Ele foi, seguramente, um dos mais importantes artistas gráficos do Brasil no período que vai da transição da Monarquia à República, ou seja, durante boa parte do século XIX. Italiano da região do Piemonte, onde nascera em 1843, veio para São Paulo em 1859, acompanhando sua mãe, a cantora lírica Raquel Agostini.
Estamos falando de Angelo Agostini, cujos desenhos encantam ainda hoje pelo sopro libertário e alegria do traço. E também pelo pioneirismo tanto estético quanto político. Conforme salientou o respeitado historiador e crítico literário Nelson Werneck Sodré, "suas caricaturas, por vezes contundentes, puseram a nu os traços grotescos da classe dominante brasileira do tempo, suas irremediáveis mazelas, seu atraso insuportável". Autor de exatos 57 livros, versando sobre os mais diferentes domínios do conhecimento humanístico, o mínimo que se pode dizer é que Nelson Werneck Sodré sabia muitíssimo bem o que estava afirmando.
Pois Angelo Agostini foi, acima de tudo,
homem de seu tempo. E o seu tempo era aquele da escravidão e do latifúndio que
o acompanhava. Sintomaticamente, Agostini começaria sua carreira de ilustrador na
revista Diabo Coxo, que alinhava entre seus colaboradores o abolicionista
Luís Gama. Isso no ano de 1864, em São Paulo. A publicação - a primeira a ter
caráter ilustrado entre nós - seria fechada já em 1865, por pressão dos
senhores de escravos.
Mas Agostini não esmoreceu: em 1866, lançava
o periódico Cabrião, cuja sede seria depredada pelas forças conservadoras.
O periódico fazia alusão à participação de escravos na Guerra do Paraguai e não
hesitava em condenar a corrupção no Império. Decididamente, Angelo Agostini e
seus companheiros incomodavam os poderosos da época.
Agostini percebeu que era a hora de mudar de
ares e veio se instalar no Rio de Janeiro. Isso, em 1867. Na então capital do
Império, colaborou em diversos periódicos, como O Mosquito e Vida
Fluminense. Nesta última publicação, aliás, estampou, em 1869, Nhô Quim,
ou Impressões de uma viagem à Corte, a primeira história em quadrinhos
brasileira. Angelo Agostini enxergava longe. Daí para a frente, ele não pararia
mais, seja criando a Revista Ilustrada, seja colaborando na
publicação Don Quixote. Agostini trabalhou ainda em O Malho e na
prestigiosa Gazeta de Notícias, o jornal de Machado de Assis e Eça de
Queirós, entre outros grandes nomes da Literatura e do Jornalismo da época.
Em 1883, lançou seu personagem mais célebre,
o Zé Caipora. Publicado em fascículos três anos depois, Zé Caipora se
transformaria na primeira revista de quadrinhos do país. De certa forma, um dos
primeiros quadrinhos do mundo também. Para se ter uma ideia da modernidade
disso, basta dizer que somente em 1930, isto é, quase meio século depois,
portanto, é que voltaria a surgir no Brasil uma revista independente de
quadrinhos.
Angelo Agostini - que se naturalizou
brasileiro - criou ainda outros personagens identificados com o imaginário
popular brasileiro, como a índia Inaiá. Vários de seus trabalhos foram reunidos
em livros e possuem, hoje, um caráter praticamente documental. Se era homem do
seu tempo, conforme afirmamos, era também alguém que viu muito além do seu próprio
tempo histórico.
Como curiosidade, pois o material depois se
perdeu, Zé Caipora iria para as telas do jovem cinema brasileiro, em 1909, sob
o título As aventuras de Zé Caipora, dirigido por Antonio Serra. Em 1905,
criaria o logotipo da célebre revista em quadrinhos brasileira, a Tico-Tico,
contribuindo para formar o público leitor entre nós. E, certamente, para abrir
a via para os futuros cartunistas e caricaturistas entre nós, como Nair de
Teffé, J. Carlos, Belmonte, Nássara, Péricles, Maurício de Souza, Ziraldo,
Jaguar, Paulo Caruso, Miguel Paiva, Henfil e Mariano, todos extremamente
talentosos.
O jornalista, ilustrador e caricaturista
Angelo Agostini faleceria em 1910, no Rio de Janeiro, quando ainda se
encontrava em plena atividade.
*Ivan Alves Filho, historiador.

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