sábado, 20 de junho de 2026

Com gás ou sem gás? Por Eduardo Affonso

O Globo

Quando a moça do caixa quer saber se você vai pagar no débito ou no crédito, ela provavelmente não está praticando racismo creditício

Nietzsche decretou, em 1882, que Deus estava morto. Não tivesse morrido também, diria que quem morreu agora foi Copérnico: de uns tempos pra cá, parece que o Universo inteiro deu de girar em torno de nós, do nosso umbigo.

Não, leitor, nem tudo é sobre você, a cor da sua pele, seu índice de gordura, sua orientação sexual. Essa falta de noção e de proporção tem nome: efeito holofote. É o que faz com que você se sinta o centro das atenções, o vórtice dos acontecimentos. Menos, leitor. Menos.

Quando a moça do caixa quer saber se você vai pagar no débito ou no crédito, ela provavelmente não está praticando racismo creditício — como crê a professora baiana que aproveitou a pergunta sobre a forma de pagamento para refletir sobre estereótipos ligados à condição financeira (ou “dimensão de escassez”) da população negra.

— Acontece sobretudo com pessoas negras, e especialmente comigo — asseverou a docente.

Algo me diz que acontece sobretudo com pessoas que pagam com cartão, especialmente com as que não dizem de cara se preferem descontar a despesa do saldo em conta ou deixar para depois. Quem paga com Pix, dinheiro ou cheque (isso ainda existe?) não ouve essa pergunta. Ela só embute racismo, sexismo ou outro ismo qualquer se o interlocutor subestimar a quantidade de transações diárias e as demais preocupações de quem tem de fechar o caixa no fim do dia.

Isso não significa que pessoas negras e brancas sejam tratadas da mesma forma ao solicitar cartão de crédito, empréstimo bancário, aumento do limite da conta corrente. A discriminação racial está entranhada na sociedade, mas é mais eficiente combatê-la onde efetivamente existe, em vez de projetá-la em interações banais.

Num voo entre Lisboa e Londres nesta semana, um homem que ocupava o assento entre a janela e o corredor pediu para trocar de lugar. Na poltrona ao lado, estava uma mulher trans — que gravou um vídeo denunciando a atitude como transfóbica:

— Um passageiro chamou a aeromoça dizendo que não queria mais ficar sentado aqui, no meio. Não me deu nenhuma explicação, e também não aconteceu nada que justificasse aquela mudança.

Como se fosse necessário dar explicações a desconhecidos, a bordo, sobre preferirmos uma poltrona mais longe do lavatório, mais perto da saída de emergência, ou simplesmente qualquer uma que não a do meio.

Penso em embarcar na onda das microagressões identitárias e me sentir vítima de capacitismo sempre que o barbeiro me perguntar “cabelo ou barba?”. Será que ele não me julga apto a manusear um aparador, escolher entre o pente 0,5 e o 0,3 e fazer eu mesmo o serviço em casa? Até quando homens de meia-idade serão tratados como incapazes de cuidar dos próprios pelos faciais? Antevejo processos por gordofobia quando o garçom quiser saber se o café é com açúcar ou adoçante, se a Coca é normal ou zero.

Antônio Cícero já havia escrito que “o Hotel Marina quando acende/não é por nós dois/nem lembra o nosso amor”. Alberto Caeiro, que “a realidade não precisa de mim”. É que nenhum dos dois trabalhava com a hipertrofia do eu, nem dependia de likes, validação e holofotes.

Ao ligar para renovar a assinatura do jornal e lhe perguntarem se você quer a edição digital ou a impressa, recarregue a bateria narcísica e prepare o discurso sobre etarismo. Seria um desperdício não transformar isso em ofensa pessoal, não acha?

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Gostei,principalmente do penúltimo parágrafo.