O Estado de S. Paulo
O caso cubano é daqueles que exigem capacidade de lidar com verdades antagônicas e até inconciliáveis
Cuba parece estar em suspensão, à espera de
acontecimentos que remodelarão sua fisionomia em futuro mais ou menos próximo.
Vive uma drôle de guerre, dir-se-ia, assemelhada à que acometeu os franceses em
1940, antes da guerra propriamente dita.
Bem verdade que as diferenças também são cruciais. Agora, prevalecendo minimamente a lógica, não se espera invasão por terra ou chuva de bombas aéreas. Em compensação, os sofrimentos humanos já são reais e não podem ser dissimulados, como se a vida pudesse seguir com a aparência de sempre. A crueldade de Donald Trump não só afeta a economia da ilha, mas irrompe na emergência dos hospitais, nos cortes de água, na escassez de alimentos e remédios.
Nisto que parece ser o ato final, o bloqueio
norte-americano reitera sua dimensão tacanha. Desde que se estabeleceu há quase
sete décadas, nem de longe cumpriu o objetivo declarado de cercar, enfraquecer
ou derrubar o regime. Antes o fortaleceu, dando-lhe a possibilidade de
arregimentar a população contra o inimigo externo, uma das armas clássicas para
calar toda e qualquer dissidência, caracterizada invariavelmente como
antinacional e instrumento do imperialismo.
O caso cubano é daqueles que exigem
capacidade de lidar com verdades antagônicas e até inconciliáveis – uma das
capacidades humanas menos empregadas. Ao longo do tempo, suscitou adesões e
repulsas ideologicamente carregadas que expulsaram, e expulsam, o espírito
crítico e a argumentação serena.
Fácil demais, à direita, demonizar a ilha e
suas tentativas – na verdade, quixotescas – de exportar o modelo revolucionário
para uma América Latina supostamente em chamas, pronta para gerar “um, cem, mil
Vietnãs”. Não menos fácil, à esquerda, dobrar-se ao mito do “território livre
das Américas” e incorrer em rituais duvidosos, como o culto à personalidade do
homem providencial ou a celebração de um tipo de sociedade e de Estado
crescentemente autoritários.
A socióloga argentina Claudia Hilb, num pequeno e precioso livro, chamou a atenção para a substancial inaptidão para decifrar o regime da Revolução Cubana por parte de variados setores da esquerda democrática. Em Silêncio, Cuba (Paz e Terra, 2010), tratou de decifrar a antinomia fundamental do “paradigma revolucionário”: conquistas sociais na educação ou na saúde, por exemplo, se mostraram indissociáveis da concentração tendencialmente absoluta do poder político. Por isso, o grau relativamente mais elevado de igualdade, para os padrões latinoamericanos, teve como contrapartida necessária a compressão das liberdades civis.
No plano “estrutural”, a economia
centralizada nunca constituiu base sólida para o welfare à cubana dos anos
1970-1980. No seu auge, devia ser apoiada externamente pela distante União
Soviética, interessada em cravar um espinho nas costas da Flórida, assim como,
já no seu declínio, passaria a depender cada vez mais da precária Venezuela
chavista. No plano “superestrutural”, a direção única seguia o caminho do
controle ideológico e da difusão do conformismo como princípio regente do
comportamento cotidiano. (Hilb, aliás, fala diretamente do medo como princípio
de ação.)
“Dentro da revolução, tudo; fora da
revolução, nada” – a consigna popularizada por Fidel Castro desde a fase
heroica não pôde se manter quando a esquerda, ou parte dela, trocou o paradigma
revolucionário pelo democrático. As muitas vozes de uma sociedade plural e
moderna não permitem que uma só voz defina o que é revolução, o que ela inclui
e o que exclui. Em Cuba, desde o início muita gente foi excluída e passou a
viver o drama do exílio e da separação, que não é lícito ignorar porque alegadamente
afetaria só os que são “de direita” e fugiram para os Estados Unidos, México ou
Espanha.
Muito pelo contrário, a emigração assumiu
caráter de massa, tanto pelo bloqueio norte-americano quanto, sobretudo, pelos
fundamentos estreitos da economia cubana. As sucessivas vagas migratórias
acabaram por criar um problema demográfico de difícil resolução, expulsando os
jovens e deixando para trás os necessitados de cuidado, que os serviços sociais
desmantelados não conseguem atender. Para analistas sagazes, o paradoxo final é
que assim, involuntariamente, Cuba e Estados Unidos, com milhões de exilados,
se tornaram ainda mais entrelaçados nesta passagem de época repleta de tiranias
locais e pulsões imperialistas.
A degradação da democracia na América faz
temer o pior. Estamos longe de um Barack Obama que há exatos dez anos
restabelecia relações diplomáticas e econômicas entre os dois países, ainda que
sem pular a barreira do Congresso para suspender o bloqueio comercial.
Tratava-se, segundo Obama, de encerrar o último legado da guerra fria no
Hemisfério e propiciar reformas paulatinas na economia e na política.
Hoje, porém, pratica-se a “decapitação” das direções adversárias – bem-sucedida, por assim dizer, na Venezuela, e calamitosamente fracassada no Irã. Parafraseando o poeta, a violência da linguagem dá perfeita ideia da violência propriamente dita inerente aos desatinos de Trump.
*Tradutor e ensaísta, é coeditor das obras de Gramsci no Brasil

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