a do socialismo contra o capitalis­mo. Polarização que não leva em conta as muitas limitações históricas e insufIciências da América Latina, onde o capita­lismo é, quando muito, um resí­duo mal realizado desse modelo de economia e de sociedade. O próprio Marx tinha sérias dúvi­das sobre a possibilidade do sal­to para o socialismo em socieda­des de capitalismo precário.

Não obstante, o socialismo de classe média que se dissemi­nou na América Latina ignorou tanto a teoria como a realidade regional. O limite trágico dessa orientação foi a revolução foquista e desenraizada de Che Guevara na Bolívia. Mas o fo­quismo continua sendo a orien­tação dominante das idéias e da prática de esquerda nos diferen­tes países da América Latina, no pressuposto de que os po­bres precisam de quem os liber­te, já que incapazes de liberta­rem-se a si mesmos e de perse­guirem causas próprias.

O socialismo não encontrou na América Latina o teórico que pudesse interpretá-Ia na pers­pectiva dos anseios e carências de mudança emancipadora e libertadora das populações des­validas, no marco do que são e não no marco do que não ,são. Ao contrário, o elitista socialismo latino-americano contribuiu pa­ra acentuar a conflitividade das nacionalidades inconclusas, quando muito tornando-se ins­trumento da nova barbárie representada por diferentes apo­­ios, como o socialismo boliva­riano, de Hugo Chávez, na Vene­zuela, o socialismo cocaleiro, de Evo Morales, na Bolívia, o socia­lismo místico dos sandinistas, na Nicarágua, e do PT e do lulis­mo, no Brasil. São designações que evidenciam a ausência dos fundamentos sociais apropria­dos para gestação de uma visão social da América Latina que se­ja universalista e includente, que norteie a busca de emanci­pação como momento do pro­cesso de confirmação das nacio­nalidades e de emancipação de todos e não só de alguns.

O que se passa na Bolívia e em outros países latino-ameri­canos é a disseminação da ideo­logia da revanche, como se fos­se equivalente de socialismo e revolução. Não o é. A mística da vingança histórica não liberta nem revoluciona. É a mera fan­tasia da insurgência dos oprimidos por séculos de iniqüidades, que poderiam, finalmente, re­fundar o Novo Mundo e refun­dar as raças, em que os índios se tornariam um fictício índio genérico, inventado pelo bran­co. Os mestiços e os negros se purificariam na ficção de um retorno a identidades que expres­sam despeitos brancos de hoje. Os brancos, enfim, se negariam historicamente e se liberta­riam deixando de ser o que são, imitando quem não são. Uma absoluta negação da diversida­de própria do mundo moderno e da democracia necessária à coexistência dos diferentes.

A América Latina tem opres­sões e conflitos sociais e étnicos consolidados, o que torna o ce­nário político da região muito complicado. A ascensão políti­ca recente de governantes oriundos das populações po­bres, como o proletário Lula, no Brasil, o mulato Chávez na Ve­nezuela e o índio Evo, na Bolí­via, altera o cenário profunda­mente. Lula, oriundo da elite operária bem paga do ABC, se compôs com o poder dominan­te e se distanciou de seus com­promissos de origem. Chávez ascendeu por dentro da institui­ção militar e, portanto, por den­tro de um estamento residual da velha e elitista sociedade ve­nezuelana, que foi incapaz de promover a democracia e a dis­tribuição de renda. Evo, mesti­ço, ascendeu na economia mar­ginal da coca e do atraso que ela representa. O socialismo de dis­curso apenas grudou neles em busca de uma alternativa de po­der sem de fato enraizar-se, inje­tando o sucedâneo do conflito de cIasses nos respectivos popu­lismos. Na falta de inserção polí­tica no historicamente possí­vel, a popularidade desses go­vernantes apenas confirma que Evo se perde no isolamento, Chávez no confinamento da gra­vata e do palavrão e Lula na soli­dão palaciana e na bajulação da corte.

Perdem-se também as oposições, incapazes de pensar saídas políticas que não sejam mera cópia de modelos de paí­ses que não somos, porque não conseguem decifrar o clamor político da nova humanidade que na América Latina pede a palavra e pede o poder.

* José de Souza Martins é professor de Sociologia na Faculdade de Filosofia da USP e autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto)

Política, identidade e programas


Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Um dos efeitos das oscilações recentes nos números revelados pelas pesquisas sobre a eleição presidencial nos Estados Unidos foi a ansiedade entre os apoiadores de Barack Obama pela perda da liderança nas últimas semanas (liderança que agora parece ter sido recuperada). Em artigo de 11 de setembro no site "progressista" BuzzFlash, George Lakoff, professor de ciência cognitiva e de linguística na Universidade da Califórnia (Berkeley), traz conselhos à campanha de Obama.

Além de certos aspectos técnicos, considerados secundários, sobre como "enquadrar" apropriadamente os temas, o ponto focal do texto é o contraste, na decisão de voto dos eleitores, entre o papel dos programas ou "issues" em discussão (a economia, o Iraque etc.), de um lado, e, de outro, o de traços pessoais de cada candidato que podem ser resumidos na capacidade de induzir o eleitor a confiar nele e identificar-se com ele: este segundo aspecto seria o que importa para conquistar os votos. Obama, que teria vencido as prévias valendo-se de sua riqueza de recursos nesse aspecto (enquanto Hillary Clinton se concentrava nos "issues", como Al Gore e John Kerry em anteriores eleições perdidas), estaria ultimamente se voltando, também ele, para aborrecidos discursos sobre questões específicas de políticas a serem executadas - efeito que teria sido agravado pelo impacto das características pessoais de Sarah Palin e a insegurança trazida à campanha de Obama. Em vez de apostar numa "teoria iluminista da razão" e na possibilidade de conquistar o eleitor pelo esforço de persuasão a respeito dos problemas, seria preciso contar com "a razão real" - as pessoas pensam, diz Lakoff, em termos de "narrativas culturais, estereótipos, enquadramentos e metáforas".

