Folha de S. Paulo
Presidente americano é tão hiperbólico que o
que ele diz não significa nada
Eleição de líderes carismáticos mas
destrutivos é ponto fraco da democracia
Donald Trump já proferiu tantas barbaridades que fica difícil eleger a frase mais escabrosa. Uma séria candidata é a declaração de que destruiria em uma noite a civilização persa, "para nunca mais ressuscitar". Se qualquer outro presidente americano tivesse dito algo parecido, teria sua sanidade seriamente questionada e teria deflagrado uma crise política potencialmente fatal. Sendo Trump o autor da máxima, até encontramos comentários indignados, mas parece pouco provável que a ameaça de genocídio ao vivo lhe encurte o mandato.
O problema do estilo Trump de presidir é que
ele precisa chocar os adversários e mobilizar os correligionários o tempo todo.
E essa é uma estratégia autolimitada pela chamada realidade. Para manter o
efeito pretendido, cada nova declaração tem de ser mais ultrajante do que a
anterior, de modo que logo entramos no terreno das impossibilidades. Depois da
civilização persa, o que ele pode prometer? Acabar com o planeta,
incluindo Mar-a-Lago? O resultado prático é que ninguém mais leva muito
a sério a palavra do presidente.
Se isso pode ser interpretado como um
superpoder na hora de evadir-se de responsabilização política, também pode ser
visto como um ônus, já que nem aliados dos EUA podem mais confiar em promessas
da liderança do país. A linguagem só se fixou nas sociedades humanas porque ela
comunica mais verdades do que embustes. Se mudarmos esses parâmetros, é questão
de tempo até que ela deixe de ser útil.
É verdade que Trump, quase octogenário e
constitucionalmente impedido de exercer um terceiro mandato, tem seu horizonte
político em tese limitado a pouco menos de três anos. Não experimentará ele
próprio os piores efeitos de seu estilo tóxico de comandar. Esse é um legado
que ele deixará para o país.
Trump materializa um dos pontos fracos da
democracia. Especialmente quando o eleitor está mais interessado no espetáculo
do que na responsabilidade, líderes perigosamente destrutivos chegam ao poder.
Acabam saindo, mas o estrago pode ser grande.
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