terça-feira, 21 de abril de 2026

Contrastes, por Merval Pereira

O Globo

Flavio não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito

Os dois candidatos favoritos nas pesquisas eleitorais para a Presidência da República, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, apresentam comportamentos distintos neste começo de campanha. O segundo não fala nada, joga em sua zona de conforto, só vai aonde sabe que será bem acolhido. Lula fala pelos cotovelos, como de hábito, e aproveita a permanência no cargo para explorar sua imagem pública. Ao não se expor muito, Flávio preserva a vantagem competitiva e explora o contraste entre um homem de 44 anos e um idoso de 80, mesmo que este aparente um bom vigor físico e o exiba nas redes sociais.

Lula tem a vantagem da experiência política e da visibilidade internacional. Flávio pretende explorar a relação da família com os Trump, mesmo que as relações conturbadas com o Brasil possam interferir na aceitação de parte do eleitorado. O presidente brasileiro parece estar querendo acirrar as divergências com o governo americano para ganhar a primazia da defesa nacional contra os interesses do imperialismo. No episódio das tarifas, o Brasil saiu-se bem nesse papel, e a família Bolsonaro perdeu o apoio de parte de eleitores de centro-direita por ter incentivado a taxação aos produtos brasileiros como maneira de pressionar o governo pela soltura do ex-presidente Jair Bolsonaro da cadeia.

Não deu certo a artimanha e, naquela ocasião, Trump desinteressou-se pelos “perdedores” brasileiros, aproximando-se de quem via como “vencedor”, Lula. Como Trump tem temperamento mercurial, está de novo às voltas com as críticas de Lula, que aumenta o tom à medida que a campanha ganha forma e que o próprio Trump aumenta a dose de loucura de sua política externa.

Num país católico como o Brasil, sempre será bom defender o Papa na disputa com Trump. Bolsonaro filho não poderá fazer isso, pelo menos com a mesma ênfase de Lula, pois está cada vez mais próximo dos evangélicos. Não há promessas a ser cumpridas pelos dois, apenas críticas mútuas. Lula está no poder pela terceira vez (e teve a maior responsabilidade pela reeleição da presidente Dilma), e o senador Bolsonaro tenta a retomada carregando o nome da família. Os dois têm legados a defender, mas lutam contra a rejeição que os persegue desde a eleição de 2022, que, como a deste ano, foi a escolha do candidato menos pior.

O fato de os eleitores tendam mais a votar nos candidatos da direita, mesmo que o líder extremista Jair Bolsonaro esteja na cadeia, reforça a ideia de que a esquerda brasileira tem perdido a hegemonia no eleitorado e reflete a situação política mundial, diante da aceleração das desigualdades sociais que a digitalização internacional evidenciou. O PT e as esquerdas não se adaptaram a este novo mundo, que, em termos nacionais, está controlado pelos influencers de direita ou conservadores.

Lula vive do passado, Flávio tenta refletir o futuro, mesmo que, na teoria, o progressista seja o primeiro, e conservador o Bolsonaro. Como o eleitorado brasileiro sempre foi majoritariamente conservador, esse nicho, hoje ocupado por Flávio, já foi de Lula quando ele se dispunha a fazer o papel de um político de centro-esquerda para enfrentar o PSDB, legítimo representante da social-democracia. Uma parte dos eleitores tucanos passou de armas e bagagens para a direita.

Nas eleições presidenciais que PT e PSDB disputaram, os tucanos tiveram a maioria no primeiro turno em duas e perderam as outras por média de 40% a 60% no segundo turno. Na disputa de 2018, com Lula fora do páreo, na prisão, a proporção de 60% a 40% praticamente inverteu-se a favor da direita. Na eleição seguinte, com a disputa entre os dois grandes líderes populares do país, a diferença a favor de Lula foi de pouco mais de 1,5%, menor que os menos de 3% na derrota de 2014 de Aécio para Dilma. Isso demonstra que sempre houve potencial forte de antipetismo, que cresceu nos últimos anos quando o eleitorado foi chamado a expor suas ideias conservadoras sem receio.

 

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