sábado, 7 de março de 2026

PL Antifacção mal atinge o topo do crime organizado, por Daniel Cerqueira*

O Globo

Sem inteligência integrada e sem instrumentos modernos de investigação financeira, polícia e MP continuam enxugando gelo

Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 5.582, batizado PL Antifacção. Em tom de vitória, o relator anunciou:

— Aprovamos a legislação mais dura contra o crime.

A frase rende manchete, mas não resiste à leitura atenta do texto. Comparada ao substitutivo aprovado no Senado, a versão final representa menos enfrentamento estrutural e mais retórica punitiva. O resultado é um projeto que endurece o discurso, mas enfraquece os instrumentos capazes de atingir o topo das organizações criminosas.

Há cinco décadas, o Brasil insiste na mesma fórmula: aumentar penas e ampliar o encarceramento como resposta automática à violência. O alvo quase sempre é a base da pirâmide — jovens recrutados e integrantes de baixa hierarquia do crime. Enquanto isso, o andar de cima se profissionalizou. Estruturou redes sofisticadas de lavagem de dinheiro, infiltrou-se em mercados formais e investiu em conexões políticas.

O encarceramento em massa e o colapso do sistema prisional não desarticularam o crime organizado — ao contrário, fortaleceram. As facções nasceram e cresceram dentro dos cárceres. Prisão é instrumento necessário. Mas usá-la como única política pública é como ministrar antibiótico para qualquer dor de cabeça: produz resistência. As facções são as superbactérias de uma política baseada no improviso e no marketing do medo.

O texto do Senado buscava corrigir parte desse erro histórico ao priorizar inteligência, integração institucional e financiamento estável do combate ao crime organizado. A Câmara descartou pontos centrais dessa estratégia.

Foi retirada a criação do Banco Nacional de Organizações Criminosas, que permitiria mapear estruturas hierárquicas, rastrear fluxos financeiros e integrar investigações entre estados. Também foram excluídos mecanismos que ampliavam a infiltração e a coleta de dados — ferramentas essenciais para alcançar quem realmente lucra com o crime. Sem inteligência integrada e sem instrumentos modernos de investigação financeira, polícia e Ministério Público continuam enxugando gelo. Prendem operadores substituíveis, enquanto os beneficiários finais permanecem protegidos por camadas de empresas de fachada e estruturas societárias opacas.

Outro ponto revelador foi a supressão da contribuição sobre plataformas de apostas on-line, prevista no texto do Senado, que destinaria recursos bilionários ao Fundo Nacional de Segurança Pública. A retirada expõe a força do lobby das bets. A relação entre jogos de azar e crime organizado é fato histórico, documentado em diversos países. Muitas vezes, o setor serve como terreno fértil para lavagem de dinheiro. Ignorar essa dimensão é abrir mão de uma frente estratégica no enfrentamento ao crime.

Para completar, a Câmara optou por criar uma legislação paralela, com novos tipos penais, em vez de atualizar a Lei de Organizações Criminosas já existente. A fragmentação normativa tende a gerar disputas interpretativas, questionamentos judiciais e insegurança jurídica. Quanto maior a confusão legislativa, maior o espaço para nulidades e teses defensivas.

Combater crime organizado não se faz apenas com penas mais longas. Faz-se com inteligência financeira, integração de bancos de dados, cooperação interestadual, fortalecimento institucional e asfixia patrimonial. É preciso atingir fluxo de dinheiro, cadeia de comando e estrutura de poder — não apenas a mão de obra descartável.

O PL Antifacção aprovado aposta no impacto simbólico e na retórica eleitoral, mas não contribui para desarticular redes internacionais, rastrear offshores e bloquear patrimônio oculto. No fim, permanece a contradição: tigrão com a base, tchutchuca com os cabeças. E o topo do crime organizado segue agradecendo.

*Daniel Cerqueira é pesquisador do Ipea, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e coordenador do Atlas da Violência

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