A questão de políticas ou "issues" versus identidade no processo eleitoral, com suas ramificações quanto à racionalidade do eleitor, é um velho problema da sociologia política. Sua relevância para o Brasil é patente, mostrando-se talvez de modo especialmente intenso no Brasil de Lula na Presidência, em que volta e meia os analistas se indagam a respeito das razões da "blindagem" do presidente e dos níveis inéditos de aprovação obtidos (e é possível observar, naturalmente, que, ainda que Lula possa singularizar-se por sua biografia e traços pessoais a ela ligados, o forte apoio do eleitorado distingue vários outros titulares de cargos executivos eletivos, como a cena eleitoral do momento revela em casos como os de Beto Richa, Aécio Neves, Fernando Pimentel e outros). Se é possível apontar nos Estados Unidos uma "razão real" em atuação que seria na verdade pouco racional em sentido mais exigente, que esperar no Brasil, marcado pela desigualdade e pelo acesso muito mais precário à educação e aos recursos intelectuais correlatos?

Mas há algumas ponderações cruciais a serem feitas contra certa simplificação envolvida nas ênfases de Lakoff. Este reconhece o caráter perfeitamente racional de que você, como eleitor, não dispondo de conhecimento ou informações que lhe permitam avaliar a situação e seus desdobramentos (obviamente do ponto de vista dos seus próprios interesses ou objetivos de qualquer natureza, embora isso não esteja explícito no texto de Lakoff), indague se o candidato compartilha seus valores, se ele é veraz, se se liga efetivamente a você, se merece que você confie nele e se identifique com ele. Ora, o mecanismo em que a identificação permite ao eleitor "economizar informação", ou agir politicamente mesmo com informação precária, pode ser visto como o próprio fundamento da política, levando à operação dos vínculos de solidariedade de que depende a agregação de múltiplos interesses ou objetivos individuais ou particulares e eventualmente sua busca eficaz por coletividades de alguma amplitude. Os partidos como objeto de identificação e lealdade são um exemplo óbvio - e representam, cumpre notar, um importante passo à frente em relação ao "personalismo" das recomendações de Lakoff, salientando o processo de construção institucional que a democracia requer. Se encontro razões, na orientação geral ou na atuação de um partido, para confiar nele e me identificar com ele, estarei dispensado de depender a cada passo de figuras cujas singularidades pessoais atraiam minha simpatia (ainda que seja desejável, mesmo institucionalmente, a ocasional revitalização carismática). E não há como escapar de que essa "orientação geral" do partido tenha a ver com "issues", ou com as políticas que adota e põe em prática.

Isso redunda em que, reconhecido que a identificação pode ser racional, não há razão para deixar de reconhecer que ela pode apresentar graus diversos de racionalidade, de acordo com o volume de informações em que se funda e na postura mais ou menos sofisticada ou judiciosa no processamento da informação. Assim, apesar das generalizações "cognitivistas" de Lakoff, existe, evidentemente, a possibilidade de distinguir tipos diversos de eleitor (ou de agente político em geral): de um lado, o eleitor informado e lúcido, capaz, por exemplo, de ser fiel a objetivos maiores ou de mais longo prazo (ou mesmo a certo ideal de vida ou princípio moral, vale dizer, a certa identidade que, no melhor dos casos, ele próprio escolhe em ampla medida); de outro, o eleitor desinformado e algo míope, passível de ser manipulado quer em razão de suas carências e premências materiais, quer por meio de imagens difusas em que se pode apelar, justamente, a identidades definidas de maneira mais ou menos tosca em termos de "branco", "patriota", "negro", "pobre", "descamisado" etc. É claro que nesse eixo giram as diferenças entre coisas como clientelismo, populismo e atividade político-partidária de menor ou maior consistência e qualidade. Em suma, melhor ou pior política ou democracia.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Podem conferir


DEU NA COLUNA DE AUSGUSTO NUNES NO JORNAL DO BRASIL


O fascínio pelo nunca experimentado, pela trilha por desmatar, pelo salto sem rede e sem medos – um traço fundamental da alma carioca – parece ter sobrevivido a balas perdidas. A candidatura de Fernando Gabeira está ficando com cara de movimento.

Candidatos temem queda nos investimentos

Fábio Vasconcellos e Ludmilla Lima
DEU EM O GLOBO

Maioria considera insuficientes os R$744 milhões previstos na proposta orçamentária e questiona números

Luz amarela para os candidatos a prefeito do Rio. Com tantas propostas, pode faltar dinheiro na hora de cumprir as promessas. Pelos números preliminares do orçamento de 2009, a nova administração arcará com uma dívida de R$1,1 bilhão (juros e amortização). O desembolso é 28% maior do que o estimado para este ano. O peso da dívida já produz efeitos. A expectativa de investimentos encolheu 13% em relação a 2008 (passou de R$856 milhões para R$744 milhões).
Os números deixaram Eduardo Paes (PMDB) desconfiado:
- Há números estranhos. O serviço da dívida está muito mais alto do que o deste ano. Houve ainda um aumento do orçamento (receitas). Parece que há certa maquiagem - criticou Paes, que ontem fez campanha ao lado do governador Sérgio Cabral, na Zona Oeste.

Apesar da queda na estimativa de investimento, o peemedebista considerou elevado os R$744 milhões previstos:
- A situação não estará tão confortável assim para ter R$700 milhões de investimentos.

Gabeira suspeita de "esqueletos no armário"

Já o candidato Fernando Gabeira (PV) demonstrou preocupação com o que chamou de "esqueletos no armário":
- Existe uma dívida de R$600 milhões contraída perante a Justiça por causa do IPTU progressivo. Acho que teremos dificuldades com esse orçamento, que precisará ser adequado à realidade.

O senador Marcelo Crivella (PRB) acredita que R$700 milhões sejam insuficientes. Mas espera aumentar a receita com a liberação, pela União, do empréstimo do BID para o Favela-Bairro 3 (US$300 milhões, divididos entre a prefeitura e o banco) e com a implantação da nota fiscal eletrônica:
- Hoje, esse orçamento é insuficiente para as demandas das comunidades carentes e para o resto da cidade.

Jandira Feghali (PCdoB) defendeu uma auditoria nas contas do município:
- A prefeitura está se endividando mais. No entanto, só com os dados apresentados não dá para dizer que isso é uma bomba. É preciso fazer uma auditoria para se ter a noção exata. O investimento caiu porque a arrecadação está caindo e as despesas com juros aumentaram.

Para Solange Amaral (DEM), os recursos previstos são suficientes para realizar propostas como a construção do Hospital da Mulher e a ampliação do Ônibus da Liberdade.

- Há muitas outras possibilidades de investimentos além dos recursos próprios. Educação e saúde, por exemplo, têm recursos carimbados. O Fundeb permite que se invista em creches. Acho que R$700 milhões são um valor considerável.

