terça-feira, 21 de abril de 2026

Delação sem caô, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo 

Fundos de investimentos criavam empresas de fachada, dirigidas por laranjas

O modo como Daniel Vorcaro operava – o sistema por meio do qual comprava burocratas, políticos e autoridades públicas – já é conhecido, desconhecida não raro a origem da grana empregada para as aquisições; a impossibilidade de explicar de onde viera a bufunfa sendo a razão por que a teia se ramificava até perder de vista. (Ramalhar cuja informalidade talvez lhe tire o sono agora: será quase impossível – o outro lado da moeda – que recupere os bilhões todos que espalhou paraísos afora, sob confiança em inconfiáveis.)

A rede vorcárica – uma ciranda financeira – serviu para as tentativas tanto de lastrear a expansão-consolidação do Master quanto de dissimular o pagamento de propina. A trama, que os especialistas chamam de “circularização”, consistia na supervalorização de ativos e na circulação de dinheiros entre empresas do próprio controlador – sem a entrada real de recursos novos. Assim o banqueiro se inflava- esquentava para tentar adquirir o Máxima, origem do Master, ou, adiante, para vender créditos a bancos “compliance zero” como o BRB.

A teia vorcárica, tramando fundos e se desdobrando em empresas justificadoras de pagamentos (a consultorias e outros prestadores de serviços) ou ocultadoras do movimento mais direto da propina, serviu para que Vorcaro fosse ao mesmo tempo onipresente e invisível. Serviu para que o Master, mesmo com o esquema de sua pirâmide exposto, tivesse armado alguns bloqueios (não seja maldoso) para si, muitos e multiplicados os pontos cegos sobre suas atividades, ganhasse tempo e cultivasse as relações compadres para que fundos estatais acorressem a lhe forjar sustentar a liquidez artificial.

Fundos de investimentos – um dos quais, nalguma ponta, associado a empreendimentos hoteleiros – criavam empresas de fachada, empresas dirigidas por laranjas selecionados, empresas que recebiam os dinheiros e compravam os imóveis-subornos, como no caso do ex-dirigente do BRB. Há outras modalidades, mais sofisticadas, de se comprar as gentes. Fundos sobrepostos e empresas de fachada não terão sido concebidos-mobilizados apenas para encobrir acertos com bagrinhos. Haverá os graúdos, cujo trato exigiria mais camadas de fachadas. O sistema por meio do qual Daniel Vorcaro se expandia e amarrava já está dado – a teia vorcárica em que enredou burocratas, políticos e autoridades públicas. O BRB pode ser considerado exemplo para estudo de caso; para que se ilustre e compreenda a aplicação da rede vorcárica num universo restrito. Ok. Ponto de partida. Nunca fim. Sem caô, a delação do corruptor precisa revelar os peixões que pescou.

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