segunda-feira, 17 de setembro de 2012

'Lula nunca esteve com Valério', diz Wagner

Oposição se reúne amanhã e diz que vai pedir que atuação de Lula no mensalão seja investigada

SÃO PAULO - O governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), afirmou ontem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca esteve com Marcos Valério de Souza, apontado como o operador do mensalão.

Segundo reportagem da revista "Veja" deste final de semana, Valério "não esconde que se encontrou com Lula diversas vezes" e acusou o ex-presidente de ser o chefe do mensalão.

Wagner, que diz não ter lido a reportagem, afirma que conversou ontem sobre esse tema com o ex-presidente.

"O que eu posso garantir é que ele nunca esteve com Lula. Pelo que sei, ele nunca foi à Granja do Torto ou ao Planalto", disse Wagner, que foi ministro das Relações Institucionais em 2005 e 2006, logo após a eclosão do escândalo do mensalão.

Wagner participou ontem de um almoço em São Paulo com Lula e governadores do Nordeste para apoiar a candidatura de Fernando Haddad (PT) -o petista está tecnicamente empatado em segundo lugar na disputa pela prefeitura da cidade.

Na saída do encontro, Lula se recusou a responder a perguntas sobre o mensalão. Limitou-se a dizer que o almoço "estava ótimo". Haddad disse que o caso não tem impacto na sua campanha.

Investigação

A oposição fará uma reunião amanhã para decidir se ingressa em conjunto ou separadamente com pedido de investigação contra Lula.

Como o ex-presidente Lula não tem mais foro privilegiado, se aberta a investigação deve ocorrer na primeira instância do Ministério Público Federal. A iniciativa também pode partir dos próprios procuradores.

"Essa investigação chega com sete anos de atraso", disse Álvaro Dias (PSDB-PR), líder de seu partido no Senado.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A quarta cópia - Ricardo Noblat

"O PT me fez de escudo, me usou como um boy de luxo. Mas agora vai todo mundo para o ralo" - Marcos Valério

Dá-se a prudência como característica marcante dos mineiros. Teria a ver, segundo os estudiosos, com a paisagem das cidadezinhas de horizonte limitado, os depósitos de ouro e de pedras preciosas explorados no passado até se esgotarem, e a cultura do segredo e da desconfiança daí decorrente. Não foi a imprudência que afundou a vida de Marcos Valério. Foi Roberto Jefferson mesmo ao detonar o mensalão.

Uma vez convencido de que o futuro escapara definitivamente ao seu controle, Valério cuidou de evitar que ele se tornasse trágico. Pensou no risco de ser morto. Não foi morto outro arrecadador de recursos para o PT, o ex-prefeito Celso Daniel, de Santo André? Pensou na situação de desamparo em que ficariam a mulher e dois filhos caso fosse obrigado a passar uma larga temporada na cadeia. E teve uma ideia.

Ainda no segundo semestre de 2005, quando Lula ainda insistia com a lorota de que mensalão era Caixa 2, Valério contratou um experiente profissional de televisão para gravar um vídeo. Poderia, ele mesmo, ter produzido um vídeo caseiro. De princípio, o que importava era o conteúdo. Mas não quis nada amador. Os publicitários de primeira linha detestam improvisar. Valério pagou caro pelo vídeo do qual fez quatro cópias, e apenas quatro.

Guardou três em cofres de bancos. A quarta mandou para uma das estrelas do esquema do mensalão, réu do processo agora julgado pelo Supremo Tribunal Federal. Renilda, a mulher dele, sabe o que fazer com as três cópias. Se Valério for encontrado morto em circunstâncias suspeitas ou se ele desaparecer sem dar notícias durante 24 horas, Renilda sacará dos bancos as três cópias do vídeo e as remeterá aos jornais "O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo" e "O Globo" (Sorry, "Veja"!)

O que Valério conta no vídeo seria capaz de derrubar o governo Lula se ele ainda existisse, atesta uma pessoa íntima da estrela do mensalão dona da quarta cópia. Na ausência de governo a ser deposto, o vídeo destruiria reputações aclamadas e jogaria uma tonelada de lama na imagem da Era Lula. Lama que petrifica rapidinho.

A fina astúcia de Valério está no fato de ele ter encaminhado uma cópia do vídeo para quem mais se interessaria por seu conteúdo. Assim ficou provado que não blefava. Daí para frente, sempre que precisou de ajuda ou consolo, foi socorrido por um emissário do PT. Na edição mais recente da "Veja" Valério identifica o emissário: Paulo Okamotto.

Uma espécie de tesoureiro informal da família Lula da Silva, Okamotto é ligado ao ex-presidente há mais de 30 anos. No fim de 2005, um senador do PT foi recebido por Lula em seu gabinete no Palácio do Planalto. Estivera com Valério antes. E Valério, endividado, queria dinheiro. Ameaçava espalhar o que sabia.

Lula observou em silêncio a paisagem recortada por uma das paredes envidraçadas do seu gabinete. Depois perguntou: "Você falou sobre isso com Okamoto?" O senador respondeu que não. E Lula mais não disse e nem lhe foi perguntado. Acionado, Okamotto cumpriu com o seu dever. Pulou-se outra fogueira. Foram muitas.

Valério acreditou que o prestígio de Lula seria suficiente para postergar ao máximo o julgamento do processo do mensalão, garantindo com isso a prescrição de alguns crimes denunciados pela Procuradoria Geral da República. Uma eventual condenação dele seria mais do que plausível. Mas cadeia? Por muito tempo? Impensável! O impensável está se materializando. Valério começa a espernear.

FONTE: O GLOBO

O ônus da prova - Melchiades Filho

Pela primeira vez, o Judiciário brasileiro condena um político por corrupção. Pela primeira vez, também, condena em uma ação penal dirigentes de banco pelo crime de gestão fraudulenta.

Fracassou a aposta na lerdeza e/ou na complacência do tribunal, nas chicanas protelatórias e nas filigranas atenuantes. O exame fatiado da denúncia contra os mensaleiros tornou compreensível toda a rede criminosa, os votos do STF têm sido didáticos, as sentenças se sucedem e um destino sombrio parece selado para a maioria dos réus.

É natural que um julgamento que significa um marco contra a impunidade provoque repercussões inéditas. Assim como não havia precedente para vereditos tão cristalinos, não há no país "jurisprudência" para a reação de condenados.

O noticiário das sessões do mensalão no STF já vinha registrando o espanto dos advogados. Cedo ou tarde, chegaria a hora dos clientes, afinal os mais surpreendidos.

É por esse prisma que deve ser analisado o inconformismo de Marcos Valério com os rumos do processo, reportado pela revista "Veja". O publicitário, já condenado por peculato, corrupção e lavagem de dinheiro, reclama que está pagando além da conta. Diz agora ter sido mera engrenagem do esquema de desvio de dinheiro público para comprar apoio político ao governo Lula. Implica o próprio ex-presidente.

Seus recados, muito bem definidos pelo líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto, como um "ato de desespero de quem sabe que vai ser preso", provam que ainda restam muitos fios desencapados nessa história.

Quem zelará pelo silêncio do ex-diretor do Banco do Brasil, dos deputados, dos sócios do "valerioduto"? Réus que reclamaram do julgamento em baciada haverão de exigir cala-bocas "individualizados" quando estiverem atrás das grades.

É um erro achar que as sentenças encerram a novela do mensalão.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Estarei a sonhar? - Paulo Brossard

Em duas ocasiões recentes externei uma cogitação que tanto me impacientava que a ela retorno. Relembrando que com a paz seguida aos seis anos de guerra, iniciada em 1939 e finda em 1945, era corrente a ideia, esperança ou convicção de que a humanidade não resistiria a novo conflito das proporções do recém-encerrado; depois de tantos horrores e perdas irreparáveis, como pelos formidáveis avanços na arte de matar e destruir; outro não fora o propósito dos que travejavam o edifício da ONU; no entanto, embora não houvesse irrompido nova conflagração universal, seguiram-se sucessivos surtos belicosos, mais ou menos extensos e duradouros que, somados, corresponderiam a um conflito terrível. Exemplo dessa diátese sinistra é a que vem ocorrendo na Síria. 

De feroz guerra civil converteu-se em caso internacional que levou a ONU a enviar comissão investigatória dos fatos, e que voltou como saíra, sem acesso a coisa alguma, a despeito de presidida por individualidade de alto conceito internacional. Desse modo, a impotência da ONU ficou selada, uma vez que dois países, Rússia e China, desaprovaram outras medidas que levassem à cessação da guerra exasperada. E a carnificina prossegue em violência crescente.

O fato me fez lembrar outro, quando Mussolini invadiu a Abissínia e a incorporou ao domínio fascista, a despeito de inócuos protestos da Sociedade das Nações, esta começou a morrer, para desaparecer sem se saber quando; ficou insepulta. Temo que coisa semelhante possa ocorrer com a ONU, embora criada sob as mais auspiciosas intenções.
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Mudando de assunto, tiro da sombra um fato já antigo e em tudo e por tudo diferente do atual, menos em algum traço; ocorreu depois da eleição do presidente Jânio Quadros e antes de sua posse. A confiança na mudança era tanta e tamanha, que se formara a certeza de que se processaria real mudança na vida do país, antes da posse já se notavam espontâneas mudanças; agora, na minha percepção, antes do termo do processo mensalão, está se operando fenômeno semelhante ao dos dias de dezembro de 1960 e janeiro de 61; a impressão que se tem é de uma rajada de ar fresco a varrer insuportável ambiente mefítico.

