Folha de S. Paulo
Pontífice citou Agostinho, Tolkien,
Beethoven, Guernica, Martin Luther King Jr. e até Frankl e seu 'otimismo
trágico'
Difícil acreditar que tenha escapado ao papa
que Pentecostes guarde tantas semelhanças com a inteligência artificial
Tem Santo Agostinho. Mas
tem Tolkien também. Tem Beethoven, tem Guernica, tem Martin Luther King
Jr., tem Viktor Frankl e o seu "otimismo trágico". Tem muita doutrina
social da igreja, valorização dos trabalhadores e críticas ao nacionalismo,
Realpolitik e pós-humanismo.
Para um ateu de esquerda como eu —com duas
exceções, sobre aborto e família de "um homem e uma mulher"— não há
quase nada para discordar na encíclica "Magnifica Humanitas" do papa Leão 14.
Mas quero é escrever do que não está lá. A encíclica foi datada de 15 de maio e apresentada em 25 de maio. E o que aconteceu entre uma coisa e outra? As celebrações de Pentecostes, no domingo (24). Que uma encíclica escrita e lançada em Pentecostes não fale de Pentecostes é uma coisa que me intriga e confunde. E acho que essa ausência é decisiva.
Vou explicar o porquê. A encíclica começa
logo na primeira frase por uma referência à Torre de
Babel, metáfora evidente para a inteligência
artificial, que é contraposta a uma história muito menos conhecida, a do
profeta Neemias que reconstrói as muralhas de Jerusalém.
O papa está nos convidando ao trabalho paciente
de construção institucional das nossas "muralhas", se
não queremos que a IA nos destrua e disperse. E eu acho que ele tem razão:
ao contrário do que aconteceu com outras questões existenciais da história
contemporânea da humanidade, não se vê sequer o mínimo esforço de criar para a
IA algo como os tratados que deram origem à Declaração Universal de Direitos
Humanos e às convenções sobre refugiados ou de controle nuclear.
Do ponto de vista internacional, tudo certo.
Mas em chave bíblica o contraponto à Torre de Babel não é Neemias (também do
Antigo Testamento), mas Pentecostes, no Novo Testamento. E o que acontece em
Pentecostes? Os apóstolos falam na sua língua, mas todos os estrangeiros os
entendem, cada um na
sua língua.
Ora, esse é um dos sinais mais manifestos da
IA: quando cada um escreve na sua língua e é lido em todas as línguas de todos
os leitores, podendo concretizar um potencial de diálogo através do espírito.
Difícil acreditar que tenha escapado ao papa na própria semana de Pentecostes.
A explicação talvez esteja em duas outras
ausências: faltam dois Jonas. Um é o filósofo Hans Jonas,
e o seu princípio da responsabilidade, ao qual o papa quase alude sem citar.
Mas o outro é o profeta Jonas mesmo; aquele que vai a Nínive profetizar
contra vontade, mas acaba salvando a cidade.
Ao citar Neemias, o papa acaba por se revelar
como pessimista: se a derrocada das muralhas está aí, ele exorta à
reconstrução. Mas a mensagem de que a humanidade precisa é outra: se tiver que
ser, reconstruiremos; mas por agora vamos mobilizar-nos para não deixar
destruir.
Pentecostes e os dois Jonas apontam nesse
sentido: a capacidade de nos entendermos sem termos de falar uma língua única,
de aceitarmos o princípio da responsabilidade, e sobretudo de entender que
ainda é possível salvar a cidade, mesmo uma com tantos pecadores como Nínive.
As muralhas da humanidade ainda não caíram.
Corações ao alto! É novamente altura de engrandecer a humanidade para lhe
mostrar o melhor de que ela é capaz.
*Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora

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