Correio Braziliense
Trata-se do início da passagem do protagonismo
dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para
empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam
interesses acima das fronteiras nacionais
O mundo assistiu à passagem do bastão de superpotência mundial das mãos do líder americano para o líder chinês. Isso era previsível desde que a República Popular da China começou a mostrar os resultados das reformas iniciadas há 50 anos por Deng Xiaoping: a adoção da eficiência produtiva e do empreendedorismo capitalista, sem perder a perspectiva do interesse nacional, com uma estratégia social de longo prazo, sem instabilidade política nem descontinuidade a cada eleição. Outras transições semelhantes já ocorreram: da Grécia para Roma; da Espanha e de Portugal para a Inglaterra; e desta para os Estados Unidos, compartida com a URSS devido ao poder nuclear. Diferentemente, a mudança atual não ocorre apenas de uma nação para outra, mas de um tipo de poder para outro: além da China, a primazia mundial será exercida por outros países e por empresas internacionais.
Em Pequim, maio de 2026, houve mais do que
uma "armadilha de Tucídides" entre uma potência ascendente e outra
decadente; houve o início da passagem do protagonismo dos governantes
políticos, que representam seus respectivos países, para empresários
"donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses
acima das fronteiras nacionais. Não por acaso, ao lado de Trump estavam CEOs de
empresas de alta tecnologia.
O bastão ainda passou de um país a outro, mas
começou também a passar de uma era civilizatória para outra: Xi e Trump
representam um tempo em que o mapa-múndi era composto por países, cada um com
sua cor; mas hoje cada país é um pedaço do mundo cujos donos já não são os
políticos, embora estes ainda mantenham poder para iniciar guerras, sem,
contudo, desenvolvê-las ou sustentá-las sem o apoio dos novos "donos do planeta".
A China pode ser o país cujo estilo político
parece melhor preparado para combinar presidentes e CEOs, porque sua cultura
política, moldada há mais de 2.000 anos, inclusive por um educador chamado
Confúcio, permite a combinação da eficiência e ambição privadas, com os
propósitos da ambição coletiva nacional. Um pequeno livro, A cortina de ouro,
publicado em 1995 pela antiga Paz e Terra, levantava essa hipótese ao afirmar
que o mundo começava a ter "donos da Terra": não mais banqueiros, industriais,
proprietários de minas ou comerciantes de commodities, mas criadores de
patentes e investidores em alta tecnologia digital, informática, medicinal,
espacial, logística.
Nesses 30 anos, o mundo testemunhou a
confirmação dessa previsão: a Nasa passou a concorrer com empresas privadas, e
é possível que a primeira viagem tripulada a Marte não seja realizada por
países, mas por empresas. A rede de satélites que controla o fluxo de
informações é privada; a epidemia da covid foi enfrentada graças a vacinas
produzidas por empresas privadas que dominam a produção de fármacos e
equipamentos médicos; a produção e a distribuição de alimentos estão sob
controle de grandes conglomerados, assim como as operações de logística que
movem o mundo. A grande revolução da inteligência artificial (IA) será
conduzida por empresas, utilizando governos e países, mas com o controle fora
das mãos daqueles que ocupam o poder político. O presidente da Fifa conseguiu
impor a Trump a recepção dos jogadores do Irã para a Copa do Mundo, e a marca
Nike aparece com tanta visibilidade na camisa do Brasil quanto o próprio nome
do país.
Tudo indica que o mundo atravessa a passagem
do bastão não apenas de uma nação para outra, mas também a consolidação de um
novo tipo de poder: o das empresas detentoras de capital, especialmente do
capital do conhecimento, em um mundo no qual cada país deixou de ser uma
unidade isolada e passou a integrar o conjunto global. Nesse contexto, o poder
deixa de ser exercido exclusivamente por políticos em nome de governos
nacionais e passa a ser controlado por grupos organizados em empresas, com
vantagem para a China, que encontrou o caminho para equilibrar a eficiência de
curto prazo do mercado com os interesses de longo prazo da nação.
A passagem do bastão ocorreu entre Trump e
Xi, dos Estados Unidos para a China, mas também de um modelo civilizatório para
outro. A armadilha contemporânea vai além daquela formulada por Tucídides,
citada por Xi durante a reunião: transfere também o bastão dos presidentes
nacionais para os "donos da Terra". A "geopolítica" passa o
bastão para um tempo de "ecotecnogeopolítica", da era da abundância
para uma era de escassez devido aos limites ecológicos e fiscais.
*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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