Não faltava quem proclamasse que o mensalão nunca existira, assertiva repetida ao universo até pelas colunas do New York Times, mesmo depois de iniciado o julgamento de dezenas de denunciados pelo procurador-geral da República; agora, porém, poucos se mantêm nessa posição.

Já se disse que, do fundo das maiores aberrações, pode emergir a chama capaz de expurgar o pústula. Até onde sei, o mensalão foi a mais elaborada conjura destinada ao domínio do aparelho governamental a partir do Congresso, não faltando nem o braço bancário e nem foi gratuita a condenação de diretor do Banco do Brasil; o mesmo ocorreu com a lavagem de dinheiro, em fartas quantias, que não dão em árvore.

Mercê desses ingredientes espantosos se vão juntando dados propícios à reações saneadoras. Ou estarei a sonhar?

*Jurista, ministro aposentado do STF

FONTE: ZERO HORA (RS)

Encontro expõe fragilidade da aliança de PT e PSB

Petistas montam estratégia para evitar fotos do governador Eduardo Campos ao lado do ex-presidente Lula

Tatiana Farah

SÃO PAULO - Paz, pero no mucho . O almoço em clima nordestino realizado ontem, em São Paulo, para apoiar o petista Fernando Haddad e selar a paz entre o PT e o PSB, do governador Eduardo Campos (PE), foi cercado de cuidados que mostram que a crise entre os dois partidos ainda vai longe. Os petistas montaram uma estratégia para evitar que Campos produzisse imagens com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que pudessem ser usadas em Recife, em apoio ao candidato do PSB, Geraldo Júlio. O candidato do PT à prefeitura recifense, Humberto Costa, saiu satisfeito do encontro:

- Foi tudo tranquilo - disse Costa, que deixou o Centro de Tradições Nordestinas (CTN) com a promessa de que Lula irá a Recife no fim do mês.

A crise entre o PSB e o PT tem se agravado no Nordeste e em Belo Horizonte, onde Patrus Ananias (PT) disputa com o prefeito Márcio Lacerda (PSB). A prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, também se ressente. À entrada do almoço, ela disse que o PSB deveria ter considerado onde o PT está no comando, como Fortaleza e Recife, e evitado a disputa.

Já o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), pregou paz entre as duas legendas, assim como o presidente do partido, deputado Rui Falcão.

- Temos aliados, não eunucos - disse Wagner, defendendo o direito de Campos de tentar uma candidatura em 2014.

O governador de Pernambuco afirmou que as alianças nacionais prosseguem, apesar das divergências municipais. E negou desejar se candidatar a presidente em 2014.

Os ministros Marta Suplicy (Cultura), Alexandre Padilha (Saúde) e Aloizio Mercadante (Educação) também participaram do almoço.

FONTE: O GLOBO

Gasto federal com anúncios dispara perto das eleições

Governo pagou mais publicidade em julho do que na soma de abril a junho

Verba para propaganda no meio deste ano é o dobro do mesmo período de 2011; Secom nega fim eleitoral

Breno Costa, Leandro Colon

BRASÍLIA - O início do período eleitoral marcou um aumento no volume de pagamentos de verbas de propaganda para veículos de comunicação pela Presidência da República.

Em julho, R$ 16,2 milhões foram pagos a jornais, rádios, TVs e sites pela Secom (Secretaria de Comunicação Social), órgão vinculado à Presidência e responsável pela maior fatia da publicidade da administração direta -estatais não entram nessa conta.

De abril a junho, foram repassados, ao todo, R$ 13,4 milhões para veículos de comunicação -em três meses somados, portanto, os gastos foram menores do que os registrados apenas em julho.

O valor é ainda o dobro do verificado em julho de 2011: R$ 8,1 milhões. Esse montante representa a média dos desembolsos mensais da Secom ao longo dos 19 meses do governo Dilma Rousseff.

O levantamento foi feito pela Folha com dados da Secom. Como o governo se recusa a fornecer a série histórica, não foi possível comparar com gestões anteriores.

O governo nega fins eleitorais e diz que o aumento ocorreu devido à necessidade de publicidade de programas federais, como o Brasil Carinhoso -projeto para famílias carentes lançado em maio.

Candidatos alinhados ao Planalto e mensagens gravadas pela presidente Dilma para apoiá-los têm enfatizado que a aliança favorecerá a implementação de programas federais nas cidades.

Maior alcance

Neste ano, também aumentou a pulverização das verbas publicitárias. A propaganda oficial alcança número maior de municípios e veículos de comunicação.

Entre janeiro e julho de 2011, ano não eleitoral, o dinheiro da Secom chegou a 1.285 veículos. No mesmo período deste ano, chegou a 2.391 -crescimento de 86%.

A legislação não impede a propaganda de programas do governo nos meses eleitorais.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Fim de semana de traições partidárias

Políticos ignoram alianças e vão às ruas por seus candidatos

Marcelo Remígio

O fim de semana foi de traições explícitas a alianças políticas firmadas na Região Metropolitana do Rio. Em Niterói, o candidato do PSD a prefeito, Sergio Zveiter, promoveu uma carreata com a participação do presidente do PMDB, Jorge Picciani. Os peemedebistas estão na coligação do candidato do PT e adversário político de Zveiter, Rodrigo Neves. Já em Duque de Caxias, as traições partem dos petistas, que foram às ruas fazer campanha para o candidato Washington Reis (PMDB). O racha tem inviabilizado no município o acordo nacional firmado com o PSB do candidato Alexandre Cardoso.

A carreata de Zveiter percorreu ruas dos bairros Fonseca, Barreto, Caramujo e Ititioca, na Zona Norte de Niterói. Sem constrangimento pela quebra da aliança, Picciani pediu votos para Zveiter, ao lado do deputado estadual Wagner Montes (PSD) e do líder do governo na Alerj, André Corrêa.

- Eu acredito e confio no Sergio Zveiter. Niterói será referência de coisas boas, não de manchetes negativas, como temos visto nos últimos anos - disse Picciani.

Antes do fechamento das alianças, Picciani defendeu a coligação com o PDT e, mesmo sendo voto vencido, manteve sua posição de resistência a Rodrigo. O petista não comentou o caso. Para amenizar a crise, o governador Sérgio Cabral (PMDB) e outros caciques do PMDB têm acompanhado Rodrigo nas ruas. Cabral deverá participar, esta semana, de um corpo a corpo com o candidato petista.

Apoio vinculado a São Paulo

Na manhã de ontem, petistas de Duque de Caxias participaram de corpo a corpo com Washington Reis em feiras livres dos bairros Imbariê, Parada Angélica, Santa Cruz da Serra e Nova Campina. O racha no acordo nacional entre PT-PSB veio após a candidatura de Dalva Lazaroni (PT) à prefeitura ser sacrificada em favor da disputa paulistana. Para que o PSB apoiasse Fernando Haddad, foi exigida a coligação com o PT, tendo Alexandre Cardoso como cabeça de chapa.

Dalva foi escolhida após cumprir todas as convenções exigidas pelo partido. No entanto, acabou sem a legenda para a disputa. Parte da militância e do diretório local foi contra a decisão regional e fechou o apoio a Washington Reis.

- O PT de Duque de Caxias não pode continuar a ser moeda de troca. Cumprimos todas as etapas para o lançamento de candidatura própria. O município é o segundo em orçamento e estratégico no estado. Não há motivo para andarmos à sombra do PSB - criticou Dalva.

Presidente regional do PT, Jorge Florêncio acompanha o racha em Duque de Caxias. Segundo ele, após as eleições, encaminhará os casos de traição à comissão de ética.

FONTE: O GLOBO

Em BH, propostas para a periferia

Buscando a reeleição, Lacerda promete qualidade de vida aos mais pobres e seu adversário Patrus reclama de enfrentar uma máquina pesada

Marcelo da Fonseca

Lacerda fez campanha no fim de semana na Vila Ventosa, Oeste, e Alto Vera Cruz, Leste

O compromisso de integrar regiões periféricas à vida urbana de Belo Horizonte, melhorando o acesso de moradores aos serviços públicos e ouvindo demandas específicas de cada bairro, foi a principal bandeira do prefeito e candidato à reeleição Marcio Lacerda (PSB) nos compromissos de campanha desse fim de semana. Depois de pedir votos em caminhada na Vila Ventosa, Região Oeste, no sábado, ontem pela manhã o socialista esteve no outro extremo da capital, no Alto Vera Cruz, Leste da cidade, cumprimentando moradores e comerciantes do bairro e apresentou suas propostas para a região.

