O Globo
Uma eventual colaboração premiada de um ou
mais envolvidos pode desnudar um esquema que o Brasil precisa expor. E superar
O escândalo do Banco Master, que o ministro Fernando Haddad, da Fazenda, já classificou como (possível) maior fraude do setor financeiro na História, é mais que isso. Cada novo capítulo destampa uma vertente da organização criminosa. Não é por acaso que a Polícia Federal (PF) pediu — e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu — a prisão de Daniel Vorcaro em unidade federal de segurança máxima. O banqueiro é poderoso a ponto de interferir nas investigações, ameaçar testemunhas ou movimentar bilhões, mas também vulnerável à brutalidade de um sistema carcerário dominado por facções, caso do PCC, em São Paulo, e do Comando Vermelho, no Rio de Janeiro.
Uma fonte do meio judicial não duvida que,
numa análise de risco, a PF tenha identificado possibilidade de retaliação. Ao
determinar a transferência de Vorcaro para Brasília, Mendonça cita riscos tanto
à segurança pública quanto à integridade física do investigado. Diferentemente
de outros episódios de liquidação extrajudicial de instituições financeiras no
Brasil, o caso Master rompeu a barreira dos paradigmas técnicos observados pelo
Banco Central, como falta de liquidez, alavancagem excessiva ou ativos
sobrevalorizados.
A bancarrota abriu um portal de artigos do
Código Penal: crimes contra o sistema financeiro, corrupção ativa e passiva,
organização criminosa, lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional,
fraude processual, obstrução de Justiça e até intimidação e monitoramento
ilegal de adversários, autoridades e jornalistas. Tudo isso consta da decisão
de Mendonça, que levou à prisão, além de Vorcaro, o cunhado dele, Fabiano
Zettel, o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva e o sicário Luiz
Phillipi Machado de Moraes Mourão, que atentou contra a própria vida sob
custódia da PF.
O Banco Master não apenas impôs ao Fundo
Garantidor de Créditos (FGC) um desembolso de, ao menos, R$ 52 bilhões,
equivalente a quase metade do patrimônio da entidade instituída para dar
segurança ao depositantes e investidores. Por si só, já era suficientemente
grave o modelo de negócio, em que o seguro para pequenos poupadores era usado
para atrair clientes seduzidos pela rentabilidade muito superior à média do
mercado. Mas o banco de Vorcaro, segundo as investigações, fez mais: fraudou
títulos, inundou fundações públicas de previdência com ativos sem garantia e
operou com, ao menos, uma gestora de recursos, a Reag, alvo da Operação Carbono
Oculto, que encontrou conexões do PCC com o setor de combustíveis e fintechs da
Faria Lima.
— É preciso deixar claro que esse não é um
caso de liquidação bancária, mas de máfia. São fraudes envolvendo crime, daí a
coordenação entre BC, PF e Ministério Público — diz uma fonte.
A rede controlada por Vorcaro — apontado, até
aqui, como chefe da organização criminosa — alcançou a estrutura do Estado.
Servidores da área de Fiscalização do BC compartilhavam informações, revisavam
minutas e documentos, orientavam o banqueiro, desde a gestão de Roberto Campos
Neto. Na política, ele influenciou a pauta do Congresso Nacional, com a
tramitação de um par de projetos de interesse próprio — felizmente fracassados.
O senador Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro,
apresentou emenda para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor coberto
pelo FGC, o que multiplicaria a capacidade de captação do Master. O Legislativo
também propôs a destituição de diretores do BC, como estratégia para forçar a
aquisição pelo BRB.
Há suspeitas plausíveis de corrupção na
relação com fundos de pensão de estados e municípios e com o banco público de
Brasília. O Rioprevidência (RJ) aplicou quase R$ 1 bilhão em letras financeiras
do banco; a Amprev (AP), R$ 400 milhões; o Maceió Previdência (AL), R$ 97
milhões. Ao BRB, uma carteira de crédito avaliada em R$ 6 bilhões — que talvez
nem exista — foi vendida pelo dobro.
Na intensa troca de mensagens com a namorada,
Vorcaro sugere relação próxima com nomes da política e do Judiciário, incluindo
ministros do STF. Há referências a reuniões, encontros e viagens — com nomes,
locais, dia e hora — com autoridades, à medida que a situação financeira e operacional
do banco se inviabilizava. O banqueiro subornava, acessava informações da
polícia e do MP, encomendava monitoramento e agressões a desafetos. De quebra,
pode estar envolvido com tráfico de mulheres estrangeiras para exploração
sexual, à moda Jeffrey Epstein. É esse o eixo de investigação que não
deslanchou.
Se investigados a sério, o conteúdo de
telefones, computadores e mídia apreendidos com Vorcaro e sua rede; o
cruzamento de informações e dados; uma eventual colaboração premiada de um ou
mais envolvidos podem desnudar um esquema que o Brasil precisa expor. E
superar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário