A ascensão do capitalismo de Estado chinês, a
dinastia de Putin à frente da Rússia, a consolidação das monarquias e
teocracias autoritárias no Oriente Médio, a persistência de ditaduras de
esquerda em Cuba, Venezuela, Coréia do Norte e Nicarágua, o surgimento do
populismo iliberal, que tem em Trump sua maior expressão, parecem revogar o
otimismo determinista de Fukuyama.
Neste sentido, os conceitos de direita e
esquerda parecem vivos, embora embaralhados pela complexidade do mundo contemporâneo.
Há uma esquerda comprometida com a democracia e outra não. Também é assim no
espectro da direita. Também em relação à integração global e ao
multilateralismo, há posições à direita e à esquerda, na Europa, que combatem a
perspectiva europeia e o euro, na contramão do pensamento liberal e marxista. A
direita patrocinou o Brexit no Reino Unido. Mélanchon e sua França Insubmissa
sugerem, no limite, a saída do país da União Europeia. Donald Trump é a maior
negação do liberalismo, tanto em relação à democracia política quanto à
liberdade econômica de mercado. Há
liberais conservadores e conservadores liberais. Mas todos esses marcos estão
situados dentro de traços constitutivos da cultura política ocidental. Na
China, na Rússia, nos países árabes, nas experiências autoritárias de esquerda,
as categorias referenciais são outras.
Entretanto, nos países democráticos, os
conceitos de direita e esquerda, como balizas da dinâmica política e do debate
público, permanecem válidos. O grande pensador italiano Norberto Bobbio já
havia demarcado campo em seu livro, de 1994, “Direita e Esquerda: razões e
significados de uma distinção política”. Uns, mais preocupados com a liberdade individual,
com a preponderância do mercado, com a diminuição do papel do Estado. Outros,
mais atentos às desigualdades sociais, propensos à uma ação estatal mais
efetiva em busca de justiça social. Mas isso pressupõe uma clivagem anterior no
mundo atual: quem se situa no campo da democracia e quem, à direita e à
esquerda, conspira contra a democracia como valor universal e permanente. Isto
provoca, inclusive, um espaço de diálogo entre a centro-direita e a
centro-esquerda, que na Europa, por exemplo, se esforçam, respeitadas as
identidades ideológicas, para conter os polos extremados.
Tudo indica que teremos nas eleições brasileiras de 2026 a reprodução de um quadro binário de polaridade direita-esquerda. Duas coisas seriam importantes e saudáveis: que todos os atores deixassem claríssimo seu compromisso com a democracia e as regras do jogo e que surgisse um centro político forte – hoje inexpressivo – como fiel da balança e elemento de equilíbrio de nosso sistema político.

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