A estratégia de ressaltar ações que já estão em andamento pela prefeitura foi seguida à risca por Lacerda, que destacou os projetos de infraestrutura como forma de garantir melhorias na vida dos moradores das regiões mais pobres de BH. "Bem perto daqui, temos um grande processo de urbanização, no Taquaril, que continua em andamento e vai beneficiar muita gente. Também temos ações para resolver os problemas com enchentes que ocorreram nas últimas chuvas e o trabalho com a ampliação do BH Cidadania, que passou de 16 para 33 nos últimos anos", disse o prefeito.

Sobre os projetos de revitalização para vilas e aglomerados, Lacerda afirmou que são ações que exigem estudos detalhados e muito diálogo com os moradores de cada bairro, uma vez que as demandas são diferentes. "É sempre necessário tomar decisões em conjunto com as comunidades. Quando se faz uma intervenção em um aglomerado e acabamos tendo que mudar moradores de lugar para abrir novas vias, becos ou construir escolas e as pessoas não querem se alojar nos apartamentos que recebem de graça, elas têm acesso a uma indenização calculada de acordo com a lei. As pessoas não são abandonadas, mas mudam com o apoio da prefeitura", explicou.

Segurança Pública - Ele reforçou que, apesar de ainda existirem várias demandas, a região passou por avanços significativos nos últimos anos em relação à segurança pública e vem se mostrando um importante espaço econômico para a cidade. Um dos moradores aproveitou a visita do prefeito para perguntar sobre a dificuldade enfrentada no bairro por causa de ruas estreitas que causam engarrafamentos constantes próximo às lojas. "Os aglomerados têm centros comerciais pujantes, principalmente aos sábados. O que precisamos avaliar é a possibilidade de estender esses espaços econômicos a outras áreas do próprio aglomerado, para que não fique tão centralizado. Expandir ruas exige grandes intervenções e podemos buscar soluções mais viáveis", respondeu o socialista.

Ao comparar sua gestão na área social com administrações anteriores na capital, o prefeito aproveitou para cutucar o adversário Patrus Ananias (PT) apresentando números sobre investimentos no setor. "O trabalho no social é permanente, com um aumento de 73% dos gastos desde 2008 até este ano. É uma área da qual não estamos recebendo críticas do adversário, porque sabem que investimos mais do que eles. A confiança que adquirimos com essas comunidades vem com muito trabalho", disse Lacerda.

FONTE: ESTADO DE MINAS

Baía de todos os sonhos – Fernando Gabeira

A Baía de Guanabara não é um caso perdido. Depois do relativo fracasso daquele financiamento do Banco Mundial, na década de 90, a proximidade dos eventos importantes pode despertar o desejo de salvá-la.

Para que a recuperação da área portuária atinja sua plenitude, é preciso uma baía renovada. Na verdade, a própria recuperação do Rio de Janeiro comporta um símbolo menos controvertido do que apenas as UPPs nos morros da cidade.

A Baía de Guanabara poderia desempenhar para o Rio o papel que a Potsdamer Platz representou para Berlim. Havia visitas ao centro de obras, animações mostrando como ficaria depois de pronta e até venda de souvenir. A baía não é um canteiro de obras, mas um espaço de vida. Ela poderia ser mostrada através de imenso aquário que seria uma atração turística e daria, a cada dia, uma ideia do avanço do trabalho.

Na semana passada, estive em Paquetá e mostrei em vídeo as belezas e também o relativo abandono da ilha. Paquetá já tem até favela, mas pode ser de novo um centro de turismo popular. Hoje, já recebe cerca de 10 mil pessoas por fim de semana.

Cientistas que trabalham na baía constataram que as Ilhas Cagarras, hoje transformadas em Monumento Natural, têm plantas e espécies animais consideradas extintas no Rio. Não existe um roteiro turístico potencialmente mais rico do que a Baía de Guanabara para a cidade da Olimpíada. Nas Cagarras é possível mergulhar e até mesmo afundar um navio para que se transforme numa atração para os peixes. O mergulho, como se vê em Fernando de Noronha, abre empregos para empresas especializadas e instrutores, assim como para cinegrafistas que filmam e vendem o CD para o turista.

Eike Batista chegou a comprar um navio para navegar na baía. No entanto, embora a compra seja útil, o ideal seria usar navios tocados a energia solar. Não são apenas turistas que ganhariam com uma Baía de Guanabara renovada. Estudantes, com seus professores, poderiam realizar um passeio, aprendendo sobre o mar, sobre as ilhas e a história, do ‘Baile da Ilha Fiscal’ à presença dos franceses no Rio.

Os empresários e as forças políticas que se uniram para realizar o esforço das UPPs poderiam pensar nesse passo indispensável. Sem a baía renovada, o futuro do turismo no Rio é mais incerto, assim como será mais incerto o retorno da fortuna que vamos investir para realizar Copa do Mundo e Olimpíada. Os candidatos a prefeito, às vezes, se comportam como se a Baía de Guanabara não estivesse nos limites do Rio. Valia a pena introduzir o tema em suas discussões. A Baía não é um caso perdido.

Será que nós somos, como cidade em busca de sua reinvenção?

FONTE: JORNAL METRO-RIO

Vereador: você pode ter o seu - Eduardo Graeff

Ele pode ser menos importante para você, mas a recíproca não é verdadeira

Já me aconteceu de ligar para amigos na véspera da eleição pedindo indicação de um candidato a vereador. Minha negligência não se justifica, mas se explica. Acho o cargo de vereador menos importante que o de prefeito. E me cansa aquele desfile de candidatos a vereador no horário eleitoral.

Se você também se importa menos com seu voto para vereador, aqui vão uma razão e uma sugestão para não fazer o que eu fiz.

O vereador pode ser menos importante para você, mas você tende a ser mais importante para o vereador. Como o prefeito é um e os vereadores são muitos, há menos eleitores por vereador do que por prefeito. O prefeito é da cidade inteira; o vereador, de uma parcela da cidade. Por isso tende a ser mais fácil falar com um vereador para fazer reclamações e sugestões. Razão para escolhê-lo bem.

E como escolher? Minha sugestão é: distritalizando seu voto. Melhor seria adotar por lei o voto distrital. 

Na falta disso, muitos eleitores o adotam na prática: concentram sua votação num candidato do distrito ou bairro. Sabem que é melhor ter do que não ter um representante do bairro na Câmara Municipal. Se o seu bairro tem um representante, e você não tem objeções éticas ou políticas à sua atuação, pode ser uma boa ideia reelegê-lo. Se não, busque alguém que mereça sua confiança entre os candidatos com presença no bairro.

Se o candidato em quem você votou não se eleger, você ainda pode ter um vereador. Adote um que tenha afinidade com seu bairro e com temas importantes para você.

Os eleitores se queixam que os políticos esquecem deles depois da eleição. A recíproca é verdadeira: muitas vezes, o eleitor esquece em quem votou. Invista na escolha do seu vereador. Acompanhe sua atuação. Acione-o quando necessário. Assim você evita o esquecimento recíproco e faz a democracia a funcionar melhor.

Eduardo Graeff é cientista político e foi secretário-geral da Presidência na gestão FHC

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Os principais cargos da República - Renato Janine Ribeiro

Os dois principais cargos eletivos da República são os de presidente e prefeito. Esta afirmação pode chocar, porque reduz o papel dos governadores. É verdade que os governadores aparecem mais. Prefeitos não são candidatos natos à presidência da República, nem mesmo os de São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto os principais governadores o são. Os jornais cobrem mais a opinião dos governadores que a dos prefeitos, salvo rara exceção - César Maia, Gilberto Kassab. Mas lembremos que o cidadão é antes de mais nada quem mora na cidade. O cidadão reside. Por isso mesmo, quem define a qualidade de nossa vida, depois do presidente da República, é quem lida com o morar: o prefeito. O poder dos governadores está mais longe de nós.

O poder Executivo federal define a política econômica e social do País. Os resultados disso são importantes. Hoje, se perto de minha casa vejo inúmeras caçambas, sinal de que a classe média está reformando as residências, é porque vivemos uma política econômica mais próspera do que dez anos atrás. Se o Brasil firmou a prioridade de políticas de distribuição de renda e de combate à miséria, isso se deve à política conduzida no Planalto. Na política econômica e social, a Presidência da República tem papel decisivo. Mas a vida cotidiana, que está mais perto de nós, depende essencialmente das prefeituras. Por isso as eleições deste ano são significativas. Por isso é pena quando o eleitor amesquinha seu voto, ou o candidato não expõe suas ideias, ou a imprensa não as cobra.

Cada município tem suas leis de ocupação do solo, suas regras de expansão, a definição de onde pode haver fábricas, comércios, lixões. A prefeitura determina a qualidade do transporte coletivo, o papel do carro individual, o nível do ensino básico e da saúde. Em vários casos, ela não age sozinha - na saúde, por exemplo. Na educação, ela atua junto com o Estado para a formação das crianças e adolescentes, a missão mais nobre que existe. Mas o principal, que é quase só da prefeitura, é a competência para desenhar a cidade e o convívio com os outros.