O prefeito Cesar Maia explicou que o aumento dos gastos com a dívida ocorreu devido à elevação do Índice Geral de Preços (IGP), que a corrige anualmente. Sobre um possível arrocho nas contas de seu sucessor, Cesar disse que o pagamento da dívida tem limite de 11% das receitas constitucionais. Afirmou ainda que os valores estimados para investimentos são compatíveis com orçamentos anteriores.

- Esse é o nível de investimentos que a prefeitura aplica. Oscila em torno de R$700 milhões por ano. Dependendo da arrecadação efetiva, pode ser maior ou menor.

O candidato do PT, Alessandro Molon, disse que apenas com mudanças na proposta orçamentária será possível contemplar mais projetos:
- Vamos investir em prevenção, realizando o Programa Saúde da Família. Com o mesmo volume de recursos, será possível fazer muito mais.

O candidato do PSOL, Chico Alencar, afirmou que há problemas na gestão das contas, como em relação à Previdência:
- O grande desafio é fazer a lei ser respeitada e não realizar contingenciamento.

Religião, última aposta pelo segundo turno

Carlos Braga
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Candidatos abraçam o tema para seguirem na disputa

Na reta final da campanha para a prefeitura, a religião se tornou um dos temas a que os candidatos têm recorrido na acirrada disputa por uma vaga no segundo turno. Se por um lado Marcelo Crivella (PRB) continua tentando descolar sua imagem da Igreja Universal do Reino de Deus, Eduardo Paes (PMDB) sempre procura divulgar sua ligação com a Igreja Católica. Em um material da campanha de Paes consta a Oração do Cristão na Política, que pede "a intercessão de Maria, nossa Mãe aparecida... para nos ilumine na construção de uma sociedade justa e solidária". Em comum, todos os candidatos defendem o Estado laico e a tolerância religiosa, o que os fez participar ontem da Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa.

Realizada ontem na Av. Atlântica, em Copacabana, Zona Sul, atraiu candidatos à prefeitura dispostos a divulgar sua simpatia pela causa. Alessandro Molon (PT), Jandira Feghali (PCdoB), Marcelo Crivella (PRB), Fernando Gabeira (PV), Paulo Ramos (PDT) e Carlos Alberto Muniz, candidato vice-prefeito de Eduardo Paes (PMDB), percorreram a orla ao lado de católicos, evangélicos, judeus e membros de religiões afro para divulgar sua tolerância com outras crenças. Ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, também participou. Crivella tirou fotos ao lado de faixas de representantes do espiritismo e conversou com representantes de várias religiões. O candidato estava acompanhado do vice-presidente regional do PTB (partido da coligação de Eduardo Paes), ligado à Igreja Católica. Crivella se disse vítima de preconceito religioso e quis mostrar, com a participação no evento, que o voto não deve ser decidido de acordo com a religião. ­

Crivella foi muito bem recebido e esteve lá para mostrar que não existe preconceito religioso por parte dele. Ao contrário, é, sim, vítima de preconceito - disse Isaías de Zavarise, assessor do candidato. Eduardo Paes, que divulgou na imprensa a bênção que recebeu do Papa Bento XVI, pediu que seu candidato a vice entregasse carta de apoio a Ivanir dos Santos, presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, responsável pela caminhada. No documento, Paes disse que o incitamento ao ódio religioso, assim como o ódio racial, servem ao propósito da dominação. Carlos Alberto Muniz fez uma crítica velada a Crivella. ­

O movimento também expressa um repúdio àqueles que tentam misturar religião e política. São instâncias que têm que caminhar separadas e se respeitar ­ disse. A presença de Marcelo Crivella na caminhada foi analisada por Molon como uma tentativa do candidato de se descolar da Igreja Universal, a qual associa a casos de intolerância religiosa. ­ Crivella vem tentando dissociar-se de uma denominação que frequentemente é ligada a casos de intolerância ­ disse Molon. A candidata do PCdoB, que já enfrentou atritos com a Igreja Católica por conta de sua posição a favor da legalização do aborto, criticou a intolerância. ­

A cidade não merece uma guerra santa e sua gestão não pode ser dirigida a só uma religião. A tolerância, porém, parece andar em falta na Vila Kenndy, na Zona Oeste. Durante um corpo-a-corpo de Solange Amaral, realizado ontem, o líder comunitário Jorge Azevedo, que animava os cabos eleitorais, queixou-se dos constantes atritos que têm acontecido entre partidários de Crivella e de Eduardo Paes por causa de diferenças religiosas. ­ Outro dia quase saiu briga aqui na praça ­ disse. Gláucio Soares, pesquisador da FGV e do IUPERJ, explica que a participação da Igreja Católica tem se marcado pela discrição e por ser apartidária.

­ Podem ter restrições a quem vote a favor do aborto, por exemplo, mas se restringe a orientar a votar com consciência. Entre os fiéis da Igreja Universal existe a idéia da tomada do poder. Há um livro do bispo Edir Macedo pregando que a Igreja Universal tem que chegar ao poder para impor o projeto cristão ­ disse.

Faltam política, debate e competição


Marcus Figueiredo
Cientista político e professor do Iuperj/Ucam
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Bons analistas aconselham que não devemos ficar nostálgicos. Isso torna nossos dias tristes, quiçá azedos, atrapalha a visão e o humor. Mas, convenhamos, a eleição municipal deste ano está sem graça. Alguns tentam, mas ficam falando sozinhos, não há replica, quanto mais tréplica.

O Rio já foi fervilhante. De Pereira Passos até os confrontos entre a UDN e a esquerda, e posteriormente entre a direita e o PDT brizolista, fustigado pelo PT nascente e as novas esquerdas re-nascidas dos escombros da ditadura, discutia-se a cidade, o Estado e o Brasil a cada eleição. Cada força política apresentava um projeto político e o defendia com unhas e dentes, muita argumentação e até mesmo utopias. Nos debates, saíam faíscas.

Os partidos tinham redutos, ideologicamente claros. A direita e a esquerda disputavam a Zona Sul. A Zona Norte sempre foi de direita, e até pouco ainda era. Os subúrbios se dividiam entre trabalhistas, comunistas – que tinham maioria – os populistas de direita. Basta lembrarmos de 1960, na disputa entre Carlos Lacerda, Sergio Magalhães e Tenório Cavalcanti. Mais recentemente, a disputa era entre Brizola, Moreira Franco e os herdeiros do chaguismo. Nos anos 80, a cidade experimentou um prefeito socialista – Saturnino Braga e seu vice Jô Resende, socialista cristão – seguidos por Marcello Alencar e César Maia. Todos criados dentro do brizolismo.

