CartaCapital
O clã deu vários tiros no pé e o Congresso
aliado da família aprova furiosamente leis impopulares
O que mais intriga num processo de fascistização das massas é que uma multidão cega persiga um líder obtuso, construído em torno de mentiras e de ideias tão simplistas e vagas que relativizam a verdade e o bom senso. Assim foi feito o “Mito”, como se autodenominava Jair Bolsonaro. Para um observador da história, todavia, intriga também o fato de existir um ponto de exaustão, além do qual o gênio das Mil e Uma Noites da extrema-direita é recolhido à lâmpada, para lá dormir até que alguém tenha a infeliz ideia de limpá-la e, sem querer, liberar um demônio de ideias pobres que enfeitiça multidões.
No caso brasileiro, os sinais de exaustão
ocorreram de repente, quando se imaginava que Bolsonaro, mesmo após uma
tentativa de golpe de Estado, protegera sua popularidade do impacto das
inúmeras revelações de seu desprezo, e do seu clã, pela democracia, pelo
dinheiro público e pelo sofrimento dos mais vulneráveis. Mesmo condenado e
preso, o ex-capitão conseguiu transferir para o filho Flávio simpatias de um
eleitor forjado no fenômeno de ascensão da extrema-direita e feito à imagem e
semelhança do líder: a massa extremista é conservadora, machista, misógina,
racista, anticomunista e homofóbica, e mantida unida e coesa em torno de
“valores” ditos “cristãos”, de preferência adquiridos em templos evangélicos
liderados por bispos e pastores com ativa militância em favor da
extrema-direita e copartícipes das decisões de governo do período bolsonarista.
As últimas pesquisas dão pistas de que a
evasão de eleitores do legado bolsonarista é ainda pequena, mas quebra a lógica
de adesão cega à cultura do ódio. Registram mudanças entre os eleitores
evangélicos e entre os jovens originários de uma juventude fascista cultivada
pela venda ideológica de uma suposta “liberdade”, traduzida pelo fetiche da
motocicleta e do trabalho sem patrão. Há abalos ainda nas convicções
extremistas de uma população de renda média, que sonhou com a ascensão social
por mérito e tem limites aos seus sonhos definidos por um capitalismo cada vez
mais concentrador. Há dúvidas entre os brasileiros com escolaridade e renda
alta, historicamente refratários ao PT e ao Lula, que embarcaram na aventura
fascista certos de levar o seu quinhão num sistema político baseado na
manipulação.
É alentador perceber que o “clique” no
eleitorado bolsonarista disparou quando entrou em cena a questão nacional – um
atentado à “pátria”, à qual o líder fascista Jair Bolsonaro se apresentava como
o único defensor, contra um suposto “comunismo” praticamente banido do mapa mundial
em 1989, com a queda do muro de Berlim. Note-se também que, entre os eleitores
ouvidos pela Vox Brasil, Quaest, AtlasIntel e BTG Nexus, está registrado o
entendimento de que o filho de Bolsonaro é responsável pelos
recentes ataques dos EUA ao País. Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos tirar
uma foto com Donald Trump e saiu de lá com dois atentados à pátria no bolso: a
classificação de grupos criminosos brasileiros como terroristas pela Casa
Branca, que “autoriza” legalmente o governo estadunidense a invadir o
território brasileiro a pretexto de eliminá-los (a exemplo do que acaba de
fazer na Venezuela) e uma nova sobretaxa de produtos brasileiros.
Não apenas a questão externa entra na conta
de uma mudança de humor no eleitorado de extrema-direita. Internamente, um
governo de esquerda, demonizado pelo bolsonarismo, assume a defesa de direitos
constantemente ameaçados por um Congresso venal que corre contra o tempo para
aprovar um pacote de maldades em favor de seus interesses, e contra aqueles da
maioria dos brasileiros. O que o Legislativo tem feito, com o auxílio
oportunista dos presidentes da Câmara e do Senado, é aprovar o maior número de
projetos impopulares enquanto possui uma maioria avassaladora no Senado e na
Câmara. No ano que vem, não se sabe se terá. O Senado terá renovado dois terços
de seus quadros pela eleição de outubro. O PL, maior partido da oposição na
Câmara, só se manterá grande se Flávio for competitivo na disputa eleitoral.
Nesse meio tempo, o que o governo tem feito é
assumir uma posição clara de defesa dos interesses do País e das classes menos
favorecidas da população. A defesa do Pix e da soberania do país, ameaçados
pelos EUA, a adoção de programa para reduzir o endividamento popular, a posição
corajosa em defesa do direito de aborto de crianças grávidas e a isenção de IR
para quem ganha até 5 mil reais são posições que não apenas definem um governo,
mas expõem a fragilidade dos vínculos da extrema-direita com os interesses da
população. Lula deixou de lado a esperança de que negociar com extremistas pode
produzir bons frutos. O estadista e o político que existem dentro dele
assumiram uma posição. •
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital,
em 24 de junho de 2026.

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