O Globo
Se, como se teme, a segunda delação for tão
vazia quanto a primeira, é sinal de que quer ganhar tempo à espera de uma
decisão que o beneficie.
O comportamento de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro em atividade, na feliz definição de Arthur Dapieve, deixa clara sua esperança de que alguma coisa, ou alguém, virá em seu socorro a qualquer momento. Foi por isso, afinal, que ele investiu tanto tempo e dinheiro com autoridades de todos os quilates. E ainda há, em postos-chave da estrutura estatal, quem não quer que sua delação se concretize. Enquanto isso, vai enrolando as delações premiadas que negocia com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. Vorcaro tem razão em esperar uma solução para seu caso, pois historicamente isso sempre aconteceu nos processos criminais brasileiros envolvendo empresários importantes, líderes políticos, autoridades do alto escalão dos Poderes da República.
Como num passe de mágica, todos os processos
acabam desaparecendo, mesmo com toda a plateia alerta. Nada nesta mão, nada na
outra, e, de repente, uma solução heterodoxa transforma o que era crime em
absolvição, mesmo que o mérito não tenha sido julgado. A cavalaria sempre
aparece para salvar os amigos cercados. Não são mocinhos, como no cinema. No
momento, o caso Master está paralisado no Supremo porque o ministro Gilmar
Mendes pediu vista, desconfiado de que Henrique, o pai de Vorcaro, está preso
como maneira de coagir o filho a delatar seus cúmplices. Mas o próprio Henrique
tem o que delatar, pois ele foi preso acusado de ser o chefe da quadrilha que
coagia e ameaçava os adversários do filho.
Vorcaro, enquanto isso, vai prometendo o que
não pode cumprir. Quando aceitou elevar a devolução do dinheiro que roubou para
R$ 60 bilhões, parecia ter chegado a um ponto de não retorno. Mas propôs uma
barganha à Justiça: disse que só poderia devolver esse dinheiro se seu Banco
Master voltasse a atuar no mercado. Quer dizer, ele queria voltar a fazer a
mesma coisa, por interposta pessoa, que o levou para a cadeia para poder
devolver o dinheiro. Ou não entendeu nada, ou é mesmo um cara de pau. Se, como
se teme, a segunda delação for tão vazia quanto a primeira, é sinal de que quer
ganhar tempo à espera de uma decisão que o beneficie.
Como não há clima para que isso aconteça
agora, Vorcaro terá de abrir mais a boca para tentar se livrar da pena que
certamente receberá depois do julgamento. Talvez conheça mais as entranhas do
nosso sistema do que nós, ainda crédulos em que justiça será feita, e ele nunca
mais poderá trabalhar no sistema financeiro. Se demorar muito a falar, no
entanto, há sempre a possibilidade de que outro envolvido no esquema seja mais
inteligente e se adiante na delação premiada. Já não é preciso delação para
esclarecer o esquema criminoso que montou, nem para identificar os políticos,
juízes e empresários envolvidos.
Se os celulares apreendidos já revelaram toda
a trama, não sobrou nada para Vorcaro revelar por conta própria, e sua
enrolação serve mais para ganhar tempo que para resguardar os amigos. Se ainda
há fatos não desvendados pelas investigações, Vorcaro tem um bom motivo para
negociar benefícios, mas precisa se convencer de que não há chances de ser socorrido
no momento, embora possa continuar alimentando a esperança de que, um dia, tudo
virará pó, como é comum entre nós.
Não fará muita diferença ter delatado, pois
todos os que assim fizeram na Operação Lava-Jato foram liberados pela Justiça,
mesmo os que devolveram dinheiro e entregaram nomes, endereços, apelidos. Tudo
como se nada tivesse existido.

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