O Estado de S. Paulo
Mamãe era taxativa: “Jamais bata boca”. Essa
gritaria dos mal-educados. O mesmo conselho surge nos jornais, revelando como o
bate-boca é maleducado: ele expressa a falta de controle de dois “superiores”
que se confrontam e nenhum deles pode ser inferiorizado, exceto no grito. O
bate-boca é uma ferramenta aristocrática, prima do “você sabe com quem está
falando?”. Exprime a perturbação diante do direito de discordar. Se sou
superior, como alguém ousa reagir aos meus argumentos?
Todo mundo parece ter ouvido mamãe, pois
continuamos a classificar dissidências como bate-bocas, como falta de educação,
quando o certo é o justo oposto. Nada mais normal do que a dissidência entre
pessoas numa democracia. Desclassificar discussões é típico de sistemas
construídos por “gente que se lava”, como o nosso.
Creio que foi precisamente isso o que alavancou Jair Bolsonaro, pois um dos pontos críticos de sua figura era que ele exibia o furor dos bate-bocas.
De um ponto de vista sociológico, bate-bocas
mostram ausência de projetos partidários, pois a nossa política depende muito
mais de pessoas e relações do que de algum ideal. Banalizou-se o falar em
democracia exercendo um óbvio personalismo e um deslavado populismo. Aliás,
falar em conflito de interesses é um ato subversivo diante do dilema do
conflito de interesses ignorado pelo STF.
Numa outra dimensão, o bate-boca é
negacionista, pois seu intuito é calar o adversário pelo grito, essa voz de
comando própria de sociedades anti-igualitárias. O berro e o discurso são
modalidades nas quais o ouvinte deve apenas ouvir. Escutar é primo do obedecer,
pois o ouvir sem dialogar é sinal de inferioridade.
A boca faz par com o ouvido, de onde vem o
puxão de orelha, destinado aos “mal-ouvidos”, esses independentes mal-educados.
Como sabemos, o silêncio é irmão do “calar a boca”, o exato oposto do falar
alto típico do mandonismo.
Daí vem a associação do falar alto como
protocolo de superioridade social e do ouvir calado como ato de obediência.
Escravos apenas escutavam. O direito de expressão não existe nas sociedades
patrimonialistas. Nelas, o deputado, o ministro, o magistrado e o presidente
falam. Nós, o povo, ouvimos.
O falar alto tem como gêmeo o gritar – esse
agressivo emblema de revolta. Muitos povos se tornaram independentes com um
grito sinalizador de ruptura com seus colonizadores. O nosso hino nacional
enfatiza o ouvir e descreve um majestoso lugar a ser amado; no caso americano,
enfatiza-se o enxergar num discurso de construção e luta.
E para que não digam que teorizo no ar,
lembro que a “elite” está em pânico porque Daniel Vorcaro – aquele que fazia
todo mundo ficar com água na boca por suas orgias e mesadas – pode “botar a
boca no trombone” e fazer com que tudo, democraticamente, venha a “cair na boca
do povo”. Valha-nos Deus!
*É Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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