O Globo
No mundo real, perdurou até o início do
século passado a mistificação de batalhas gloriosas, vitórias nobres e combates
de valentia
Começar uma coluna de jornal citando Hegel,
ainda mais de orelhada, é dose. Mas é dele o conceito de que guerras são um
purgatório necessário, pois “salvam o Estado da petrificação e da estagnação
social”. No entender do alemão, é por meio do conflito que se impede a
corrupção social e se renova a saúde ética do Estado. Hegel via o Estado como a
“marcha de Deus no mundo” e não via a guerra como mal absoluto.
No mundo real, perdurou até o início do século passado a mistificação de batalhas gloriosas, vitórias nobres e combates de valentia altruísta. Devemos ao príncipe Andrei Bolkonsky, personagem do monumental “Guerra e paz”, de Liev Tolstói, uma das mais ferozes críticas à glorificação da guerra, expondo sua crueldade sem adornos. A cena se passa na véspera da Batalha de Borodino (1812), que seria vencida pelas tropas de Napoleão ao custo de 30 mil soldados e 45 mil vidas do lado russo, e reflete a tomada de consciência do príncipe:
— Tudo se resume a isto: devemos acabar com a
hipocrisia e fazer da guerra uma guerra, e não um jogo. Caso contrário, a
guerra é o passatempo predileto dos ociosos e frívolos... Não há profissão mais
estimada que a militar. E o que é a guerra? O que constitui o sucesso na
guerra? Quais são os meios do mundo militar? O objetivo e o fim da guerra é o
assassinato; os instrumentos usados são a espionagem, a traição, a ruína de um
país, o saque e o roubo de seus habitantes para a manutenção do Exército, o
embuste e a mentira, que aparecem sob o título de arte da guerra. O mundo
militar é caracterizado pela ausência de liberdade, inatividade forçada,
ignorância, crueldade, devassidão e embriaguez... Amanhã dezenas de milhares de
homens se encontrarão para massacrar uns aos outros: para matar e mutilar, e
então oferecerão serviços de ação de graças por terem aniquilado tantos
(exageram até o número). E proclamarão vitória...
Foi somente a partir da dizimação humana em
escala industrial na Grande Guerra de 1914-18 que a glorificação marcial
começou a ruir. Ela foi silenciada depois que os Estados Unidos lançaram
duas bombas atômicas sobre o Japão, em 1945. Hoje,
o recurso à guerra em grande escala — sobretudo quando desencadeada por
escolha, não por necessidade — é a maneira mais inglória de um governante
reconciliar seus descontentamentos. O ataque maciço contra o Irã iniciado na
manhã de 28 de fevereiro por ordem de Donald Trump,
comandante em chefe da maior potência militar do planeta, em sociedade com o
primeiro-ministro israelense Benjamin
Netanyahu, não tem volta.
Para Netanyahu, foi uma espera de 45 anos.
Tanto em seu livro de memórias como em discurso de setembro de 2012, quando
apresentou na ONU o
diagrama de uma bomba nuclear que o Irã estaria a poucas semanas de produzir,
ele vem convencendo a população israelense, a diáspora judaica e meio mundo de
que a sobrevivência de Israel depende da aniquilação do regime teocrático
iraniano. Não sem razão, visto que “morte a Israel” tem sido o mote mobilizador
da Revolução Islâmica desde 1979. Só que as “poucas semanas” até o apocalipse
anunciado na ONU se converteram em 15 anos de negociações sempre sabotadas,
direta ou indiretamente, por Netanyahu. Não espanta que, encerrada a primeira
semana de guerra total, com a dizimação do líder supremo Ali Khamenei e vários
escalões políticos e militares daquela teocracia, 93% dos israelenses declarem
apoio à empreitada de Bibi.
Para Trump, deve sair mais cara a decisão de
usar o colossal poderio bélico americano contra um país do outro lado do mundo.
Segundo pesquisa NPR/PBS de sexta-feira, apenas 36% da população aprova o
envolvimento dos Estados Unidos numa guerra ilegal, que não considera sua. Os
motivos e objetivos cambiantes fornecidos pelo presidente para desencadear sua
guerra apenas reforçam o caráter insano da empreitada. O humilhante histórico
de fracassos das Forças Armadas americanas no Vietnã, no Iraque e
no Afeganistão nunca
foi apagado. Trump deve ter acreditado que, não tendo sido agraciado com o
Nobel da Paz, conseguirá se consagrar como comandante em chefe de uma grande
guerra. Na sexta-feira, anunciou em rede social e letras maiúsculas que, ao
Irã, só resta a capitulação. E que caberá a ele, presidente dos Estados Unidos,
escolher o novo líder do país rendido.
Fazer acontecer tamanha sandice, com um boné
“USA” enfiado na cabeça, será tortuoso. Como diz o príncipe de Tolstói, “uma
guerra não é um jogo”.

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