domingo, 26 de abril de 2026

Angelo Agostini, por Ivan Alves Filho*

Ele foi, seguramente, um dos mais importantes artistas gráficos do Brasil no período que vai da transição da Monarquia à República, ou seja, durante boa parte do século XIX. Italiano da região do Piemonte, onde nascera em 1843, veio para São Paulo em 1859, acompanhando sua mãe, a cantora lírica Raquel Agostini.

Estamos falando de Angelo Agostini, cujos desenhos encantam ainda hoje pelo sopro libertário e alegria do traço. E também pelo pioneirismo tanto estético quanto político. Conforme salientou o respeitado historiador e crítico literário Nelson Werneck Sodré, "suas caricaturas, por vezes contundentes, puseram a nu os traços grotescos da classe dominante brasileira do tempo, suas irremediáveis mazelas, seu atraso insuportável". Autor de exatos 57 livros, versando sobre os mais diferentes domínios do conhecimento humanístico, o mínimo que se pode dizer é que Nelson Werneck Sodré sabia muitíssimo bem o que estava afirmando.

Pois Angelo Agostini foi, acima de tudo, homem de seu tempo. E o seu tempo era aquele da escravidão e do latifúndio que o acompanhava. Sintomaticamente, Agostini começaria sua carreira de ilustrador na revista Diabo Coxo, que alinhava entre seus colaboradores o abolicionista Luís Gama. Isso no ano de 1864, em São Paulo. A publicação - a primeira a ter caráter ilustrado entre nós - seria fechada já em 1865, por pressão dos senhores de escravos.

Mas Agostini não esmoreceu: em 1866, lançava o periódico Cabrião, cuja sede seria depredada pelas forças conservadoras. O periódico fazia alusão à participação de escravos na Guerra do Paraguai e não hesitava em condenar a corrupção no Império. Decididamente, Angelo Agostini e seus companheiros incomodavam os poderosos da época.

Agostini percebeu que era a hora de mudar de ares e veio se instalar no Rio de Janeiro. Isso, em 1867. Na então capital do Império, colaborou em diversos periódicos, como O Mosquito e Vida Fluminense. Nesta última publicação, aliás, estampou, em 1869, Nhô Quim, ou Impressões de uma viagem à Corte, a primeira história em quadrinhos brasileira. Angelo Agostini enxergava longe. Daí para a frente, ele não pararia mais, seja criando a Revista Ilustrada, seja colaborando na publicação Don Quixote. Agostini trabalhou ainda em O Malho e na prestigiosa Gazeta de Notícias, o jornal de Machado de Assis e Eça de Queirós, entre outros grandes nomes da Literatura e do Jornalismo da época.

Em 1883, lançou seu personagem mais célebre, o Zé Caipora. Publicado em fascículos três anos depois, Zé Caipora se transformaria na primeira revista de quadrinhos do país. De certa forma, um dos primeiros quadrinhos do mundo também. Para se ter uma ideia da modernidade disso, basta dizer que somente em 1930, isto é, quase meio século depois, portanto, é que voltaria a surgir no Brasil uma revista independente de quadrinhos.  

Angelo Agostini - que se naturalizou brasileiro - criou ainda outros personagens identificados com o imaginário popular brasileiro, como a índia Inaiá. Vários de seus trabalhos foram reunidos em livros e possuem, hoje, um caráter praticamente documental. Se era homem do seu tempo, conforme afirmamos, era também alguém que viu muito além do seu próprio tempo histórico.

Como curiosidade, pois o material depois se perdeu, Zé Caipora iria para as telas do jovem cinema brasileiro, em 1909, sob o título As aventuras de Zé Caipora, dirigido por Antonio Serra. Em 1905, criaria o logotipo da célebre revista em quadrinhos brasileira, a Tico-Tico, contribuindo para formar o público leitor entre nós. E, certamente, para abrir a via para os futuros cartunistas e caricaturistas entre nós, como Nair de Teffé, J. Carlos, Belmonte, Nássara, Péricles, Maurício de Souza, Ziraldo, Jaguar, Paulo Caruso, Miguel Paiva, Henfil e Mariano, todos extremamente talentosos.

O jornalista, ilustrador e caricaturista Angelo Agostini faleceria em 1910, no Rio de Janeiro, quando ainda se encontrava em plena atividade.

*Ivan Alves Filho, historiador. 

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