Eleição municipal define nossa qualidade de vida

Muitas vezes esquecemos isso. Queremos que a cidade cresça para que lado? Queremos casas ou prédios? E queremos que as casas sejam construídas em terrenos exíguos, em lugares sujeitos a inundações - ou não? Queremos jardins, praças públicas, ruas arborizadas - ou não? Dificilmente alguém responderá "não" a estas últimas perguntas. Se o fizesse, dificilmente seria eleito. Mas o problema é que esses assuntos são pouco discutidos. E o fato de não haver discussão já é um sinal preocupante. Porque, se esses assuntos não forem expostos à luz do debate, ganhará quem se interessa em escondê-los. Escondê-los é fácil: basta distrair a atenção do eleitor para o secundário, o inessencial.

Darei alguns exemplos. Sem dúvida, merecem respeito as religiões que cresceram em nosso País nos últimos anos. Sem dúvida, não se deve opor dificuldade a nenhum culto - e, sem dúvida, todo culto deve respeitar as leis que se aplicam a todos. Ora, conceder alvarás para templos nem sempre é trivial. No passado, podia abrir uma igreja quem fosse de uma Igreja - isto é, abrir um templo estava ligado a se pertencer a uma religião tradicional, com hierarquia clara. Hoje, multiplicam-se religiões e sacerdotes. Uma igreja às vezes é já uma Igreja. Licenciar um templo fica mais complicado. Às vezes é mais fácil, às vezes não. É legítimo políticos se empenharem em obter alvarás para eles. Mas isso não legitima colocá-los, por exemplo, acima das leis de silêncio, que a todos se aplicam.

Agora, por mais que qualquer culto mereça o respeito de todos, se um político se eleger com só essa bandeira, mesmo assim ele depois vai participar de decisões sobre o plano diretor, sobre a altura de edifícios, a obrigação ou não de preservar áreas verdes e outros temas que vão bem adiante de sua agenda eleitoral - mas que afetam cada minuto da vida de toda a população. Se durante a campanha ele não disser o que fará sobre esses tópicos, de duas uma: ou ele não sabe, e ao concorrer despreparado a um cargo de muita responsabilidade está agindo mal; ou sabe, mas não diz.

O mesmo vale para todos os candidatos de segmentos, que por sinal se têm multiplicado. É compreensível e legítimo que concorram ao Legislativo pessoas que querem representar tal ou qual grupo de trabalhadores, de empresários, até mesmo de praticantes de um esporte. Mas insisto: todos eles hão de votar em questões bem mais amplas do que o grupo ao qual pedem votos. E como vão se posicionar, então? É isso o que devemos cobrar.

Até se entende que candidatos queiram se omitir sobre assuntos delicados. Mas este é um sinal poderoso de que não são confiáveis. A obrigação de se informar é nossa, como eleitores. E isso implica também um dever para a boa imprensa. Ela pode apertar os candidatos em suas propostas. Mas, para isso, ela também tem de estar preparada. Ela precisa ser crítica quanto à visão deles para a cidade, e quanto às condições que eles tenham de executar essa visão. São essas as principais questões a colocar.

Agora, o mais fácil é partir para o escândalo, a cobrança na vida pessoal, a discussão do caráter. Sabemos como isso degradou a política dos Estados Unidos. Esse país é, dos desenvolvidos, o único em que candidatos viáveis fazem do racismo, da oposição à ciência e da defesa do preconceito armas poderosas, que até podem levá-los à presidência. Em nenhum outro país desenvolvido o preconceito grassa em tal medida. Ora, o melhor antídoto para isso é uma opinião pública que cobre, dos candidatos, o que eles farão.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Presidente pé-frio - José Roberto de Toledo

Quem são os principais padrinhos nesta eleição municipal? O que conta mais: boas avaliações de prefeitos ou o apoio de um presidente ou ex-presidente da República? O Estadão Dados fez um levantamento, com ajuda do Ibope, para responder a essas questões.

Nunca é demais lembrar que governante mal avaliado não faz sucessor. Continuidade ou mudança é o "drive" principal de qualquer eleição. Quando o prefeito, o governador ou o presidente é bem avaliado, a chance de ele se reeleger ou de eleger seu candidato é diretamente proporcional ao seu grau de aprovação. Aprovação popular do incumbente é condição necessária, mas nem sempre suficiente.

Vejamos então quem tem popularidade para usar e quem está devendo. No ranking das capitais feito pelo Ibope, metade dos atuais prefeitos está no vermelho: tem mais ruim ou péssimo do que bom ou ótimo entre os eleitores. Dos 13 com saldo negativo, só dois concorrem à reeleição: Roberto Goes (PDT) em Macapá e João Castelo (PSDB) em São Luís. Ambos estão na margem de erro e podem usar a campanha para virar a avaliação para o positivo.

Entre os que estão mais para baixo na classificação não há candidatos à reeleição. Seja porque já estão no segundo mandato, seja porque não teriam a mínima chance se concorressem, como é o caso de Micarla de Sousa (PV), prefeita de Natal, e dona da pior avaliação já registrada pelo Ibope: saldo de -91%.

Na parte de cima do ranking há seis candidatos à reeleição. Todos são líderes das pesquisas de intenção de voto: José Fortunati (PDT) em Porto Alegre, Marcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte, Eduardo Paes (PMDB) no Rio de Janeiro, Paulo Garcia (PT) em Goiânia, Elmano Férrer (PTB) em Teresina e Luciano Ducci (PSB) em Curitiba. Os quatro primeiros são líderes isolados.

Não é só isso. Os candidatos apoiados pelos prefeitos mais bem avaliados também estão entre os líderes nas pesquisas. É o que acontece em Campo Grande e em Rio Branco, cujos prefeitos - Nelsinho Trad (PMDB) e Raimundo Angelim (PT), respectivamente - ostentam o maior saldo de aprovação nas capitais: ambos com 61% positivo. E tem sido assim historicamente.

Em São Paulo, desde a eleição de 1996, só conseguiram se reeleger ou fazer seu sucessor os prefeitos com saldo positivo superior a 25%. Paulo Maluf fez Celso Pitta porque tinha 35% de saldo em setembro e melhorou com a campanha eleitoral. O mesmo ocorreu com Gilberto Kassab em 2008. Marta Suplicy (PT) ganhou em 2000 porque disputava contra um governo com déficit de popularidade de 74%, e perdeu depois porque o saldo de sua própria avaliação nunca passou de 24% em 2004.

Se existe transferência de votos, ela só ocorre na horizontal. Ou seja, de prefeito para candidato a prefeito, de presidente para candidato a presidente. A transferência cruzada é bem mais rara. O candidato a prefeito apoiado por um presidente popular não se elege por causa disso, especialmente em cidades com autonomia orçamentária, pouco dependentes de repasses federais.

Vejamos o caso de São Paulo. Em 1985 o presidente era José Sarney (PMDB), mas o candidato do seu partido, Fernando Henrique Cardoso, perdeu a eleição para Jânio Quadros. Na eleição seguinte, Sarney continuava presidente, e quem se elegeu foi Luiza Erundina, a candidata do PT, partido que mais lhe fazia oposição à época. Sarney era impopular. Fernando Collor também.

Pulemos para Fernando Henrique. Na eleição de 1996, o então presidente recuperava sua popularidade após o massacre de Eldorado dos Carajás. Tinha cacife para influir positivamente na eleição paulistana, mas o candidato do seu partido, José Serra (PSDB), não chegou nem ao segundo turno. Deu Celso Pitta (PPB).

Ainda sob FHC, em 2000, o candidato tucano, dessa vez Geraldo Alckmin, ficou novamente fora do segundo turno. Elegeu-se Marta Suplicy, do PT, que fazia oposição ao presidente.

Lula chegou ao poder em 2002, e dois anos depois Marta tentou a reeleição em São Paulo. O petista tinha saldo positivo de avaliação, mas a incumbente foi derrotada por Serra, que havia perdido a eleição presidencial para Lula dois anos antes. Em 2008, o presidente estava nos píncaros de sua popularidade, mas viu sua candidata, Marta, perder novamente, para Kassab.

Resumo da ópera: desde a redemocratização, nenhum presidente, popular ou não, petista ou tucano, elegeu seu candidato a prefeito de São Paulo. Foram sete eleições e sete derrotas. Mesmo que Fernando Haddad (PT) surpreenda e se eleja, não será por causa das aparições de Dilma Rousseff na TV ou em comícios - mesmo ela tendo saldo positivo de 50% na capital paulista.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Cotas e justiça histórica - Rubens Ricupero

Não há dúvida de que o Estado contraiu no Brasil uma obrigação em relação a certa categoria de brasileiros

É justo estabelecer cotas erroneamente chamadas de raciais? Em caso positivo, qual é a modalidade mais efetiva em termos de resultados? Essas duas dimensões pertencem a naturezas diferentes.

A primeira tem a ver não apenas com a moral, como se diz, e sim com a mais estrita justiça. Atribuir a cada um aquilo a que tem direito é questão de justiça, não de concessão ou benevolência. A segunda possui caráter operacional e depende de abordagem prática.

