O Estado de S. Paulo
Depois das notícias positivas na economia que
marcaram a passagem de 2025 para 2026, é essencial cuidar da incerteza externa
O destaque a figurões do crime é tão
justificável quanto útil, mas o prosaico noticiário econômico também pode
merecer alguma atenção, especialmente num país ainda em busca do
desenvolvimento.
Notícias positivas marcaram a passagem de 2025 para 2026. O rendimento real dos trabalhadores cresceu, o desemprego diminuiu e a ocupação aumentou, num cenário prejudicado por uma inflação distante do centro da meta, fixado em 3% para períodos de 12 meses.
A massa de rendimento habitual dos trabalhadores, de R$ 370,3 bilhões, foi recorde da série histórica. A população ocupada – 102,7 milhões de pessoas – foi recorde. Além disso, os 5,9 milhões de pessoas desocupadas no trimestre encerrado em janeiro formaram o menor contingente da mesma série. Esse grupo correspondeu a 5,4% da população economicamente ativa.
Os dados de emprego e de rendimento valorizam
o crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Essa taxa pode
ser – ou parecer – modesta para uma grande economia ainda classificada como
emergente. Mas indica, juntamente com o avanço do emprego, certa melhora das
condições experimentadas por dezenas de milhões de pessoas. Essas condições
permanecem modestas, num país onde a formação da mão de obra é deficiente e a
renda continua muito concentrada.
Mas há sinais de progresso, como a expansão
do consumo nos últimos anos, a formação melhor e mais ampla da mão de obra e
sensível diminuição da pobreza extrema. Entre 2021 e 2024, a parcela das
famílias com renda domiciliar inferior a US$ 6,85 por pessoa diminuiu de 36,8%
para 23,1%. Aquelas com renda pessoal menor que US$ 2,15 passaram de 9% para
3,5% nesse período. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).
A melhora na virada do ano de nenhum modo
garante um avanço duradouro ao longo de 12 meses. Esse avanço depende tanto da
expansão econômica e da evolução do emprego quanto da variação dos preços, isto
é, do quadro de inflação. Por enquanto, algumas projeções apontam perspectivas
favoráveis. Segundo as estimativas coletadas para o boletim Focus, elaborado
semanalmente pelo Banco Central, a inflação deve recuar para 3,91% em 2026. Será
um ganho para os consumidores e para a ordenação da economia, mas esse
resultado ainda ficará bem acima da meta oficial.
Além da inflação em queda, o boletim aponta
um dólar cotado a R$ 5,40 no fim do ano. Qualquer projeção referente ao câmbio
é muito arriscada, num período de muita instabilidade na política
internacional. Mas a expectativa de um dólar mais contido combina bem com um
quadro de inflação declinante. Esse quadro comporta alguma redução dos juros. A
taxa básica deve cair, segundo a mediana projetada no boletim, para 12%. Se
essa estimativa estiver correta, o crédito ainda será muito caro, mas, ainda
assim, a redução poderá produzir resultados apreciáveis.
A melhora nos juros, no crédito e na
disposição dos empresários dependerá em grande parte da condução da política
econômica pelo governo. Os dirigentes do Banco Central (BC) têm mostrado boa
vontade e disposição de cooperar com o Executivo, mas também têm reafirmado o
compromisso de manter prudência nas decisões sobre sua política. Parece muito
improvável, neste momento, um afrouxamento monetário significativo sem uma
clara demonstração de prudência pelo presidente da República. E Luiz Inácio
Lula da Silva continua devendo essa demonstração, embora tenha apresentado, em
algumas ocasiões, um discurso promissor.
Do lado externo, as contas do Brasil
continuam satisfatórias. Mas o quadro internacional é marcado por graves
conflitos e por muita insegurança. A guerra no Oriente Médio já evidenciou
perigos para o comércio global e para o fluxo de matérias-primas importantes,
por exemplo, para a agricultura brasileira. A diplomacia de Brasília tem
preservado a tradição de equilíbrio e de conciliação, mas desafios
significativos podem surgir a qualquer momento.
O governo do presidente Lula tem mantido bom entendimento com as autoridades americanas e de outras áreas importantes, como a Europa Ocidental, a Rússia e a China. Mantido o cenário global, o trabalho diplomático de Brasília será tão relevante, no curto e no médio prazos, quanto o dos ministérios econômicos. Embora permaneça a boa relação com os Estados Unidos e, de modo especial, entre os chefes de governo dos dois países, um surto belicoso do presidente Donald Trump poderá complicar todo o cenário. O ataque americano ao Irã, nos últimos dias, mostra a importância de levar em conta essa hipótese.

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