domingo, 26 de abril de 2026

O poeta, o carteiro, o rombo dos Correios e o modelo logístico alemão, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A privatização dos Correios não é uma questão ideológica, nem a favor, nem contra, decorre de fatores econômicos, estruturais e políticos que tornam a estatal insustentável

O Carteiro e o Poeta (Il Postino) é um filme de 1995, belíssimo, que se baseia em fatos verídicos: a amizade, numa pequena ilha da Itália, em 1953, entre um carteiro que mal sabe ler e o poeta Pablo Neruda, que o governo italiano aceitou como exilado do Chile, desde que ficasse quieto em lugar distante e não perturbasse. O diretor Massimo Troisi brilha neste seu último filme: morreu do coração, aos 41 anos, em 1994, ano das gravações. A música é do maestro Luís Bacalov, que fez Os Saltimbancos. A fotografia e as locações são espetaculares.

A amizade improvável entre Neruda e o carteiro iletrado é a poesia do filme. Para conquistar Beatrice, ele recita versos que o poeta escreveu para sua mulher. Num certo momento do filme, Neruda diz que ele roubou a poesia, ao que o carteiro responde: “Eu não roubei; a poesia é de quem precisa dela, e eu precisava”. O poeta aquiesce: “É uma forma interessante de apropriação de um bem”. Os carteiros estão entre os trabalhadores mais benquistos pela sociedade, como os bombeiros, mas hoje são uma espécie em extinção.

Não por acaso, entre 3 de fevereiro e 7 de abril deste ano, 3.181 funcionários aderiram ao programa de demissão voluntária dos Correios. A empresa estatal registrou o maior prejuízo de sua história: um rombo de R$ 8,5 bilhões, sendo R$ 6,4 bilhões só com despesas com precatórios, dívidas que precisam ser pagas por determinação da Justiça.

Nos últimos dias de 2025, os Correios conseguiram fechar um empréstimo de R$ 12 bilhões. A maior parte dos recursos entrou ainda em dezembro passado. Esse crédito teve que ser usado para cobrir despesas emergenciais. Um consórcio com os bancos Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, com garantia do Tesouro Nacional, alongou as dívidas do Correio. De acordo com seu presidente, Emmanoel Schmidt Rondon, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Bradesco aportaram individualmente R$ 3 bilhões. Já Itaú e Santander emprestaram outro R$ 1,5 bilhão, cada um.

Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Emmanoel Schmidt Rondon assumiu a empresa em setembro passado, depois que a estatal triplicou seus prejuízos na gestão do Fabiano Silva dos Santos, advogado doutorado na PUC-SP e um dos coordenadores do grupo Prerrogativas. A necessidade de privatização dos Correios não é uma questão ideológica, nem a favor, nem contra. Decorre de fatores econômicos, estruturais e políticos que tornam a estatal insustentável. Os prejuízos são alimentados por pagamentos bilionários de precatórios, provisões para passivos trabalhistas e uma queda acentuada de receitas, especialmente pela perda de encomendas internacionais.

Concorrência

Alongamentos aliviam liquidez, mas não corrigem problemas de competitividade, estrutura de custos e modelo de negócio. A transformação estrutural do mercado postal-logístico, com o declínio do serviço de cartas, a migração do tráfego para plataformas digitais e a emergência de gigantes do e-commerce com logística própria, como Amazon e Mercado Livre, mudou o papel histórico dos Correios. Hoje, sua atividade de maior valor agregado é a logística de encomendas, que exige eficiência, escala, integração digital e investimento privado para adquirir competitividade. Todos os planos para recuperar a empresa fracassaram nos últimos anos.

Sim, a experiência internacional mostra redução de postos, precarização das contratações e enfraquecimento sindical quando o setor é privatizado, porém, há casos de grande sucesso na privatização, como a dos Correios da Alemanha. No Brasil, medidas como PDV, redução de jornada e adiamento de férias mostram que o modelo estatal com uma rede de 10 mil unidades de atendimento e 80 mil funcionários não consegue dar conta das exigências do mercado.

Não, empresas públicas não estão condenadas a dar prejuízo. Até o terceiro trimestre de 2025, empresas estatais federais (39 das 44 analisadas) registraram faturamento acumulado de R$ 1,017 trilhão, 6,3% acima do igual período de 2024, com lucro agregado de R$ 136,3 bilhões. Faturamento 22,5% superior ao dos primeiros nove meses de 2024. O investimento agregado somou R$ 86,4 bilhões, crescimento de 34,3% em relação a 2024. No acumulado, as estatais pagaram R$ 65,1 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio, sendo R$ 33 bilhões para a União e R$ 32,1 bilhões para demais acionistas.

Esses números mostram que a fragilidade dos Correios não é reflexo do desempenho do setor público, mas um caso particular muito grave, que precisa ser enfrentado com atitude e coragem, sem falar da competência técnica. O Deutsche Bundespost, que era a maior empresa estatal alemã, é um case de sucesso: foi privatizado de forma escalonada a partir de 1995, com participação inicial do banco público KfW e oferta subsequente de ações ao mercado, processo que permitiu capital para a modernização.

O grupo ampliou sua atuação comprando a DHL em 2002 e se transformou no Deutsche Post DHL Group, um conglomerado global de logística com cerca de 550 mil empregados, presente em mais de 220 países, inclusive no Brasil, e receitas na casa de 61 bilhões de euros em 2018. O sucesso alemão combinou abertura de capital, governança corporativa, aquisições estratégicas e investimento em digitalização e malha logística internacional, o que resultou em escala global, eficiência operacional e diversificação das receitas. O modelo exigiu reformas internas, reestruturações trabalhistas e políticas de transição que tiveram custos sociais e foram acompanhadas por forte regulação e medidas para mitigar impactos.

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