Não há dúvida de que o Estado contraiu no Brasil uma obrigação em relação a certa categoria de brasileiros. Essa categoria não se define pela raça, mas pelo fato de descender de vítimas de um crime praticado com a conivência do governo: a escravização ilegal de seres humanos.

A escravatura em si mesma era legal no Brasil até a abolição em maio de 1888, e não se pretende retroagir a ilegalidade para a fase anterior. Contudo, muito antes da abolição, a escravidão já era ilegal para os introduzidos após a lei de 7 de novembro de 1831, que proibia o tráfico de escravos e declarava livres os chegados após a lei. É uma originalidade, uma "jabuticaba" brasileira em relação aos Estados Unidos e outros países da América Latina.

Jamais revogada, apesar das tentativas, a lei nunca teve cumprimento efetivo. Com raras exceções, os emancipados se viram reduzidos à completa servidão.

Foi com base nessa lei de 1831 que Luiz Gama conseguiu libertar nos tribunais mais de 500 de seus irmãos de infortúnio.

A esmagadora maioria não teve igual sorte. Falsos atestados de óbito, substituição de desembarcados por escravos à beira da morte, envio para áreas longe da fiscalização, tudo se fazia para frustrar a lei. Como escreveu o cônsul-geral inglês sir William Gore Ouseley (1797-1866), lançava-se mão neste país de todos os meios "que a cupidez sem princípios nem escrúpulos podia utilizar, assistida pela conivência ou apoio daqueles cujo dever seria o de prevenir tais procedimentos".

No período de 1826 a 1850, ingressou no Brasil 1,3 milhão de africanos, quase todos de forma ilegal. Levando em conta os índices de natalidade e mortalidade, uma parcela altíssima, sem dúvida majoritária, da população de origem africana descende parcial ou totalmente de escravos ilegais. Só isso basta para definir a responsabilidade do Estado e sua obrigação de reparar os descendentes pelo descumprimento da legislação brasileira da época.

A indiscutível cumplicidade do governo, confessada e documentada, explica por que era difícil a alguém provar a ilegalidade da escravização. Um decreto de 1842 dispensava na primeira matrícula do escravo a necessidade de apresentar o título de aquisição, obviamente inexistente devido ao contrabando.

Portanto, não há como contestar em bases legais e muito menos morais a necessidade da reparação. Cabe apenas examinar no terreno prático qual é a melhor maneira de dar à reparação efetividade e rapidez. Deve-se evitar aqui a discussão doutrinária e preconceituosa.

O critério a adotar é estudar as experiências de políticas de ação afirmativa e adaptar à nossa realidade as que apresentam menores inconvenientes e resultados corretivos mais seguros e indiscutíveis.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Brasil: um olhar para 2013 - Luiz Carlos Mendonça de Barros

Os analistas já começam a olhar para 2013. Afinal, os fatos econômicos mais importantes começam a ser moldados pelo menos seis meses antes de acontecerem. Neste sentido, como responsável pela construção dos cenários futuros da economia, na Quest Investimentos, terminei recentemente um trabalho sobre o estado da economia brasileira no primeiro trimestre de 2013. Gostaria de expor parte das minhas previsões para o leitor do Valor.

Para a construção de um cenário prospectivo sobre o Brasil é preciso trabalhar com algumas hipóteses em relação ao que deve acontecer nos Estados Unidos, na Zona do Euro e na China. No caso da economia americana trabalho com a continuidade da normalização lenta de seu metabolismo econômico, principalmente nos setores imobiliário, das pequenas e médias empresas e bancário. Outro ponto importante do meu cenário é a manutenção, no próximo ano, da posição conservadora do americano médio em relação a seus gastos, representada por uma taxa de poupança em linha com a de 2012, ou seja, 4% de sua renda. Finalmente, trabalho com a hipótese de uma correção suave do déficit do governo, que deve ser próximo dos 5% do PIB em fins de 2013.

Mas temos que acompanhar com cuidado um cenário alternativo, chamado nos mercados de "precipício fiscal". Ele vai ocorrer se não houver um entendimento político entre democratas e republicanos, até fins de dezembro, para renegociar cortes de impostos e de despesas já aprovados no orçamento para 2013. Neste caso teremos uma contração fiscal de quase 4 pontos do PIB a partir do início de 2013. Esse ajuste brutal certamente jogaria a economia em recessão, mesmo que o Fed venha a usar todo seu arsenal de medidas de expansão monetária. Nesta situação, a combinação de uma recessão nos Estados Unidos e na Europa certamente levaria o mundo emergente - inclusive o Brasil - para um período de crescimento econômico frágil.

Astros alinhados, parece viável que a economia brasileira cresça acima dos 4% no próximo ano

No caso da Europa minha posição é que os políticos conseguiram criar uma arquitetura financeira suficientemente forte para evitar o colapso do euro. Com isto será possível testar, por mais algum tempo, a terapia atual de ajuste fiscal nos países mais endividados. Os recursos mobilizados pelo BCE e pelos países europeus, por meio do FSE, devem garantir a normalização dos mercados por um período de tempo mais longo, talvez até as eleições alemãs em outubro do próximo ano. Os leilões de títulos da Itália e Irlanda, realizados na última quinta feira, mostram que os mercados entenderam estes novos tempos e que um cenário de ruptura da zona do euro é hoje muito pouco provável.

Na China estamos vivendo um momento crítico de mudanças no metabolismo da economia. O governo iniciou recentemente uma correção de rumo - há muito demandada pelos analistas - que leva a uma redução da importância das exportações no crescimento e aumenta a participação do consumo doméstico. Também no canal de investimentos fixos está ocorrendo uma mudança importante de prioridades. Os projetos agora estão voltados para desenvolvimento das zonas urbanas fora das regiões do sul da China e para a habitação popular.

Mas, toda mudança na China, dada sua dimensão gigantesca e a complexidade de seu equilíbrio social, é sempre um movimento perigoso e que precisa ser acompanhado com cuidado. Mas trabalho ainda com um cenário de estabilidade de crescimento em 2013, na faixa dos 8% ao ano.

Nessas condições externas mais favoráveis - um verdadeiro alinhamento dos astros - parece viável que a economia brasileira cresça, em 2013, acima dos 4%. A recuperação do investimento privado, em função de um ambiente externo menos perigoso, e o crescimento dos gastos das famílias próximo a 5% ao ano seriam as principais forças por trás dessa retomada. Os juros Selic devem permanecer inalterados em 7,5% e, se necessários, os ajustes na política monetária serão feitos via medidas administrativas do Banco Central e, no limite, via valorização do real. A redução dos juros é uma conquista que a presidenta Dilma dificilmente abrirá mão, mesmo em um cenário de inflação mais adverso.

Trabalhamos na Quest com uma inflação, em 2013, da ordem de 5,5%, assumindo uma correção nos preços da gasolina e o fim de isenções fiscais em algum momento do primeiro semestre. No caso do governo realizar o aumento dos combustíveis ainda este ano, a inflação em 2013 pode ficar mais próxima dos 5%. O risco de um número superior a esse está associado principalmente ao comportamento dos mercados internacionais de alimentos, em função da seca nos Estados Unidos durante o verão e que forçou uma redução dos estoques de vários produtos importantes.

A mensagem que tenho passado para o ano próximo é de que poderemos voltar a ter na economia mundial um período de maior racionalidade e menos especulação. Por maior racionalidade quero dizer que as análises e projeções é que vão refletir novamente as questões econômicas de fundo e deixar de lado cenários polares de ruptura e fim de mundo. São quase cinco anos nos quais nos afastamos desta dinâmica com a qual me acostumei a trabalhar por mais de 40 anos.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Cidadania e direitos - Cândido Grzybowski

Embargos feitos pelo Ministério Público Federal levaram a Justiça Federal a suspender e paralisar as obras da usina de Belo Monte e da duplicação da Estrada de Ferro Carajás. Os direitos da população dos territórios ocupam o centro nessa disputa. Esta é a questão política - para além da jurídica e de modelo de desenvolvimento - que importa analisar.

Os territórios são espaços de vida humana. Não são somente naturais, mas espaços geográficos dinâmicos, com história humana passada e história em construção. Estamos diante do modo de ocupar e usar o espaço natural, o bem comum da vida, e de organizá-lo como território humano, de cidadania, de democracia em construção. Os territórios condensam questões de justiça e cidadania socioambiental, antes de serem um recurso natural a ser explorado.

Com a globalização, o capitalismo transformou o planeta todo em seu espaço de valorização. O capital que se investe num território visa à sua própria valorização, determinada por interesses da grande corporação econômico-financeira, exógena a ele. Nada a ver com a sustentabilidade da vida e da cidadania, com o bem viver das populações que se identificam com o território, nele vivem e dependem das suas possibilidades. Com a implantação de grandes obras na Amazônia, por exemplo, reinventa-se e se radicaliza a colonização, a ocupação dos territórios, não para servir à vida das populações aí existentes e respeitando as suas condições. Para o capital, os diferentes territórios, em qualquer parte do mundo, não passam de um diferencial de negócios, um "plus" na competição entre grandes empresas por mercados e por lucros crescentes. Para o capital, trata-se de ocupar os territórios com estratégias definidas fora e para fora. Mas isto só é possível com o apoio político do poder central, também exógeno ao território, com grandes financiamentos e subsídios.

