domingo, 8 de março de 2026

Empate entre Flávio e Lula indica campanha eleitoral resolvida antes de começar, por César Felício

Valor Econômico

Os dois provavelmente seguirão assim até o desfecho. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atingiu o patamar de 33% de intenção de voto para presidente no primeiro turno, de acordo com o Datafolha divulgado nesse sábado. No segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vai a 43%, três pontos percentuais atrás do petista. A rejeição do senador é de 45% e a do presidente, 46%. O cruzamento dos dois indicadores deixa claro que o presidente já bateu no seu teto. O ponto de chegada das eleições, para o qual ainda faltam sete meses, deve ser igual ou menor do que o ponto de partida, Lula não tem outro eleitorado a conquistar.

Já o herdeiro do bolsonarismo ainda tem algum espaço de crescimento no primeiro turno, sobretudo se agregar o apoio do governador Romeu Zema ( Novo), que patina entre 4% e 5%, conforme a simulação, e que é frequentemente lembrado como um bom candidato a vice. A soma de Flavio e Zema no primeiro turno levaria o oponente de direita a empatar com o presidente, que oscila entre 38% e 39%.

No segundo turno a equação está dada: Lula e Flávio já estão empatados e provavelmente seguirão assim até o desfecho, mantidas as condições naturais de temperatura e pressão. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso. A campanha eleitoral ainda não começou e parece já concluída.

O que há de notável no desempenho de Flávio Bolsonaro é que a transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro para o filho primogênito não precisou de uma campanha para acontecer, como foi necessário quando Lula ungiu Dilma Rousseff como a sua candidata, em 2010. Ela se deu no transcurso de três meses, entre o início de dezembro e este início de março. A comparação com a eleição de 2018, em que também houve uma transferência rápida de votos entre Lula e Fernando Haddad fica prejudicada, porque a substituição aconteceu durante a campanha eleitoral.

O Datafolha saiu a campo entre os dias 3 e 5 de março, na sequência de uma sucessão de fatos potencialmente tóxicos para a candidatura de Lula. O primeiro deles é a ressaca do carnaval , em que o constrangedor desfile em homenagem ao presidente promovido pela Acadêmicos de Niterói, que foi rebaixada, produziu repercussão negativa no eleitorado mais conservador.

O segundo foi a polêmica do caso Master, que mais beneficia Flavio que propriamente prejudica o petista. Como as descobertas a respeito do ex-banqueiro Daniel Vorcaro comprometem pesadamente a imagem do Supremo, contribuem para deslegitimação do julgamento dos atos de 8 de janeiro, que condenaram o ex-presidente.

O terceiro, que eventual poderá ser fatal para Lula, é o dos vazamentos dos sigilos dos envolvidos no escândalo do INSS, que devolveram para o noticiário o filho do presidente Fabio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Veio à tona que Lulinha teria movimentado em R$ 20 milhões em cinco anos em uma conta bancária e que ele teria estudado um investimento em canabis medicinal com o operador Antônio Carlos Camilo Antunes, o careca do INSS, de quem teria aceitado uma viagem a Portugal para avaliar o negócio.

O caso Lulinha é o pior de todos para o presidente porque retira do armário esqueletos de décadas passadas que associaram Lula a desonestidade. Há uma vasta e florida mitologia a respeito dos negócios milionários do filho de Lula. Nada jamais foi cabalmente provado, mas a vida empresarial bem sucedida do filho do presidente nunca teve uma explicação convincente.

A pesquisa do Datafolha anterior é de dezembro, não sendo possível, dentro de levantamentos do mesmo instituto, avaliar a dimensão do impacto que essa sucessão de acontecimentos teve na intenção de voto do presidente. O intervalo de tempo é grande demais. Na comparação entre dezembro e março não se vislumbra influência. A rejeição de Lula subiu apenas dois pontos percentuais. Mas os 90 dias de diferença prejudicam a análise.

O levantamento do Datafolha deixa claro também que , entre os três presidenciáveis do PSD, o governador do Rio Grande do Sul Eduardo Leite aparece como o mais fraco (3% de intenção de voto) , o do Paraná Ratinho Júnior como o mais forte ( 7%) e o de Goiás, Ronaldo Caiado, entre os dois, com 4%. Paradoxalmente contudo quem ganha fôlego nos últimos dias para tentar disputar a condição de terceira via é Leite, que reafirmou o desejo de ser candidato e parece menos condicionado às dificuldades de se montar um palanque regional.

Apostando firme na vertente "outsider", Renan Santos (Missão) alcança 3%. Ele tem feito sua campanha em redes sociais, com um discurso sob medida para despertar a indignação do eleitor. Quem viveu a campanha paulistana de 2024 e se impressionou com Pablo Marçal certamente identificará a mesma linha em Renan. O que dificulta o candidato do Missão em tornar-se competitivo é o nível da polarização atual: Flavio Bolsonaro nacionalmente é muito mais forte do que era o prefeito Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo e Lula incomparavelmente mais robusto do que Guilherme Boulos (Psol).

 

 

 

 

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