Valor Econômico
Os dois provavelmente seguirão assim até o
desfecho. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atingiu o
patamar de 33% de intenção de voto para presidente no primeiro turno, de acordo
com o Datafolha divulgado nesse sábado. No segundo turno contra o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, vai a 43%, três pontos percentuais atrás do petista.
A rejeição do senador é de 45% e a do presidente, 46%. O cruzamento dos dois
indicadores deixa claro que o presidente já bateu no seu teto. O ponto de
chegada das eleições, para o qual ainda faltam sete meses, deve ser igual ou
menor do que o ponto de partida, Lula não tem outro eleitorado a conquistar.
Já o herdeiro do bolsonarismo ainda tem algum
espaço de crescimento no primeiro turno, sobretudo se agregar o apoio do
governador Romeu Zema ( Novo), que patina entre 4% e 5%, conforme a simulação,
e que é frequentemente lembrado como um bom candidato a vice. A soma de Flavio
e Zema no primeiro turno levaria o oponente de direita a empatar com o
presidente, que oscila entre 38% e 39%.
No segundo turno a equação está dada: Lula e Flávio já estão empatados e provavelmente seguirão assim até o desfecho, mantidas as condições naturais de temperatura e pressão. Somente a ditadura do imponderável desviará esse curso. A campanha eleitoral ainda não começou e parece já concluída.
O que há de notável no desempenho de Flávio
Bolsonaro é que a transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro para o
filho primogênito não precisou de uma campanha para acontecer, como foi
necessário quando Lula ungiu Dilma Rousseff como a sua candidata, em 2010. Ela
se deu no transcurso de três meses, entre o início de dezembro e este início de
março. A comparação com a eleição de 2018, em que também houve uma
transferência rápida de votos entre Lula e Fernando Haddad fica prejudicada,
porque a substituição aconteceu durante a campanha eleitoral.
O Datafolha saiu a campo entre os dias 3 e 5
de março, na sequência de uma sucessão de fatos potencialmente tóxicos para a
candidatura de Lula. O primeiro deles é a ressaca do carnaval , em que o
constrangedor desfile em homenagem ao presidente promovido pela Acadêmicos de
Niterói, que foi rebaixada, produziu repercussão negativa no eleitorado mais
conservador.
O segundo foi a polêmica do caso Master, que
mais beneficia Flavio que propriamente prejudica o petista. Como as descobertas
a respeito do ex-banqueiro Daniel Vorcaro comprometem pesadamente a imagem do
Supremo, contribuem para deslegitimação do julgamento dos atos de 8 de janeiro,
que condenaram o ex-presidente.
O terceiro, que eventual poderá ser fatal
para Lula, é o dos vazamentos dos sigilos dos envolvidos no escândalo do INSS,
que devolveram para o noticiário o filho do presidente Fabio Luís Lula da
Silva, o Lulinha. Veio à tona que Lulinha teria movimentado em R$ 20 milhões em
cinco anos em uma conta bancária e que ele teria estudado um investimento em
canabis medicinal com o operador Antônio Carlos Camilo Antunes, o careca do
INSS, de quem teria aceitado uma viagem a Portugal para avaliar o negócio.
O caso Lulinha é o pior de todos para o
presidente porque retira do armário esqueletos de décadas passadas que
associaram Lula a desonestidade. Há uma vasta e florida mitologia a respeito
dos negócios milionários do filho de Lula. Nada jamais foi cabalmente provado,
mas a vida empresarial bem sucedida do filho do presidente nunca teve uma
explicação convincente.
A pesquisa do Datafolha anterior é de
dezembro, não sendo possível, dentro de levantamentos do mesmo instituto,
avaliar a dimensão do impacto que essa sucessão de acontecimentos teve na
intenção de voto do presidente. O intervalo de tempo é grande demais. Na
comparação entre dezembro e março não se vislumbra influência. A rejeição de
Lula subiu apenas dois pontos percentuais. Mas os 90 dias de diferença
prejudicam a análise.
O levantamento do Datafolha deixa claro
também que , entre os três presidenciáveis do PSD, o governador do Rio Grande
do Sul Eduardo Leite aparece como o mais fraco (3% de intenção de voto) , o do
Paraná Ratinho Júnior como o mais forte ( 7%) e o de Goiás, Ronaldo Caiado,
entre os dois, com 4%. Paradoxalmente contudo quem ganha fôlego nos últimos
dias para tentar disputar a condição de terceira via é Leite, que reafirmou o
desejo de ser candidato e parece menos condicionado às dificuldades de se
montar um palanque regional.
Apostando firme na vertente
"outsider", Renan Santos (Missão) alcança 3%. Ele tem feito sua
campanha em redes sociais, com um discurso sob medida para despertar a
indignação do eleitor. Quem viveu a campanha paulistana de 2024 e se
impressionou com Pablo Marçal certamente identificará a mesma linha em Renan. O
que dificulta o candidato do Missão em tornar-se competitivo é o nível da
polarização atual: Flavio Bolsonaro nacionalmente é muito mais forte do que era
o prefeito Ricardo Nunes (MDB) em São Paulo e Lula incomparavelmente mais
robusto do que Guilherme Boulos (Psol).

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