Valor Econômico
Reação de Teerã sinaliza que o país já
começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais poderá lhe doer:
nas urnas
Donald Trump se vangloriou dos preços baixos dos combustíveis nos EUA, no seu recente discurso sobre o Estado da União. Isso mostra como a gasolina barata é um ativo precioso para o presidente, especialmente num período de campanha eleitoral. A reação do Irã ao ataque americano sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais lhe poderá doer, nas urnas. A guerra pode logo se tornar uma disputa entre o que causa mais dano: as bombas americanas que estão caindo no Irã ou o preço subindo nas bombas de gasolina dos EUA.
O preço do petróleo tipo Brent subiu mais de
6,68% nesta segunda-feira. Mas já aumentou cerca de 22% desde meados de
janeiro, quando Trump começou a ameaçar o Irã. Nos EUA, mudanças nos preços do
petróleo costumam ser repassadas rapidamente aos consumidores. Os preços do gás
natural, outra importante commodity energética exportada pelo Oriente Médio,
também tiveram forte alta ontem. As bolsas pelo mundo caíram, pelo temor de que
o conflito se agrave e afeta a economia global.
A cotação do petróleo é possivelmente a
principal ferramenta de pressão à disposição do governo iraniano. Como o país
pode influenciar esse preço? Principalmente de duas maneiras. A primeira é
ameaçando fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam diariamente cerca de 20%
do petróleo consumido globalmente. A segunda é ameaçando a estrutura petrolífera
dos países vizinhos.
Em junho de 2025, quando os EUA e Israel
atacaram o Irã, o país reagiu timidamente, indicando que não desejava uma
escalada do conflito. E, sobretudo, Teerã evitou usar o petróleo como arma. A
cotação disparou, até atingir o pico de US$ 77,55 o barril, mas caiu
rapidamente logo em seguida.
Desta vez está sendo diferente. Segundo o
Maritime Trade Operations Centre do Reino Unido, três navios foram atacados na
região, sendo que dois deles foram atingidos. Ninguém assumiu a autoria dos ataques,
mas o Irã alertou navios a não tentaram cruzar o Estreito de Ormuz. O tráfego
estaria paralisado.
Além disso, Teerã atacou com mísseis e drones
vários países da região: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuait, Catar,
Bahrein e Iraque (Curdistão). São todos produtores de petróleo e/ou gás
natural. Assim, o governo iraniano demonstrou ser capaz de atingir alvos nesses
países. A destruição de instalações petrolíferas vitais, como centrais de
processamento e terminais de exportação, poderia convulsionar o mercado de
petróleo por um bom tempo.
Com esses ataques, o Irã aglutina os países
árabes vizinhos contra si, o que é um risco. Porém, faz também com que esses
países sofram economicamente e pressionem os EUA a encerrar a operação militar
contra Teerã. O espaço aéreo e aeroportos do Golfo Pérsico foram fechados.
Milhares de voos estão sendo cancelados. Vários governos pelo mundo estão
recomendando que seus cidadãos deixem a região.
Países que dependem de energia importada,
como os europeus, a China e a Índia, também vão sofrer com o petróleo e o gás
mais caros. Eles certamente buscarão demover o governo americano de continuar
com os ataques ao Irã por muito tempo.
Mas o foco principal dos iranianos deve ser
as bombas de gasolina nos EUA. A economia é o tema mais importante das eleições
deste ano para o Congresso americano, em especial a crise do custo de vida
(affordability é a palavra do momento no país). Altas nos combustíveis são
rapidamente repassadas aos preços de produtos e serviços, o que pode gerar um
repique da inflação. Uma alta da inflação ameaçaria a redução dos juros.
O preço da gasolina está em alta desde
janeiro nos EUA, revertendo tendência de queda que vinha de setembro. Parte
desse aumento é sazonal, mas a alta do petróleo também vem ajudando a puxar
preços. O galão de gasolina superou ontem US$ 3 dólares, pela primeira vez
desde novembro. O preço continua abaixo do de um ano atrás, mas analistas
preveem que deve continuar subindo.
Nada disso melhorará o humor dos eleitores
americanos, cuja maioria já desaprova a condução da economia por Trump. Segundo
pesquisa Reuters/Ipsos do fim de semana, 43% dos americanos condenaram o ataque
ao Irã, 27% aprovaram e 30% não tinham opinião. Esses indecisos podem se voltar
contra Trump caso os preços dos combustíveis subam.
Os EUA buscam declaradamente uma troca do
regime iraniano. Já o Irã parece ameaçar Trump com uma troca no comando do
Congresso americano. Washington pode estar apostando que os iranianos não
ousarão ir às últimas consequências ou que não terão armamento suficiente para
isso. Teerã vai tentar nestes dias demonstrar o contrário, que o regime acuado
fará qualquer coisa para se manter no poder. Quem vai piscar primeiro?

Nenhum comentário:
Postar um comentário