A experiência do brizolismo na década de 80 trouxe de volta o debate, calado durante a ditadura. As campanhas usavam rádio, TV e principalmente a mobilização de rua. Discutia-se na rua. Estavam em jogo projetos políticos claros. Pela direita, os herdeiros da Carlos Lacerda e da ditadura; pela esquerda, os brizolistas; e, no meio, os herdeiros do populismo chaguista. O debate e o projeto brizolista tinham um endereço certo: um colega iuperjiano cunhou, na época, de o socialismo moreno do Brizola. No debate e na mobilização, à Prefeitura era reservada a função da promoção da cidadania, do combate à desigualdade social. Discutiam-se os Cieps, a regularização fundiária das favelas, dos loteamentos, e tantos outros temas. Bons tempos de mobilização, celeiro de bons políticos.

A última eleição que valeu a pena discutir na rua foi a de 1992: César Maia contra Benedita. De lá para cá, a política deixou o espaço e entrou no seu lugar a disputa pela administração eficiente. Foi assim que vivemos entre César e Conde nos últimos 12 anos. Eficiência agora é o principal atrativo eleitoral. A eficiência serve a qualquer projeto, mas ela por ela serve só ao status quo social.

Nesta eleição não há projeto político para a cidade. Não há projeto para o desenvolvimento social, o tema da desigualdade está ausente. O presidente Lula e seus ministros se esforçam em trazer seus projetos para a cidade. Nenhum candidato rebate ou adere, nem mesmo o seu protegido.

O único que tentou acender a fogueira da política foi o Gabeira, só que está propondo partir de vez a cidade numa guerra de ocupação à la Beirute.

O movimento na rua está igual ao final da última Copa, quando o Brasil foi desclassificado.

Isso não é sinal dos tempos. É falta de apetite.

Quem sabe no segundo turno as coisas melhoram.

Prestígio que desce ladeira abaixo

Paula Máiran
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Número de candidatos vem caindo ano a ano. Para especialistas, má fama é uma das causas

Há cada vez menos quem se atreva a pisar no campo minado da política. Caiu 24,4% a quantidade de candidatos a vereador no Estado do Rio desde o pleito de 2000. Desde 2004, a redução foi de 6,7%. O número de aspirantes ao cargo de prefeito também se reduziu em 6,5% em relação às eleições municipais passadas. Na opinião de políticos e de especialistas, os 13.841 candidatos em 2008 às câmaras municipais e os 343 a prefeituras tiveram que fechar os olhos para a má fama cada vez mais atribuída aos agentes do Legislativo e do Executivo. Além disso, enfrentaram o custo alto para realização de suas campanhas e ainda a peneira representada pelo avanço progressivo das megacoligações.

Um olhar mais detalhista sobre os dados estatísticos disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela, no entanto, discrepâncias entre as realidades de cada município. Enquanto 59 das 92 cidades do Estado apresentam número de candidatos a vereador inferior ao de 2004, 30 contam com ainda mais concorrentes e apenas três não tiveram esse índice alterado. A capital se inclui no grupo das campanhas mais competitivas, com 9,6% de aumento no número de postulantes a vagas de parlamentar e 12 candidatos à cadeira do prefeito – dois a mais em relação a 2004.

O fenômeno – tanto no sentido decrescente como no inverso – ocorre de modo pulverizado no Estado. Mas as variações mais radicais se verificam nos municípios de menor população, com acento mais forte na parte alta do mapa fluminense.

No Noroeste do Rio, Italva, com 13.679 habitantes, é a campeã no recuo de candidaturas a vereador, com 45,9% a menos em quatro anos, embora tenha aumentado de três para quatro o número de candidatos a prefeito na cidade. Seguem-na, com índices superiores a 30% de redução, Bom Jardim (38%), na região Serrana; Mendes (37,8%), no Sul Fluminense; Porciúncula (36,7%), no Noroeste; e Itaguaí (35%), no Sul. Também apresentam índices de queda acima de 30% Cachoeiras de Macacu (34,8%), na Baixada Litorânea; Barra do Piraí (32,8%), na região Centro-Sul; e São Fidélis (30,8%), no Norte.

Em sentido inverso, recrudesceu a disputa com mais ênfase em municípios mais ao Sul e nos litorâneos. No topo do ranking das cidades que tiveram aumentado o número de candidatos a vereador está Japeri, Baixada Fluminense, liderando com 40,1% de disputantes a mais do que em 2004 para a Câmara e quatro para prefeito, mais um em relação a antes. Nessa lista ainda estão Quatis (35,2%), no Sul; Cabo Frio (20,7%), na Região dos Lagos; Queimados (16,5%), na Baixada; e Volta Redonda (16%), no Vale do Paraíba.

O fenômeno da diminuição no número global de candidatos no Estado, tanto para vereador como para prefeitos, vem acompanhado de outras mudanças correlatas no cenário político. Como as coligações, que só aumentam de tamanho, segundo pesquisa do professor Vladimyr Lombardo Jorge, professor da Pontifícia Universidade Católica, sobre as eleições de 1992 a 2000.

Em 1992, as coligações vitoriosas envolviam três partidos no máximo. Em 1996, cinco. Em 2000, houve registro de oito partidos por frente. Neste pleito, as coligações superam, em média, a casa das dezenas. Tudo em razão do sucesso nas urnas dessa estratégia de campanha.

A crise se aprofunda


Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Como em 1929, a crise atual é gerada pela especulação de agentes financeiros em busca de maiores ganhos

NA ÚLTIMA semana a crise bancária americana se aprofundou dramaticamente, e já não há mais dúvida de que estamos diante da mais grave crise econômica mundial desde 1929. Como naquela época, estamos diante de uma crise gerada pela especulação de agentes financeiros em busca de maiores ganhos. Como naquela ocasião, os especuladores lograram contornar a regulação bancária existente. Diferentemente do ocorrido nos anos 1930, porém, o governo americano e, mais amplamente, os governos dos países ricos, munidos da teoria macroeconômica keynesiana, revelam competência muito maior em enfrentar e parcialmente anular os efeitos perversos da crise.

A crise financeira de 1929 representou um desmentido flagrante da teoria econômica neoclássica, que foi aos poucos substituída pela macroeconomia keynesiana. Durante os 40 anos seguintes à Grande Depressão, o mundo prosperou apoiado por políticas econômicas competentes. A partir de meados dos anos 1970, porém, teve início a ofensiva ideológica neoliberal que restaurará o domínio da teoria econômica neoclássica e neoliberal nas universidades -teoria desnecessariamente orientada a desmoralizar o Estado e justificar mercados auto-regulados. Os países ricos, porém, não utilizaram as teorias neoliberais que ficaram restritas à universidade e aos países em desenvolvimento.

Nos anos 1980, houve a grande crise da dívida externa que não foi conseqüência de erros da política econômica, mas da oferta de empréstimos irresponsáveis pelos grandes bancos internacionais e do erro dos países em desenvolvimento de aceitá-los. Entretanto, se os formuladores da política monetária dos países ricos não seguiram a teoria econômica neoliberal, o mesmo não se pode dizer de seus bancos.

Eles acreditaram na tese do mercado auto-regulado, rejeitaram a necessária regulação de suas "inovações financeiras" usando os argumentos daquela teoria, e agora estão quebrando. Se essas quebras ficassem limitadas às próprias empresas irresponsáveis, não haveria grande problema. Porém, como levam à crise toda a economia mundial, fica clara a perversidade do problema criado. Nesse quadro, apenas um fato é positivo: a política keynesiana que vem sendo adotada, e, por isso, não há possibilidade de voltarmos aos níveis de queda da renda e de desemprego dos anos 1930.

O Brasil já está sendo atingido pela crise através da queda do preço das commodities, da baixa das ações devido às saídas de capitais e da depreciação do real. Dada a notória apreciação do real, sua depreciação com essas saídas poderia ser bem-vinda. Na última semana, porém, um ataque especulativo interno contra o real, acelerando sua depreciação, mostrou que a economia brasileira voltou a se fragilizar internacionalmente, apesar dos US$ 208 bilhões de reservas.

E obrigou o BC a intervir vendendo dólares. Os especuladores locais puderam vender reais e comprar dólares porque o déficit em conta corrente voltou a se manifestar, uma vez que a liquidez em reais da economia brasileira subiu muito.

Como mostrou Yoshiaki Nakano no Fórum de Economia da FGV, o aumento de reservas dos dois últimos anos, através de compras de dólares pelo BC, não correspondeu ao equivalente aumento da dívida pública, mas ao aumento da quantidade de moeda. Portanto, da mesma forma que as reservas foram construídas através do aumento de liquidez em reais, sua diminuição pode levar à rápida desaparição das reservas internacionais se houver qualquer perda de confiança.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação:Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

Nada de novo


Luiz Gonzaga Belluzzo
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Os últimos acontecimentos mostram que é preciso conter a mula-sem-cabeça da finança desregulada

NICHOLAS Brady, Eugene A. Ludwig e Paul Volker, figuras de proa do establishment financeiro americano, soltaram a voz em uníssono para recomendar medidas drásticas e urgentes para brecar o avanço da mais devastadora crise financeira desde a Grande Depressão dos anos 1930.

"Na ausência de uma ação corajosa, as coisas podem piorar... As medidas de emergência já tomadas pelo Fed e pelo Tesouro, ainda que necessárias, são insuficientes para domar a crise." Os três figurões da finança reconhecem que o sistema financeiro americano exige uma reestruturação profunda que o habilite a funcionar de forma mais adequada no futuro. Mas agora, já, imediatamente, é preciso livrar o mercado "do enorme volume de lixo tóxico hipotecário que não será honrado nos termos acordados.

Esses papéis não estão habilitados a suportar as enormes quantidades de instrumentos financeiros estruturados, alavancados muito mais do que 30 vezes. Até que seja adotado um novo mecanismo para extirpar esse tecido apodrecido do sistema, a infecção vai se disseminar, a confiança vai se deteriorar ainda mais e nós teremos de conviver com a mãe de todas as contrações de crédito." Brady, Ludwig e Volker propõem a criação de um "corpo governamental" encarregado de comprar os ativos depreciados por um fair market value e, (vejam bem...) "enquanto possível, capacitado a manter as pessoas em suas casas".

Essa instituição governamental deve ter existência limitada e ser administrada por profissionais não-partidários. "Plus ça change, plus c"est la même chose." Franklin Delano Roosevelt assumiu o governo dos EUA quando a Depressão de 1929 andava braba. Cuidou de salvar as grandes corporações e os bancos de seus próprios desvarios e preconceitos. A derrocada financeira foi enfrentada com o Emergency Bank Bill, de 9 de março de 1933, e pelo Glass-Steagall Act, de junho do mesmo ano. Esses dois instrumentos legais permitiram um maior controle do Fed sobre o sistema bancário.

Roosevelt facilitou o refinanciamento dos débitos das empresas, sobretudo da imensa massa de dívidas dos agricultores, estrangulados pela queda de preços. O "New Deal" utilizou a "Reconstruction Finance Corporation", criada por Hoover em janeiro de 1932, para promover a reestruturação do sistema bancário e financeiro. Roosevelt impôs a separação entre os bancos comerciais e de investimento; criou a garantia de depósitos bancários; proibiu o pagamento de juros sobre depósitos à vista e estabeleceu tetos no pagamento de juros para os depósitos e prazo (o Regulamento Q sobreviveu até 1965).

Nos anos 1990, as proezas do capitalismo destrambelhado foram cantadas em prosa e verso. Os tempos não podiam ser mais benfazejos para os vigaristas, encantadores de serpente, pitonisas e oráculos de todo gênero. Os últimos acontecimentos protagonizados pelos mercados mostram que é preciso conter a mula-sem-cabeça da finança desregulada. Sob pena de os cidadãos serem atormentados periodicamente pelas tropelias da mão invisível.

LUIZ GONZAGA BELLUZZO , 65, é professor titular de Economia da Universidade Estadual de Campinas. Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).

Aos amigos, tudo

Editorial
DEU NA GAZETA DO POVO (PR)

Segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo, o presidente Lula pediu à diplomacia brasileira que não aceitasse pedido de asilo político do governador do departamento boliviano de Pando, onde ocorreram os piores confrontos entre manifestantes favoráveis e contrários ao presidente Evo Morales. Leopoldo Fernández teve ordem de prisão decretada no domingo e foi detido na terça-feira.