Neste quadro, muda o caráter político da disputa do território. Ela adquire uma dimensão de direitos de cidadania que o extrapola. Nessa luta, está contida uma dimensão planetária, que a torna solidária com todas as diversas lutas mundo afora contra o capitalismo desterritorializado e sua lógica de racionalidade econômica de apropriação privada, mercantilização e domínio dos "comuns".

As vitórias jurídicas obtidas pelos movimentos das comunidades indígenas contra o complexo hidrelétrico de Belo Monte e pelo Movimento de Justiça Nos Trilhos contra a Estrada de Ferro Carajás devem ser celebradas como reconhecimento de direitos coletivos de cidadania. O que se disputa em Belo Monte e Carajás tem a ver com cidadania, democracia e sustentabilidade com justiça social, não só dos diretamente atingidos, mas de todos nós.

FONTE: O GLOBO

De volta à Petrobras - Aécio Neves

O Senado ouviu da presidente da Petrobras esclarecimentos sobre os abalos que a companhia vem sofrendo, por uma progressiva desconfiança em relação à sua governança corporativa.

Graça Foster teve que se haver com a herança recebida -o uso político/partidário da empresa, a realização de operações ruinosas e o intervencionismo da política econômica em desfavor da rentabilidade da produção, compra e venda de combustíveis.

A companhia perdeu cerca de 50% de seu valor em Bolsas, desde 2008; a estagnação da produção está em torno de 2 milhões de barris/dia desde 2009, com mais perspectiva de queda no ano. No segundo trimestre, registrou-se um prejuízo de R$ 1,34 bilhão, o terceiro de toda a sua história.

Isso sem falar no malogro do programa de refinarias. A Abreu e Lima, em Pernambuco, por exemplo, acumula atrasos monumentais e um salto de dez vezes no seu orçamento original, de R$ 2,3 bilhões para R$ 20,1 bilhões.

Nas explicações da presidente, chamou a atenção o fato de que se a PDVSA, a companhia venezuelana de petróleo, não confirmar a tão prometida participação em 40% do negócio, o fiasco será ainda maior, já que parte de sua planta foi desenvolvida para refinar o tipo de petróleo pesado produzido na Venezuela, e não no Brasil. Pelo menos ela reconheceu que é uma lição a ser aprendida, para que não se repita.

Tão ou mais importante do que os prejuízos da Petrobras é o regime de ineficiência na companhia. Entre 2002 e 2011, o número de empregados cresceu 75%, e o de terceirizados, 171%, enquanto a produção de petróleo e gás avançou só 45%. Entre as cinco maiores do mundo, a Petrobras é a que possui a menor relação produção/número de funcionários -32 barris equivalentes de petróleo por dia (bep/d) por funcionário. Tal relação vem piorando ao longo do tempo -era de 39 bep/d por funcionário em 2002.

Tudo isso ocorre enquanto se sinaliza para o risco de paralisia no setor de exploração no Brasil. As áreas de prospecção estão minguando. Desde 2009 está suspensa a 11ª rodada de licitação, afetando os blocos fora da área do pré-sal.

Hoje, duvida-se que a Petrobrás possa arcar com as necessidades futuras de investimentos, inclusive no pré-sal, onde responde por 30% de cada contrato. O governo culpa o Congresso pela paralisia, em função da questão da distribuição dos royalties, como se ele não tivesse ali base que tudo aprova e referenda.

Qualquer definição terá custos políticos e o governo só trabalha em função do calendário eleitoral. O estilo estatizante, intervencionista e populista de governar traz em sua raiz o conflito entre a necessidade e a conveniência, com sistemática prevalência do último sobre os interesses do país.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Mulheres de Atenas - Chico Buarque

Satélite – Manuel Bandeira

Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.

domingo, 16 de setembro de 2012

OPINIÃO DO DIA – Marcos Valério: ‘o mensalão maculou a República’ (XLI)

"Vocês vão se ferrar. Avisa ao barbudo que tenho bala contra ele"

— Marcos Valério,no dia 9 de julho de 2005, em referência ao ex-presidente Lula

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Mensalão tem outros 45 processos e 80 réus
PSB e PSDB com fôlego extra
Um quinto dos jovens é ‘nem-nem’
Jefferson e Dirceu, 20 anos de ódio

FOLHA DE S. PAULO
Prefeitura paga aluguel para 100 mil em São Paulo
Lula chefiou mensalão de R$ 350 mi, diz Valério; PT nega
Russomanno promete time de secretários surpreendente
Alckmin usa retórica dos matadores da ditadura, escreve Maria Rita Kehl

O ESTADO DE S. PAULO
Mantega diz que juros do cartão de crédito são ‘escorchantes’
Valério acusa Lula de chefiar mensalão, diz revista
Na base do governo, PRB vira problema para o PT
Patriota critica ação das potências na crise síria

CORREIO BRAZILIENSE
Quadrilha de Cachoeira vende imóveis para fugir
Onde faltam boas escolas são altos os índices de violência
Metade do salário vai par ao governo

ESTADO DE MINAS
Boca-livre
A mordida do leão é maior no bolso do pobre
Vídeo esquenta ainda mais a briga em Betim

ZERO HORA (RS)
Por que 34,5% dos alunos do Ensino Médio não estão na série correspondente à sua idade?

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Desordem de Norte a Sul
Candidatos atacam prefeitos

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

"Lula era o chefe"

Seis semanas depois de iniciado o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o escândalo do mensalão, que Lula e o PT tentaram dissimular como sendo uma "farsa da oposição" ou "invenção da imprensa golpista", mostrou-se de uma realidade absoluta e incontestável. As primeiras condenações à prisão já foram lavradas pelos ministros do Tribunal e outras ainda virão até o veredicto final, o que deve ocorrer em meados de novembro. O Brasil e os brasileiros, portanto, já ganharam o ano com a demonstração de maturidade e independência da Justiça e com a certeza de que a nação conta com uma imprensa livre, corajosa e obcecada pela busca da verdade, cujo trabalho desencavou o escândalo e o manteve vivo com constantes revelações até que os culpados fossem confrontados com seu destino perante o tribunal.

VEJA se orgulha de ter desempenhado um papel fundamental em mais esse processo de depuração da vida política nacional. Foram os repórteres da revista que captaram os primeiros sinais da doença que tomava conta de Brasília ao publicarem o vídeo em que um diretor dos Correios embolsava uma propina em dinheiro vivo. A partir daí. VEJA foi puxando o fio da meada até constatar que. ao que tudo indicava, a podridão havia subido a rampa do Palácio do Planalto e se instalado nas imediações e até no próprio gabinete presidencial. Em sua edição de 13 de julho de 2005. VEJA colocou na capa os resultados de uma pesquisa nacional de opinião pública dando conta de que para 45% dos entrevistados o então presidente Lula nada sabia do mensalão. enquanto para 39% ele sabia mas não se envolvera diretamente na operação e para 16% Lula sabia e tivera participação direta nas malfeitorias. Depois, a revista revelou que em pelo menos cinco situações Lula fora alertado sobre o que se passava a sua volta. Em outra reportagem de capa. VEJA trouxe a primeira forte evidência de que os 16% ouvidos na pesquisa estavam certos: Lula sabia e se envolvera. Os repórteres da revista informavam que o pivô financeiro do escândalo, o publicitário mineiro Marcos Valério. estava a ponto de procurar a Justiça e contar tudo sobre o envolvimento de Lula em troca do alívio da pena pelo mecanismo da delação premiada. "Vocês vão se ferrar. Avisa ao barbudo que tenho bala contra ele", disse Valério a João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados e hoje réu já condenado no processo do mensalão pelo STF. VEJA relatou a bem-sucedida operação do PT para acalmar Valério, oferecendo-lhe proteção.

Uma reportagem exclusiva desta edição do editor Rodrigo Rangel, da sucursal de Brasília, feita com base em revelações de Marcos Valério a parentes, amigos e associados, reabre de forma incontornável a questão da participação do ex-presidente no mensalão. ""Lula era o chefe", vem repetindo Valério com mais frequência e amargura agora que já foi condenado pelo STF. podendo, no fim do julgamento, ver sua pena chegar a mais de 100 anos de reclusão. Valério não quis dar entrevista sobre as acusações diretas do envolvimento de Lula que ele vem fazendo. Mas não desmentiu nada.

Os segredos do Mensalão

O empresário Marcos Valério, apontado como o operador do esquema, diz que, em troca do seu silêncio, recebeu garantias do PT de uma punição branda. Condenado pelo STF por vários crimes, cujas penas podem chegar a 100 anos de prisão, ele revela que o ex-presidente Lula sabia de tudo e que o caixa para subornar políticos foi muito maior: 350 milhões de reais.

