Folha de S. Paulo
Conceito inclui uma contradição intrínseca: a
parte humana não está dissociada do caráter extraordinário de seus atos
A vulgaridade pessoal de dom Pedro 1º e de
seu ídolo, Napoleão, talvez contribua para tornar suas trajetórias mais
impressionantes
O artigo "’Honrar
heróis’ do passado só disfarça horror antigo" (11/4), do colunista Reinaldo José
Lopes, publicado nesta Folha, trouxe-me à memória a frase final da
peça de Bertolt
Brecht que vi na adolescência, em Fortaleza, encenada no Teatro
Oficina e tendo Renato Borghi no
papel título: "Galileu
Galilei".
A renúncia do astrônomo às teses que vinha difundindo sobre o sistema solar, depois das ameaças da Inquisição, decepcionou seus admiradores. Entre os instrumentos de suplício que lhe mostraram e a defesa de suas descobertas científicas, ele escolheu salvar a pele.
O colunista demonstra com dados
cientificamente comprovados que o fato de o DNA do brasileiro ter poucos
vestígios dos povos indígenas é prova do continuado extermínio a que aqueles
povos foram submetidos desde a descoberta da América. Mas os 5 milhões de
africanos escravizados também deixaram bem menos traços no nosso DNA que os
europeus que os sequestraram. Conclui Lopes que, apesar de sermos um povo
miscigenado, a herança europeia se sobrepõe às demais e que esconder isso em
favor do culto aos nossos supostos heróis é uma forma de desamor à pátria.
Foi bom ler esse artigo na mesma semana em
que participei de audiência no Senado com vistas à criação do Dia Nacional dos Mártires da Confederação do Equador, proposta
pela senadora Teresa Leitão (PT-PE). O martírio de Frei Caneca, Padre Mororó e
Tristão Gonçalves, entre outros, foi ordenado por um personagem que foi
inscrito no Livro dos Heróis da Pátria: dom Pedro 1º.
Dei ao perfil biográfico que publiquei sobre
dom Pedro 1º o subtítulo de "Um herói sem nenhum caráter". Quis
resumir assim —valendo-me da fórmula de Mário de
Andrade para sintetizar o povo brasileiro na figura de
Macunaíma— as ambiguidades do príncipe que foi o ator principal da história do
país em seu tempo. Ele optou por ficar conosco e proclamar a Independência;
convocou eleições para uma Constituinte brasileira; deu uma Carta
Constitucional que regeu a ordem política durante todo o Império; garantiu o
reconhecimento da Independência e escolheu a Coroa brasileira em vez da
portuguesa em 1826, após a morte de dom João 6º.
No entanto, dom Pedro fez tudo isso de forma
impulsiva, atabalhoada, com avanços e recuos. Sua imagem na vida pública foi
contaminada pela relação íntima que estabeleceu com Domitila de
Castro, a Marquesa de Santos. O desrespeito à imperatriz,
personalidade de peso político nas cortes europeias e oficialmente dotada de
poder para substituí-lo como regente, teve consequências negativas para seus
objetivos políticos internacionais.
Pessoalmente, era um sujeito simpático,
atraente e bem-humorado. Esse charme um tanto acafajestado —a Marquesa de
Abrantes disse que ele tinha os modos de moço de cavalariça— fez sucesso em
Paris quando ele ali apareceu no segundo semestre de 1831. Dali, seguiu
para Portugal e,
com denodo e sacrifício, venceu a guerra contra o irmão, colocou a filha no
trono e garantiu o constitucionalismo em Portugal. Sua morte, em 1834, foi
lamentada pela imprensa liberal europeia.
Essas ações fazem contraste com as do trêfego
dom Pedro 1º das nossas
minisséries televisivas. Mas o conceito de herói já inclui uma
contradição intrínseca: a parte humana não está dissociada do caráter
extraordinário de seus atos. A vulgaridade pessoal de dom Pedro 1º e de seu
ídolo, Napoleão Bonaparte, talvez contribua para tornar suas trajetórias mais
impressionantes: como é que homens assim fizeram coisas tão notáveis?
No final da peça, Brecht põe na boca de
Galileu a frase: "Infeliz o povo que precisa de heróis". Tendo a
discordar. Acho que precisamos de heróis. Graças aos avanços da pesquisa
histórica, personagens oriundos de povos sub-representados no nosso DNA têm
sido incluídos no Livro dos Heróis. É preciso reconhecer, valorizar e lembrar
das ações das pessoas que, apesar de seus defeitos, lutaram e se sacrificaram
para tornar o Brasil melhor. Elas nos inspiram e alimentam nossas esperanças no
futuro do país.
*Historiadora e escritora, é sócia titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e autora de ‘Dom Pedro 1º – Um Herói Sem Nenhum Caráter’ (Cia. das Letras)

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