A prisão contraria as leis bolivianas, na avaliação do próprio Itamaraty, o que daria força ao pedido de asilo. A atitude de Lula demonstra mais uma vez seu compromisso com os colegas do Foro de São Paulo, que reúne as forças de esquerda latino-americanas.

Afinal, enquanto o Brasil recusa asilo a um governador boliviano preso injustamente, concede o mesmo benefício a um membro de um grupo terrorista colombiano – Olivério Medina, das Farc – e devolve a Cuba os boxeadores que desertaram durante os Jogos Pan-Americanos. A diplomacia brasileira, que já chegou a ser reconhecida mundialmente, não pode continuar a ser refém de uma ideologia.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1094&portal=

domingo, 21 de setembro de 2008

Soberania e investimentos


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A crise no mercado financeiro mundial trouxe novamente para o centro das discussões o papel dos fundos soberanos de países emergentes, principalmente asiáticos, reservas financeiras controladas por governos que geram divisas com exportações de commodities. O Morgan Stanley, o segundo maior banco de investimento dos EUA, pode vir a ter 49% de seu capital controlado pelo fundo soberano chinês China Investment Corporation, que hoje já tem 9,9% do banco, comprados por US$10 bilhões em dezembro do ano passado. Outros fundos, como o Abu Dhabi Investment Authority, dos Emirados Árabes Unidos, têm participação em bancos como o Citigroup, ou o Government Investment Corporation, de Cingapura, no grupo suíço UBS.

Apesar de não serem figuras novas no mercado internacional, a participação dos fundos soberanos nos investimentos estrangeiros diretos cresceu muito nos últimos anos. Essas entidades governamentais controlam cerca de U$3 trilhões em investimentos, e esse número pode chegar a U$12 trilhões em 2015. O maior desses fundos, o de Abu Dabi, controla aproximadamente U$875 bilhões.

Essa promoção de posição no contexto econômico internacional dos países emergentes provoca profundo incômodo em setores da sociedade americana, que temem que atrás do crescente poder financeiro venha uma também crescente ambição política.

A nova geopolítica mundial, ou o que o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger chamou de "quebra do modelo tradicional de soberania" tem a ver claramente com o crescente poder dos fundos soberanos, investimentos que têm tido papel fundamental na economia globalizada, e encontram muitas resistências, especialmente das empresas privadas, à medida que se tornam participantes destacados do mercado financeiro internacional.

A regulamentação desses investimentos está sendo estudada em diversos países, em resposta ao aumento de importância de empresas estatais e dos fundos soberanos no mercado internacional, e será tema de um seminário na Universidade Columbia, promovido pela Universidade de Direito em conjunto com o Instituto de Comércio da Universidade de Fribourg, na Suíça e a Universidade Nankai, da China.

O seminário pretende colocar em discussão questões fundamentais sobre o papel dos investimentos dos fundos soberanos: como seu comportamento difere do dos investidores privados ? Até que ponto essas entidades controladas por governos, sejam de países emergentes ou desenvolvidos, são dirigidas pelo objetivo de maximizar lucro ou são politicamente direcionadas?

O surgimento dessas entidades governamentais pode levar a uma legislação mais rígida em relação aos investimentos estrangeiros, ao contrário da tendência de liberalizar a legislação? Como os legisladores conciliarão as tensões entre a segurança nacional e a necessidade de os investidores terem uma segurança regulatória?

A partir de 2007 várias medidas preliminares já foram tomadas pelos países desenvolvidos para fazer face ao crescente papel desempenhado pelos investimentos desses fundos soberanos. Os Estados Unidos, e diversos países como a Alemanha e a Coréia do Sul estão revisando suas regras, e as instituições internacionais, como o FMI e a OCDE estão estabelecendo normas de transparência para esses investimentos, de maneira a uniformizar os procedimentos.

Diante da crise internacional, no entanto, esses países estão diante de uma situação paradoxal, pois ao mesmo tempo em que resistem ao crescente papel desses fundos soberanos, precisam de seus investimentos, pois representam "capitais estáveis e de longo prazo", que reduzem a volatilidade dos mercados.

Mas existem resistências ao investimento em setores sensíveis, como o mercado de câmbio, que poderia afetar o relacionamento entre os governos. Um "código de conduta" voluntário, que estabeleça claramente a vontade desses fundos soberanos de evitar abusos na especulação, e manter a política fora das decisões de investimento, é uma sugestão que volta e meia surge nos debates internacionais sobre o tema.

A contrapartida a um código de conduta desse tipo seria a decisão dos países que recebem investimentos de deixarem claro que não bloqueariam investimentos de fontes estrangeiras, inclusive os fundos soberanos, por motivos políticos.

Os aspectos puramente políticos da questão começam a ser levantados aqui diante do agravamento da crise econômica, e seus reflexos mexem, sobretudo, com setores conservadores, que consideram que os Estados Unidos estão ficando vulneráveis ao avanço desse capital de países asiáticos, especialmente a China, tornando-se presas fáceis de governos autoritários.

Um dos temas mais polêmicos da campanha presidencial é a necessidade de o país se libertar da dependência de energia, sobretudo o petróleo, cujos principais fornecedores são os países árabes. Quando a dependência torna-se financeira, e permite a entrada desses mesmos países em setores estratégicos, essas questões políticas vêem à tona com ênfase.

Ensaios sobre a crise


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

A China parece ser o único candidato plausível para substituir os Estados Unidos e tornar-se a principal força condutora da economia capitalista global. Será?

É um equívoco confundir a globalização com o neoliberalismo, a implementação das idéias monetaristas de Milton Friedman, dos EUA, e de Friedrich August Von Hayek, da Grã-Bretanha, após a crise do petróleo de 1973. Como os governos não conseguiam financiar os gastos públicos do Estado de bem-estar social que surgiu após a II Guerra Mundial, os dois economistas defenderam sua retirada da economia como forma de combater os déficits públicos, equilibrar as balanças comerciais e controlar a inflação. A tese funcionou. Margareth Thatcher, na Inglaterra, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, lideraram a reforma conservadora que promoveu um longo ciclo de crescimento mundial e implodiu a União Soviética. Foram 30 anos de hegemonia, cujo colapso político pode ser atribuído ao militarismo do republicano George Bush, que se atolou nos cafundós do Iraque e do Afeganistão. No plano econômico, a desregulamentação do mercado financeiro entrou em parafuso nos Estados Unidos. A bagunça fez a casa cair. Tudo o que é sólido se desmancha no ar, mas a globalização continua.

