terça-feira, 21 de abril de 2026

A história ensina que os imperadores passam, mas o papado permanece, por João Pereira Coutinho*

Folha de S. Paulo

Por que Leão 14 não demonstra temor ou deferência diante de Donald Trump?

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições

Tempos interessantes. Os Estados Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.

Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente bizarrice trumpista.

Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.

Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.

Há quem prefira o conflito de Filipe 4º da França contra Bonifácio 8º. Dinheiro, tudo é dinheiro —e Filipe precisava taxar o clero para financiar suas guerras. Bonifácio se opôs. Dessa vez, o confronto terminou mal para o papa.

E que dizer de Henrique 8º e da recusa de Clemente 7º em anular o casamento do rei com Catarina de Aragão? É um dos conflitos mais conhecidos da história, que levou à ruptura com Roma e ao nascimento da Igreja Anglicana.

Em todos esses confrontos, a questão foi repetidamente a mesma: quem manda? Antes da modernidade política —ou seja, até a Revolução Francesa— o poder temporal disputou com frequência o espaço com o poder espiritual. E vice-versa. 

Donald Trump é o nome mais recente dessa linhagem anacrônica. Como é possível que o papa Leão 14 não abençoe sua guerra no Oriente Médio? Mais: como é possível que se oponha a ela?

Pior ainda: por que não demonstra temor ou deferência diante do imperador de Washington?

Curiosamente, ao formular essas perguntas e considerar a personalidade de Trump, é Napoleão Bonaparte e seu conflito com Pio 7° o exemplo histórico mais próximo que encontro.

Tudo começou bem entre os dois: em 1801, Napoleão e o papa assinaram uma concordata que devolvia parte das terras e dos direitos que a Igreja havia perdido com a Revolução Francesa. Em troca, Roma reconhecia a república.

Mas a concordata já nasceu torta, porque os dois lados enxergavam coisas diferentes no documento. Para Napoleão, ela selava a supremacia do Estado sobre a Igreja. Para o papa, era o primeiro passo para restaurar a aliança entre o trono e o altar na França pós-revolucionária.

No fundo, a pergunta "quem manda?" continuava pairando sobre os dois poderes —e rapidamente envenenou a cabeça de Napoleão. Tudo começou com um drama doméstico: o irmão de Bonaparte, Jérôme, queria obter de Roma a anulação do seu casamento com uma americana protestante.

Sem isso, a política de alianças e matrimônios que Napoleão arquitetava para os seus familiares na Europa ficaria comprometida. O papa recusou.

Mas foi a guerra, ontem como hoje, que acabou sendo a gota d’água. Napoleão exigiu que os Estados Pontifícios fechassem seus portos aos ingleses, contribuindo assim para o sucesso do chamado "bloqueio continental". Pio 7º não aceitou ser parte do conflito.

O que aconteceu em seguida foi descrito de forma definitiva pelo historiador Ambrogio Caiani no livro "To Kidnap a Pope, sequestrar um papa, em português. As tropas napoleônicas invadiram o Palácio do Quirinal em 1809 e sequestraram o papa.

Depois de anos de cativeiro, Pio 7º acabou cedendo ao poder do imperador com uma segunda concordata, em 1813, no exílio de Fontainebleau.

É possível que, em seus momentos mais delirantes, Donald Trump sonhe com uma missão semelhante. Se funcionou com Nicolás Maduro na Venezuela, por que não com Leão 14?

Eu desaconselharia. Até porque a história do conflito entre Napoleão e o papa não acabou bem para o imperador. Um ano depois da segunda concordata, Napoleão foi derrotado em Paris e, em 1815, definitivamente esmagado em Waterloo.

O papa, por sua vez, voltou a Roma. Foi recebido como um herói, um mártir e uma referência moral para toda a Europa.

Mais uma vez, confirmava-se a velha máxima: imperadores passam, mas o papado permanece.

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições. Elas seriam valiosas para tentar esfriar os impulsos do chefe.

A história é pródiga em napoleões que, embriagados pelo poder, acreditam mesmo governar este mundo e o outro.

*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

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