O Globo
O atual ocupante da Casa Branca tem dado
provas de insanidade maior que a do amaldiçoado rei George III
Não é todo dia que um monarca britânico cruza o Atlântico para receber tratamento real na Casa Branca. O primeiro a ser recebido na antiga colônia foi George VI, em 1939, com a fúria nazifascista já em marcha na Europa. Sua sucessora Elizabeth II tratou de estreitar os laços, empreendendo uma visita de Estado a cada 20 anos de seu longo reinado. Dos quatro presidentes dos Estados Unidos que a receberam, ela manifestou apreço nítido apenas por Dwight Eisenhower, com quem trocou receitas de cozinha. De resto, manteve inalterado o sangue azul mesmo quando recebeu o mais improvável dos presentes, cortesia de Richard Nixon: um manual de autoajuda em oratória.
A partir de amanhã, será a vez de o rei
Charles III e a rainha Camilla pisarem naquela terra estranha. O motivo oficial
da visita de quatro dias é nobre: comemoração aos 250 anos de independência e
democracia americana. Mas o momento específico é espinhoso, visto que o atual
ocupante da Casa Branca tem dado provas de insanidade maior que a do
amaldiçoado rei George III.
Não é o caso, aqui, de relembrar os 15 meses
deste segundo governo Donald Trump, que tem levado o mundo à beira de ataques
de nervos e a outras beiras. Basta elencar o rompante presidencial da última
sexta-feira, dia 24. Em meio ao detalhamento de um inocente chá da tarde com
que a monarquia britânica será recebida no número 1.600 da Pennsylvania Avenue,
o governo Trump também informou ao mundo a volta de pelotões de fuzilamento
para o cumprimento de penas de morte por crimes federais no país. (Historicamente,
fuzilamento costumava ser o método-padrão para execuções militares mundo
afora.) Hoje em dia, os Estados Unidos são o quinto país com maior população
carcerária no corredor da morte — apenas três casas abaixo do Irã. Pelo menos
desta vez, ainda não se aventou ressuscitar a cadeira elétrica ou a forca.
Na mesma sexta-feira, a agência Reuters
obteve acesso exclusivo a um e-mail interno do Pentágono que, este sim, tem
tudo a ver e pode indispor a Casa de Windsor. O documento elenca opções para
punir os países aliados que não aderiram à insânia da guerra em curso contra o
Irã. Da lista de castigos a ser eventualmente aplicados, consta a proposta de revisão
da posição americana sobre as Ilhas Malvinas e outras “antigas possessões
imperiais” europeias. Por essa, nem o rei Charles esperava.
Quando a ditadura militar argentina fez uma
tentativa de tomar pela força o arquipélago no Atlântico Sul, em 1982, ele
vivia sob administração britânica desde meados do século XIX. Margaret
Thatcher, a dama de ferro que comandava o Reino Unido à época, despachou sua
armada mar afora, perdeu 255 soldados no embate, mas venceu. Desde então, os
Estados Unidos evitavam tomar partido. Aceitavam que as ilhas são administradas
pelo Reino Unido, mas reconheciam a reivindicação eterna da Argentina. Não
mais. Depende do humor na Casa Branca.
Pelo memorando publicado, o primeiro-ministro
britânico, Keir Starmer, poderá acordar um dia e ser informado de que os Estados
Unidos passam a defender a soberania argentina sobre as Malvinas. Punição
justa, segundo o decálogo de Trump, pela recusa de Starmer em ceder um navio de
guerra à cruzada americano-israelense contra o Irã.
A notícia foi recebida com assombro no Reino
Unido. Nas redes sociais, prevaleceu o pedido para que Charles e Camilla
suspendessem de última hora a visita.
— Onde fomos parar! — escreveu um internauta.
— Somos uma nação que outrora reinou sobre um quarto do planeta, agora reduzida
a um país cujos territórios podem ser repassados a um populista sul-americano
por não ter manifestado lealdade suficiente a um homem que nem sequer sabe
soletrar a palavra aliança.
Era uma referência ao presidente argentino
Javier Milei, cuja lealdade canina a Trump se viu inopinadamente recompensada.
Na verdade, os ingleses nunca digeriram
direito a visita oficial de Trump a Londres em setembro último. Ele fora
convidado pelo próprio monarca, teve direito a hospedagem no Castelo de
Windsor, além de toda pompa e circunstância que tanto fascinam os americanos em
geral. E Trump em particular, com seu gosto por vasos sanitários dourados. A
visita foi considerada uma humilhação nacional, pois, em menos de um ano na
Presidência, Trump já chamara Starmer de covarde e frouxo, qualificara os
porta-aviões britânicos de “brinquedos” e tratara a histórica relação entre
Reino Unido e Estados Unidos como tapete de limpar os pés. O penoso é que, no
caso de Starmer, Trump tem razão: há muitas décadas o Reino Unido não tem um
governante tão desqualificado e invertebrado.
Com esse pano de fundo, a visita da realeza
promete.

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