Correio Braziliense
Com mais de 75 milhões de processos em
tramitação, milhões de novas ações, especialmente nas execuções fiscais, o
Judiciário perde aderência à sociedade
No pequeno grande ensaio antropológico A Identidade Cultural na Pós-Modernidade (DPA&A Editora), o sociólogo anglo-jamaicano Stuart Hall descreve a evolução do conceito de identidade a partir de três conceitos: o ser iluminista, o ser sociológico e o ser pós-moderno. Hall argumenta que a identidade humana passa por um processo de descentramento e fragmentação. O ser iluminista é o indivíduo centrado, unificado, dotado de razão, consciência e ação; acredita que um núcleo interior nasce com o indivíduo, desenvolve-se e permanece o mesmo ao longo da vida. Trata-se de uma concepção individualista, na qual a pessoa é autônoma e sua identidade é fixa e constante: "Penso, logo existo" (Cogito, ergo sum) é a célebre frase do filósofo René Descartes, publicada em 1637. Ou seja, se basta.
O ser sociológico surge com a complexidade do
mundo moderno. Não é totalmente autônomo, mas formado na relação com o outro, a
partir da sociedade industrial. Já o ser pós-moderno é fragmentado, sem
identidade fixa, assumindo papéis distintos conforme o contexto — uma
verdadeira "celebração móvel". É até divertido analisar o
comportamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal, cujo protagonismo
político atingiu um nível inédito, a partir desses conceitos.
Embora o sistema de freios e contrapesos da
democracia brasileira tenha se mostrado resiliente, a forma como seus atores
vêm operando tem gerado crescente rejeição social. O Supremo deixou de ser
apenas árbitro para se tornar também protagonista do jogo político, justamente
quando o país entra em mais uma campanha presidencial polarizada e a Corte
acabou na berlinda do debate eleitoral.
É que decisões judiciais passaram a ter
efeitos diretos sobre a dinâmica eleitoral. O ministro Alexandre de Moraes, ao
conduzir investigações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu entorno,
tornou-se alvo preferencial da oposição e, paradoxalmente, contribuiu para
reforçar a narrativa política de seus adversários. Ao mesmo tempo, o ministro
Gilmar Mendes, ao propor contingenciar o debate político — como a discussão
sobre os limites do inquérito das fake news —, oferece munição a candidatos que
defendem a justa contenção do poder da Corte.
Ao contrário do que alguns imaginam, a
politização do Supremo não ocorre no espaço vazio. Foi alimentada pela própria
dinâmica do sistema político, que deixa de tomar decisões ou a contestam
judicializando decisões dos demais Poderes. Assim, ministros do Supremo estão
cada vez mais envolvidos com a disputa pelo poder. O ministro Flávio Dino, com
sua trajetória híbrida de magistrado e político, é a expressão mais acabada
dessa transição. Não à toa, ao propor uma reforma do Judiciário, com base em
dados concretos sobre a morosidade processual e o volume de ações, tenta
neutralizar os ataques ao Supremo e deslocar a discussão do terreno eleitoral
para o institucional.
Crise de identidade
Com mais de 75 milhões de processos em
tramitação, milhões de novas ações a cada ano e índices elevados de
congestionamento, especialmente nas execuções fiscais, o Judiciário perde
aderência em relação às demandas da sociedade. A chegada da inteligência artificial
tende a agravar esse quadro, ao ampliar a capacidade de litigância. Nesse
ambiente, o Supremo é pressionado a decidir cada vez mais, sobre temas cada vez
mais sensíveis, o que reforça seu protagonismo — e, com ele, sua exposição
política.
E o Stuart Hall? Os ministros do Supremo
podem ser compreendidos como portadores simultâneos dessas três identidades.
Há, de um lado, uma dimensão iluminista evidente em figuras como Alexandre de
Moraes, cuja atuação parte da convicção de que cabe à Corte impor racionalidade
e ordem ao sistema político. De outro, há ministros de perfil sociológico, como
Flávio Dino, que operam a partir da interação entre instituições e sociedade,
buscando mediações e soluções estruturais. Por fim, há os pós-modernos, como
Gilmar Mendes, cuja atuação flexível, adaptativa e ambígua reflete essa
fragmentação do Supremo e a deterioração do ambiente institucional.
Dá até para fazer uma enquete sobre o perfil
de cada ministro. O problema é que essa combinação de perfis, em vez de produzir
equilíbrio, tem contribuído para ampliar a percepção de instabilidade e
politização. Quando ministros agem como iluministas em um mundo que já não
comporta certezas, ou como pós-modernos em um ambiente que exige
previsibilidade institucional, o resultado é a perda da confiança. O Supremo,
que deveria ser o guardião da Constituição, passa a ser visto como ator
político, sujeito às mesmas críticas e disputas que marcam o Executivo e o
Legislativo, até porque nem sempre há coerência e previsibilidade legal nas
suas decisões.
A crise do Supremo não é apenas de imagem, jurídica e institucional, é também uma crise de identidade, agravada pelo envolvimento de alguns ministros no caso Master e no debate eleitoral. Como ensina Stuart Hall, identidades em crise tendem a se fragmentar sob pressão. O desafio do Supremo é reencontrar o ponto de equilíbrio de sua autoridade, sem ceder ao protagonismo excessivo nem ser capturado pela lógica da disputa pelo Poder, que, aliás, já tem de sobra. Caso contrário, sua credibilidade permanecerá em xeque.

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