sábado, 7 de março de 2026

Mulheres livres e a crise da masculinidade, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, precisamos lembrar que os direitos nunca são conquistas definitivas, precisam ser reafirmados e protegidos permanentemente. Há séculos, nós mulheres almejamos o reconhecimento de nossa dignidade e nosso estatuto de sujeitos de direitos. Há séculos, enfrentamos resistência ante a todos os pequenos avanços alcançados.

É importante que esse movimento paradoxal entre avanço e negação dos direitos seja bem compreendido. Por que, ao mesmo tempo em que gozamos de um espaço de liberdade maior que nossas bisavós e trisavós, precisamos testemunhar tanta violência, tanta barbárie contra a mulher, como se nossa liberdade conquistada viesse acompanhada de maior risco? De onde vem tanto ódio quando uma mulher diz "não"? Quando uma mulher decide ir embora, quando uma mulher decide viver sua autonomia à revelia do homem?

Não se trata de uma conjectura, mas de um dado sociológico. Os homens mais jovens têm manifestado um incremento de tendências mais conservadoras: curiosamente, eles parecem ter uma cabeça mais tradicionalista e machista que as gerações mais maduras. Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Ipsos e pelo Instituto para Liderança Feminina do King`s College mostra que um terço (31%) da geração Z, isto é, os nascidos entre 1995 e 2010, acredita que "uma esposa deve sempre obedecer seu marido", um dado significativamente maior do que aquele encontrado entre os Boomers (13%), os nascidos 1946 e 1964. A amostra não se limita ao Reino Unido e alcança diversos países.

O que observamos entre os jovens é uma masculinidade que tem imensa dificuldade de lidar com a independência feminina e que se apega com muita ênfase a um modelo de relação entre os gêneros onde o poder de decidir é do homem. Na prática, é o reflexo de uma insegurança, mobilizada pela sensação compartilhada entre os homens de "perda de espaço" e de oportunidades em favor das mulheres.

No imaginário masculino, obediência e todas as formas de subordinação feminina são importantes para que os homens "se sintam mais homens", para que possam exercer suas capacidades de comando e vivenciar sua virilidade. Mulheres fortes e livres são, portanto, uma ameaça a essa identidade do homem tradicional. Elas maltratam o ego daqueles que reconhecem seu valor unicamente na capacidade de dominar.

A violência é, nesse sentido, uma tentativa de aniquilar a liberdade que amedronta. Uma negação da possibilidade de decidir. Por tudo isso, precisamos, mais do que nunca, discutir e reinventar a masculinidade e o modo como os homens veem a si mesmos. Só um debate profundo sobre a virilidade nos livrará da violência potencial que um homem inseguro oferece às mulheres à sua volta.

 

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