Rodrigo Rangel

Faltavam catorze minutos para as 7 da manhã da última quarta-feira quando o empresário Marcos Valério, o pivô financeiro do mensalão, parou seu carro em frente a uma escola, em Belo Horizonte. Alvo das mais pesadas condenações no julgamento que está em curso no Supremo Tribunal Federal (STF), ele tem cumprido religiosamente a tarefa de levar o filho todos os dias ao colégio. Desce do carro, acompanha o menino até o portão e se despede com um beijo no rosto. Chega mais cedo para evitar ser visto pelos outros pais e alunos e vai embora depressa, cabisbaixo. "O PT me transformou em bandido”, desabafa. Valério sabe que essa rotina em breve será interrompida. Ele é o único dos 37 réus do mensalão que não tem um átimo de dúvida sobre seu futuro. Na semana passada. o publicitário foi condenado por lavagem de dinheiro, crime que acarreta pena mínima de três anos de prisão. Computadas as punições pelos crimes de corrupção ativa e peculato, já decididas, mais evasão de divisas e formação de quadrilha, ainda por julgar, a sentença de Marcos Valério pode passar de 100 anos de reclusão. Mesmo com todas as atenuantes da lei penal brasileira, não é improvável que ele termine seus dias na cadeia. Valério tem culpa no cartório, mas fica evidente que ele está carregando sobre os ombros uma carga penal que, por justiça, deveria estar mais bem distribuída entre patentes bem mais altas na hierarquia do mensalão. É isso que mais martiriza a alma de Valério neste momento, uma dor que ele tenta amenizar lembrando, sempre que pode, que seu silêncio sobre os responsáveis maiores acima dele está lhe custando muito caro.

Apontado como o responsável pela engenharia financeira que possibilitou ao PT montar o maior esquema de corrupção da história, Valério enfrenta um dilema. Nos últimos dias, ele confidenciou a pessoas próximas detalhes do pacto que havia firmado com o partido. Para proteger os figurões, conta que assumiu a responsabilidade por crimes que não praticou sozinho e manteve em segredo histórias comprometedoras que testemunhou quando era o "predileto" do poder. Em troca do silêncio, recebeu garantias. Primeiro, de impunidade. Depois, quando o esquema teve suas entranhas expostas pela Procuradoria-Geral da República, de penas mais brandas. Valério guarda segredos tão estarrecedores sobre o mensalão que não consegue mais reter só para si — mesmo que agora, desiludido com a falsa promessa de ajuda dos poderosos que ele ajudou, tenha um crescente temor de que eles possam se vingar dele de forma ainda mais cruel. Os segredos de Valério, se revelados, põem o ex-presidente Lula no epicentro do escândalo do mensalão. Sim, no comando das operações. Sim. Lula, que, fiel a seu estilo, fez de tudo para não se contagiar com a podridão à sua volta, mesmo que isso significasse a morte moral e política de companheiros diletos. Valério teme, e fala a pessoas próximas, que se contar tudo o que sabe estará assinando a pior de todas as sentenças — a de sua morte: "Vão me matar. Tenho de agradecer por estar vivo até hoje".

Sua mulher, Renilda Santiago, já tentou o suicídio três vezes. Há duas semanas, ela telefonou a uma amiga para dizer que iria a um reduto do tráfico encravado na região central de Belo Horizonte comprar uma arma. Avisou que havia decidido dar um tiro na cabeça. Renilda está mergulhada em crise aguda de depressão. Os dois filhos do casal vivem dramas à pane. Meses atrás, o menino, de 11 anos, tentou fazer um teste de admissão em uma escola mais perto de casa, mas a diretora nem deixou o garoto começar a prova. A direção da escola não queriaí entre seus alunos o filho de Marcos Valério. A filha mais velha, de 21 anos, passou por constrangimentos cruéis. Em um debate na faculdade de psicologia, o assunto escolhido pelos colegas foi justamente o comportamento do pai dela. Humilhada, ela saiu da sala. Chega a ser assustador, mesmo que previsível, que as pessoas esqueçam a mais consagrada prática cristã, civilizada e jurídica — a de que os filhos não devem pagar pelos erros dos pais. Marcos Valério sofre de síndrome do pânico e praticamente não prega os olhos à noite. Sobre o PT e seus antigos parceiros ele vem dizendo: "Eu detesto esse pessoal. Esse povo acabou com a minha vida. me fez de um tamanho que eu não sou. O PT me fez de escudo, me usou como um boy de luxo. Mas eles se ferraram porque agora vai todo mundo para o ralo". O medo ainda constrange Marcos Valério a limitar suas revelações a pessoas próximas. Até quando?

MENSALÃO

“O caixa do PT foi de 350 milhões de reais”

A acusação do Ministério Público Federal sustenta que o mensalão foi abastecido do 55 milhões de reais tomados por empréstimo por Marcos Valério junto aos bancos Rural e BMG, que se domaram a 74 milhões, desviados da Visanet, fundo abastecido com dinheiro público e controlado pelo Banco do Brasil. Segundo Marcos Valério, esse é o valor é subestimado. Ele conta que o caixa real do mensalão era o triplo do descoberto pela polícia e denunciado pelo MP. Valério diz que pelas arcas do esquema passaram pelo menos 350 milhões de reais. “Da SMP&B vão achar só os 55 milhões, mas o caixa era muito maior. O caixa do PT foi de 350 milhões de reais, com dinheiro de outras empresas que nada tinham a ver com a SMP&B nem com a DNA” afirma o empresário. Esse caixa paralelo, conta ele, era abastecido com dinheiro oriundo de operações tão heterodoxas quanto os empréstimos fictícios, tomados por suas empresas para pagar políticos aliados do PT. Havia doações diretas diante da perspectiva de obter facilidades no governo. "Muitas empresas davam via empréstimos, outras não." O fiador dessas operações, garante Valério, era o próprio presidente da República.

Lula teria se empenhado pessoalmente na coleta de dinheiro para a engrenagem clandestina, cujos contribuintes tinham algum interesse no governo federal. Tudo corria por fora, sem registros formais, sem deixar nenhum rastro. Muitos empresários, relata Marcos Valério, se reuniam com o presidente, combinavam a contribuição e em seguida despejavam dinheiro no cofre secreto petista. O controle dessa contabilidade cabia ao então tesoureiro do partido. Delúbio Soares, que é réu no processo do mensalão e começa a ser julgado nos próximos dias pelos crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa. O papel de Delúbio era, além de ajudar na administração da captação, definir o nome dos políticos que deveriam receber os pagamentos determinados pela cúpula do PT, com o aval do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, acusado no processo como o chefe da quadrilha do mensalão: "Dirceu era o braço direito do Lula, um braço que comandava”. Valério diz que, graças a sua proximidade com a cúpula petista no auge do esquema, em 2003 e 2004, teve acesso à contabilidade real. Ele conta que a entrada e a saída de recursos foram registradas minuciosamente em um livro guardado a sete chaves por Delúbio. Pelo seu relato, o restante do dinheiro desse fundão teve destino semelhante ao dos 55 milhões de reais obtidos por meio dos empréstimos fraudulentos tomados pela DNA e pela SMP&B. Foram usados para remunerar correligionários e aliados. Os valores calculados por Valério delineiam um caixa clandestino sem paralelo na política. Ele fala em valores dez vezes maiores que a arrecadação declarada da campanha de Lula nas eleições presidenciais de 2002.

O PRESIDENTE

“Lula era o chefe”

A ira de Marcos Valério desafia a defesa clássica do ex-presidente Lula de que não sabia do Mensalão e nada teve a ver com o esquema arquitetado em seu primeiro mandato. Com a segurança de quem transitava com desenvoltura pelos gabinetes oficiais, inclusive os palacianos, e era considerado um parceiro preferencial pela cúpula petista, Valério afirma que Lula “comandava tudo". Em sua própria defesa, diz que como operador dos pagamentos não passava de um “boy de luxo" de uma estrutura que tinha o então presidente no topo da cadeia de comando. "Lula era o chefe”, repete Valário às pessoas mais próximas. A afirmação se choca com todas as versões apresentadas por Lula desde que o esquema foi descoberto, em 2005. Primeiro, escudou-se no argumento de que tudo não passou do uso de dinheiro "não contabilizado” que havia sobrado das campanhas políticas, prática suprapartidária e recorrente na política brasileira — não por acaso tem sido essa a estratégia de defesa dos mensaleiros no STF. Num segundo momento, Lula se disse traído e pediu desculpas à nação em rede de televisão.

A rota de fuga de Lula evoluiu mais tarde para a negação completa, com a tese nefelibata de que o mensalão nunca existiu, tendo sido apenas uma armação das elites para abreviar seu mandato. A narrativa de Valério coloca Lula não apenas como sabedor do que se passava, mas no comando da operação. Valério não esconde que se encontrou com Lula diversas vezes no Palácio do Planalto. Ele faz outra revelação: “Do Zé ao Lula era só descer a escada. Isso se faz sem marcar. Ele dizia vamos lá embaixo, vamos”. O Zé é o ex-ministro José Dirceu, cujo gabinete ficava no 4o andar do Palácio do Planalto, um andar acima do gabinete presidencial. A frase famosa e enigmática de José Dirceu no auge do escândalo — "Tudo que eu faço é do conhecimento de Lula” — ganha contornos materiais depois das revelações de Valério sobre os encontros em palácio. Marcos Valério reafirma que Dirceu não pode nem deve ser absolvido pelo Supremo Tribunal, mas faz uma sombria ressalva. “Não podem condenar apenas os mequetrefes. Só não sobrou para o Lula porque eu, o Delúbio e o Zé não falamos”, disse na semana passada, em Belo Horizonte. Indagado, o ex-presidente não respondeu.