Samuelson

Qualquer estudante de economia conhece as idéias de Paul Samuelson, Prêmio Nobel de 1970, autor do manual de economia mais estudado no mundo. Decano da escola keynesiana, já publicou três artigos sobre a crise. O primeiro foi em novembro passado, no NY Times, no qual defendeu a ação do governo para controlar o mercado. No segundo, no mesmo órgão, lembrou que o Japão pagou muito caro pela “bolha” do mercado imobiliário dos anos 1980, numa longa estagflação. Na semana passada, no Tribune Media, o velho professor comparou a política de Bush no Iraque e no Afeganistão aos fracassos De Gaulle na Argélia e de Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon no Vietnã. Relembrou as lições da Grande Depressão: “O capitalismo puro não pode evitar alguns ciclos econômicos. Tampouco pode se contar com o ‘laissez-faire’ dos mercados para cuidar dos próprios males”. Para ele, o governo precisa fazer tudo para evitar a estagflação.

Soros

O megainvestidor Geogr Soros adora ganhar dinheiro com crises. Seu livro sobre o assunto, New Paradigm For Financial Markets: The Credit Crisis of 2008 and What it Means (O novo paradigma para o mercado financeiro: a crise de crédito de 2008 e o que ela significa), virou um best-seller. Ele avisa que a crise está longe de acabar. Existiria uma “superbolha” no mercado financeiro, criada pelo que chama de “fundamentalismo de mercado”. Todas as crises financeiras, desde a primeira do México, em 1982, foram conseqüência do dogma de que os mercados são capazes de se auto-regular. “Para conseguir que os bancos tapassem os buracos em suas balanças de pagamento, estas instituições receberam permissão para buscar novos modos de fazer dinheiro. Também foram encorajados a jogar esses prejuízos para fora de suas folhas de balanço e repassar, vender papéis das dívidas para outros, para recuperar recursos. Assim, imaginava-se que fossem compensados”, explica Soros. Segundo ele, regras após regras foram abandonadas. “O resultado foi o surgimento de um mercado financeiro disfuncional, com segmentos particulares completamente sem supervisão e fazendo negócios absurdos”. Para Soros, o mercado e suas instituições devem cumprir regulamentações e ser supervisionados.

Minqi Li


O chinês Minqi Li ensina economia na Universidade de Utah, em Salt Lake City. Escreveu um ensaio intitulado “Uma era de transição: os Estados Unidos, a China, o pico petrolífero e o fim do neoliberalismo”, no qual endossa as teses de Immanuel Wallertein de que o neoliberalismo morreu. Mas faz um paralelo muito interessante sobre as relações entre os Estados Unidos e a China. “Como à Eurozona falta impulso de crescimento e o Brasil, Rússia e Índia permanecem relativamente pequenos para desempenhar papéis decisivos na economia global, a China parece ser o único candidato plausível para substituir os Estados Unidos e tornar-se a principal força condutora da economia capitalista global. Poderá a China conduzir o capitalismo mundial a um outro período de estabilidade e crescimento rápido?”, indaga. Após meados dos anos 1990, o neoliberalismo deparou-se com a resistência crescente por todo o mundo. Muitos governos estão restaurando a regulação estatal e a proteção social, como é o caso brasileiro.

“Provavelmente observaremos um retorno ao domínio keynesiano ou às políticas capitalistas de Estado por todo o mundo”, prevê Minqi Li. Para ele, porém, o ambiente global está à beira do colapso. Não há mais espaço ecológico para outra grande expansão do capitalismo com base no padrão energético atual. Além disso, a China optou por uma via perversa de expansão: sua produção é muito maior do que a procura mundial e não pode ser suportada pela oferta de energia e matérias-primas. A crise global também baterá à porta dos chineses e a saída será reorientar sua produção industrial para um mercado interno cujo consumo de massas hoje é limitado pelos baixos salários.

Café com leite


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O segredo é de polichinelo. Tanto que o líder do PSDB na Câmara, deputado José Aníbal, na quinta-feira deu oficialmente com a linha nos dentes e saiu dizendo que a oposição seria “imbatível” se disputasse a eleição de 2010 com uma chapa tucana puro-sangue: José Serra para presidente e Aécio Neves de vice.

O deputado não inventou nem inovou. A idéia vem sendo cogitada há algum tempo na seara oposicionista e agora já começa a ser discutida como uma possibilidade real. A única capaz de levar a oposição de volta ao Palácio do Planalto e impedir o presidente Luiz Inácio da Silva de eleger seu sucessor.

No campo da elaboração teórica é de uma lógica impecável: abandona o mito de que a união de partidos diferentes aumenta a chance de vitória e adota o princípio da unidade regional juntando os governadores de São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores colégios eleitorais do País.

Em números redondos e aproximados, o Brasil tem pouco mais de 130 milhões de eleitores, sendo 30 milhões paulistas e 14 milhões mineiros. Somam 44 milhões e resultam em cerca de um terço do eleitorado brasileiro.

De posse desse capital, reza a fórmula em discussão, daria para enfrentar com folga o favoritismo de Lula, notadamente no Nordeste, sem contar a expectativa de boa pescaria ao Sul, a partir do Paraná.

Ainda no terreno das idéias, Serra firmaria com Aécio o compromisso de não disputar um novo mandato, se eleito, deixando a vaga para o colega em 2014. Não por acaso nem por motivo diverso, o governador de São Paulo continua insistindo em patrocinar uma proposta de emenda constitucional extinguindo a reeleição para presidentes, governadores e prefeitos.

Tendo em vista a inexistência de tempo hábil e consenso para aprovar algo no gênero a fim de que a próxima eleição presidencial já se dê sob a nova regra, Serra defende a tese para afirmar seu comprometimento com ela, ainda que na condição de voto vencido.

Conta com a vantagem moral de ter ficado contra a reeleição quando o PSDB usou do poder da Presidência para tornar constitucional o direito a dois mandatos consecutivos, com validade imediata para propiciar o benefício a Fernando Henrique Cardoso.

O DEM, teoricamente pretendente à vaga de vice, não apenas concorda em deixar o lugar para Aécio como é dos mais entusiasmados com essa possibilidade. Afinal, sabe bem como a Esplanada dos Ministérios dispõe de campos mais férteis que a vice a serem explorados.

