O Estado de S. Paulo
Reforma do Judiciário, antes tarde do que nunca, mas o corporativismo e as eleições deixarão?
Se um código de ética para o Supremo não foi
longe, o debate sobre uma reforma do Judiciário caminha a passos largos, agora
sob a liderança do ministro do STF e ex-ministro da Justiça do atual governo
Flávio Dino. A proposta é mais do que necessária, seu risco é ser engolida pela
suspeita de interesse eleitoral, já que é encampada pelo PT e por Lula, para se
descolarem da crise do STF.
Passa década, entra década, uma reforma do Judiciário continua em pauta, sob a resistência interna, dos demais poderes e de uma mídia cheia de dedos. Isso vem mudando a partir das notícias sobre o submundo do Judiciário e do desgaste do Supremo com o envolvimento de ministros com o Banco Master. A hora é agora.
Apesar de Dino ser de esquerda e aliado de Lula,
ele saiu do governo às turras com o PT e tem sido o ministro mais efetivo no
combate a emendas parlamentares, penduricalhos dos três poderes e excessos
dentro do próprio Judiciário. Logo, tem legitimidade para assumir a linha de
frente na, ou numa, reforma do Judiciário.
Num texto publicado no site ICL Notícias e recheado de críticas mal disfarçadas a um código de ética e ao ministro Edson Fachin, Dino listou 15 mudanças para o Judiciário, como penas mais duras a juízes corruptos, fim da aposentadoria compulsória (e bem remunerada) como prêmio a juízes indignos e limites reais a “penduricalhos”.
Dessas, a mais aguardada, e polêmica, altera
o Código Penal para criar punições mais rigorosas para magistrados,
procuradores e membros do Judiciário envolvidos em corrupção, peculato e
prevaricação – uma aberração nada incomum.
Fachin deixou as divergências de lado, fingiu
que não entendeu as cutucadas de Dino e recebeu a proposta com “aplausos e
apoio”. Apesar das críticas ao presidente do STF, aliás, Dino está na verdade
acatando um alerta feito por ele, no Estadão, em janeiro: “Ou nos
autolimitamos, ou poderá haver limitação de um ‘poder externo’”.
A última “reforma externa” do Judiciário foi
na ditadura militar e, depois, em 1999, em plena democracia, a CPI do
Judiciário no Senado mirou no que viu e acertou no que não viu: o então senador
Luiz Estevão, que foi cassado por corrupção por conluio com o juiz Nicolau dos
Santos Neto, “o juiz Lalau”.
O que merece o nome de “reforma” foi em 2005, com a instalação oficial do Conselho Nacional de Justiça. Depois de 21 anos, porém, até o próprio CNJ precisa de ajustes “técnicos” e “inspirados no interesse público”, como defende Dino. O problema é saber o que vem primeiro, especialmente em ano eleitoral: o interesse público ou a polarização política?

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