PACTO

“Meu contato era o Okamotto”

Há menos de dois meses, VEJA revelou a existência de encontros secretos entre Marcos Valério e Paulo Okamotto, petista estrelado que desempenha a tarefa de assessor financeiro, ou tesoureiro, de Lula. Procurado para explicar por que se reunia com o principal operador do mensalão. Okamotto disse que os encontros serviam apenas para discutir política. Não, não era bem assim. Marcos Valério tinha um pacto com o PT, e Paulo Okamotto era o fiador desse pacto. “Eu não falo com todo mundo no PT. O meu contato com o era o Paulo Okamotto”, disse Valério em uma conversa reservada dias atrás. É o próprio Valério quem explica a missão de Okamotto: "O papel dele era tentar me acalmar“.

O empresário conta que conheceu o Japonês, como o petista é chamado, no ápice do escândalo. Valério diz que, na véspera de seu primeiro depoimento à CPI que investigava o mensalão, Okamotto o procurou. “A conversa foi na casa de uma funcionária minha. Era para dizer o que eu não devia falar na CPI”, relembra. O pedido era óbvio.

Okamotto queria evitar que Valério implicasse Lula no escândalo. Deu certo durante muito tempo. Em troca do silêncio de Valério, o PT, por intermédio de Okamotto, prometia dinheiro e proteção. A relação se tomaria duradoura, mas nunca foi pacífica. Em momentos de dificuldade, Okamotto era sempre procurado. Quando Valério foi preso pela primeira vez, sua mulher viajou a São Paulo com a filha para falar com Okamotto. Renilda Santiago queria que o assessor de Lula desse um jeito de tirar seu marido da cadeia. Disse que ele estava preso injustamente e que o PT precisava resolver a situação. A reação de Okamotto causa revolta em Valério até hoje. "Ele deu um safanão na minha esposa. Ela foi correndo para o banheiro, chorando." O empresário jura que nunca recebeu nada do PT, Já a promessa de proteção, segundo Valério, girava em tomo de um esforço que o partido faria para retardar o julgamento do mensalão no Supremo e, em último caso, tentar amenizar a sua pena. "Prometeram não exatamente absolver, mas diziam: ‘Vamos segurar, vamos isso. vamos aquilo’... Amenizar", conta. Por muito tempo, Marcos Valério acreditou que daria certo. Procurado, Okamotto não se pronunciou.

PODER

“0 Delúbio dormia no Alvorada“

Dos tempos em que gozava das intimidades do poder em Brasília, Marcos Valério diz guardar muitas lembranças. Algumas revelam a desenvoltura com que personagens centrais do mensalão transitavam no coração do governo Lula antes da eclosão do maior escândalo de corrupção da história política do país. Valério lembra das vezes em que Delúbio Soares, seu interlocutor frequente até a descoberta do esquema, participava de animados encontros à noite no Palácio da Alvorada, que não raro servia de pernoite para o ex-tesoureiro petista. "O Delúbio dormia no Alvorada. Ele e a mulher dele iam jogar baralho com Lula à noite. Alguma vez isso ficou registrado lá dentro? Quando você quer encontrar (alguém), você encontra, e sem registro." O operador do mensalão deixa transparecer que ele próprio foi a uma dessas reuniões noturnas no Alvorada. Sobre sua aproximação com o PT. Valério conta que, diferentemente do que os petistas dizem há sete anos, ele conheceu Delúbio durante a campanha de 2002. Quem apresentou a ele o petista foi Cristiano Paz. seu ex-sócio, que intermediava uma doação à campanha de Lula. A primeira conversa foi em Belo Horizonte, dentro de um carro. a caminho do Aeroporto da Pampulha. Nessa ocasião, conta. Delúbio lhe pediu ajuda. "Ele precisava de uma empresa para servir de espelho para pegar um dinheiro”. A parceria deu certo e desaguou no mensalão. Hoje, os dois estão no banco dos réus. Valério se sente injustiçado. Especialmente na pane da acusação que diz respeito ao desvio de recursos públicos do Banco do Brasil. Ele jura que esse dinheiro não caiu no caixa da corrupção. "No processo tem todas as notas fiscais que comprovam que esse dinheiro foi gasto com publicidade. Não estou falando que não mereço um tapa na orelha. Não é isso. Concordo em ser condenado por aquilo que eu fiz.”

EMPRÉSTIMO

"O banco ia emprestar dinheiro para uma agência quebrada?"

Os ministros do STF já consideraram fraudulentos os empréstimos concedidos pelo Banco Rural às agências de publicidade que abasteceram o mensalão. Para Valério, a decisão do Rural de liberar o dinheiro — com garantias fajutas e José Genoino e Delúbio Soares como fiadores — não foi um favor a ele, mas ao governo Lula. "Você acha que chegou lá o Marcos Valério com duas agências quebradas e pediu: "Me empresta aí 30 milhões de reais pra eu dar pro PT"? O que um dono de banco ia responder?" Valério se lembra sempre de José Augusto Dumont, então presidente do Rural. "O Zé Augusto, que não era bobo. falou assim: "Pra você eu não empresto". Eu respondi: "Vai lá e conversa com o Delúbio"."" A partir daí a solução foi encaminhada. Os empréstimos, diz Valério, não existiriam sem o aval de Lula e Dirceu. "Se você é um banqueiro, você nega um pedido do presidente da República"?" Foram essas mesmas credenciais palacianas, segundo ele, que lhe abriram as portas no Banco Central para interceder pela suspensão da liquidação extrajudicial do Banco Mercantil de Pernambuco, que interessava ao Rural. Valério foi destacado para cuidar do assunto em Brasília. Uma tarefa executada com todas as facilidades e privilégios. "Valério chegou lá no Banco Central e foi atendido. Você acha que o Banco Central receberia um imbecil qualquer, dono de uma agência de publicidade quebrada?"

"Nojento e vexatório"

Ex-superintendente do Banco Rural em Brasília, Lucas da Silva Roque foi um dos principais colaboradores nas investigações da Polícia Federal destinadas a desbaratar a quadrilha do mensalão. Foi ele quem revelou onde estavam os recibos que mostraram quais políticos receberam dinheiro para votar com o governo Lula no Congresso. Nesta entrevista, Roque conta que pagou um preço alto por agir de forma correta e relata um plano ambicioso urdido pela cúpula da instituição financeira em parceria com José Dirceu. Eles queriam montar um banco popular, do qual Rural e BMG seriam sócios, para conceder empréstimos consignados aos aposentados. Um negócio companheiro e bilionário.

Por que o senhor decidiu ajudar a polícia?

Não tinha nada a temer. Não entrei no jogo deles, não sou bandido. Fui mandado para a agência do Rural em Brasília para moralizá-la, porque ali estava uma bagunça. 0 que estava acontecendo no banco era acintoso, nojento e vexatório. 0 delegado disse que queria todos os documentos. Apontei onde estavam as caixas. Àquela altura, já estava tudo encaminhado para fazer sumir as provas, mandando-as de Brasília para Minas Gerais. Mostrei onde estavam os documentos e falei para o delegado que procurasse papéis também numa construtora, que servia de almoxarifado do banco.

Como a diretoria reagiu à sua colaboração com a PF?

Fui atacado de tudo quanto é jeito. Me colocaram em um porão que não era uma agência bancária, depois em uma loja de shopping que foi fechada por ser irregular. Pior, mandaram me avisar que eu estava proibido de aparecer na diretoria do banco. Isso foi em outubro de 2005. Virei a Geni. Fui demitido em agosto de 2010. Eu, minha esposa e meus filhos fomos achincalhados na rua como mensaleiros. Tive sérios problemas de saúde, perdi meu casamento.

O senhor tinha relação de proximidade com Marcos Valério. Ele disse a algumas pessoas que teve um encontro com Lula na Granja do Torto. Vários encontros. É verdade?

Sim, ele deixava para viajar para Belo Horizonte no sábado à noite para passar lá.

Levado por quem?

Delúbio Soares, Silvinho Pereira e José Dirceu.

Quais eram os planos da cúpula do Banco Rural e dos petistas?

Eles tinham um projeto de montar um banco popular com a CUT. Juntariam o Banco Rural, o BMG, a CUT. Era um projeto com capital de 1 bilhão de reais.

Quem capitaneava esse projeto?

Eram os bandidos do mensalão. Como o PT não tinha cultura bancária, o Rural e o BMG seriam sócios. Um banco privado com a participação da CUT, que direcionaria todos os beneficiários do INSS para tomar dinheiro em empréstimos consignados nessa instituição popular. Quando o mensalão estourou, o projeto foi abortado.

FONTE: REVISTA VEJA, EDIÇÃO 2287 – ANO 45 Nº 38, 19 DE SETEMBRO DE 2012.