E por que para Aécio seria um bom negócio ser coadjuvante no Executivo quando poderia ser protagonista no Legislativo, como presidente do Senado, por exemplo?

Na visão de companheiros de partidos e correligionários de possíveis alianças, porque no Senado há embates e desgastes inexistentes para um vice-presidente.

Além disso, teria alguma função especial na área onde exercita melhor seus dotes políticos de “ajeitador” de contrários e poderia circular por toda parte em missões de representação mais adequadas ao temperamento do mineiro que à personalidade do paulista, pouco dado a festejos.

Posto dessa forma, parece tudo muito bonito, colorido e até mesmo resolvido. Mas por ora há apenas o método, faltando ainda resolver o principal: a remoção dos obstáculos para sua execução. O mais pesado deles, no momento, é justamente o governador Aécio Neves, com quem as coisas precisam ser muito bem combinadas antes de ser anunciadas.

O governador de Minas está ciente da dianteira de Serra dentro e fora do partido, mas não ignora sua força de líder hoje com domínio político absoluto sobre um Estado (não é o caso de Serra em São Paulo) e com nítido trânsito de preferência entre setores do empresariado e mesmo partidários. Aécio, portanto, continua candidato a presidente até que o quadro se confirme ou se modifique.

O menos interessado em assumir o projeto sem que esteja sacramentado e, de preferência, com Aécio Neves escolhido para lançá-lo, é José Serra.

Da parte dele equivaleria a tratar Aécio como figura secundária e, em conseqüência, arriscar-se a arrumar uma confusão com o eleitor de Minas, que deposita na figura do governador a expectativa da reabilitação do Estado como passagem obrigatória do eixo de poder nacional.

Por isso, o plano original seria deixar que as coisas seguissem um curso mais ou menos natural e formular a intenção de montar mesmo a chapa “pura” só a partir de meados de 2009.

Os dois governadores vêm circulando juntos em alguns eventos das campanhas municipais, posaram para fotos com o mais bem-sucedido tucano do certame (Beto Richa, com 72% da preferência para a reeleição em Curitiba) e até já se depararam com adesivos “Serra-Aécio” confeccionados por militantes, mas não passaram recibo: nem de gosto nem de desgosto.

Entre outros motivos por causa do volume de água que ainda há de rolar por baixo das pontes antes de a paz de espírito reinar entre os homens de boa vontade do PSDB e adjacências.

Leis Eleitorais

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

Nunca criaremos uma democracia real se ela não se fundar no respeito integral a quem é e ao que deseja o eleitor

A população que vive nas cidades onde se capta o sinal das redes de televisão aberta ou do rádio, ou seja, a quase totalidade da população brasileira, está passando por uma experiência que vale a pena comentar. Menos no Distrito Federal, ela é alvo de uma das maiores e mais abrangentes campanhas de propaganda institucional de nossa história.

É a campanha que a Justiça Eleitoral está veiculando em todas essas emissoras, sobre as eleições municipais deste ano. Quem vê televisão ou ouve rádio nesses lugares, nem se quisesse, conseguiria deixar de receber seus efeitos.

Pelo que se pode perceber, ela se propõe a alcançar diversas metas. Comunicar aos eleitores que teremos eleições em 5 de outubro é apenas a mais óbvia e menos ambiciosa. Ela também quer ensinar coisas aos eleitores: a importância do voto, a necessidade de bem refletir antes de votar, que vender seu voto é errado, entre várias outras.

Parece algo tão normal que não haveria razão para discuti-lo. Mas há, pois a campanha nos permite ver quanto precisamos de uma reforma política.

No modo que fala, na forma que adota, ela revela o que temos pela frente, se quisermos melhorar o tônus democrático em nosso país.

Comecemos reconhecendo seu lado positivo. Em uma cultura como a nossa, onde a maioria do eleitorado tem níveis muitos baixos de escolaridade e existe obrigatoriedade de votar, são sempre bem-vindos os esforços de aumentar a informação da população sobre o processo político. A campanha contribui para isso, dizendo às pessoas quando será a eleição, quais os cargos em disputa, o que o eleitor deve fazer para registrar seu voto. São questões banais, mas que devem ser repetidas.

A pena é que a campanha fique nisso, no plano informativo. Se seus responsáveis soubessem quão sequiosa de informação é nossa população, talvez dedicassem mais tempo, da enorme quantidade de que dispõem, para essa finalidade. É de se perguntar por que não aproveitá-lo para explicar aspectos de nosso sistema político que poucas pessoas entendem. Para dar um só exemplo: por que determinados candidatos têm mais tempo que outros na propaganda eleitoral? Quase ninguém compreende uma coisa tão fácil de explicar.

O pouco que se investe na informação do eleitor é compensado pelo muito que é dedicado a tentar fazer algo totalmente diferente, sua pretensa formação. Parte expressiva da campanha é constituída por peças que visam a formar o eleitor, fazendo dele um “bom eleitor”. Nelas, se insiste na peroração de que “o eleitor não deve vender seu voto”, que deve “pensar bem”, que “votar mal prejudica o próprio eleitor”.

De onde seus autores tiraram que esses são problemas reais de nossa sociedade? A partir do que chegaram à conclusão que temos tantos eleitores irresponsáveis, inconseqüentes e venais que a Justiça Eleitoral “precisa fazer alguma coisa”? Que alguém precisa ser ensinado a pensar assim? Subjacente a esses “bons propósitos”, existe uma profunda desconfiança a respeito de nosso eleitor e de nosso povo. A reboque dela, sempre há um pedagogo, que se acha tão superior que se imbui da missão de “guiar os ignorantes”. Nunca criaremos uma democracia real se ela não se fundar no respeito integral a quem é e ao que deseja o eleitor. Não existe meia medida: toda vez que se quer proteger o eleitor, ensiná-lo a ser assim ou assado, evitar que seja alvo de qualquer coisa (influência, manipulação, etc.), o que se consegue é o oposto.

A campanha institucional da Justiça Eleitoral tem méritos, mas mostra muitas coisas que precisamos fazer (e outras que não devemos fazer) na hora que a sociedade brasileira se puser de acordo sobre a reforma política que tantos desejam. O lugar de onde fazê-la não é o Judiciário, mesmo que esteja cheio de pessoas com as melhores intenções. O espírito de uma verdadeira reforma não é proteger o povo, guiar seus passos, mas parar de tratá-lo com paternalismo e condescendência.