terça-feira, 3 de março de 2026

Lula, um olho lá, outro cá, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O que é mais explosivo para Lula, as bombas contra o Irã ou contra o Lulinha?

A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã se espalha pelo Oriente Médio, impacta as bolsas ao redor do mundo, chacoalha o preço do petróleo e, por óbvio, é um problemaço para o Brasil e para o presidente Lula. A principal preocupação de Lula no ano eleitoral, porém, não é essa. E qual seria?

Mais explosivo que a guerra para a campanha de Lula é o cerco do STF e do Congresso às peraltices de Lulinha, que admitiu a interlocutores, como registrou o Estadão, que foi o Careca do INSS quem pagou passagem e hotel para ele em Lisboa. A isso se soma a delação de um dos envolvidos, de que Lulinha recebia R$ 300 mil de mesada desse cidadão, pivô da roubalheira de aposentados e pensionistas.

São quatro os riscos para Lula: a beligerância do Congresso, a expectativa zero de que a PF passe pano, a expectativa menos dez de que o ministro André Mendonça “quebre o galho” do governo e, no fim das contas, uma onda crescente de revelações contra o seu filho.

Flávio e Jair Bolsonaro têm um passivo pesado, de golpes, rachadinhas, profusão de imóveis, mas Lula tem, além de dívidas do passado, dúvidas no presente. Segundo o presidente, se Lulinha errou, ele que pague pelo erro. Nesse caso, porém, não é só o filho que paga, é o papai candidato também, agora num ambiente internacional perverso.

Além da economia, o novo voluntarismo de Trump, sem consultar a ONU e o próprio Congresso americano, ameaça a aproximação de Lula e Trump e pode, inclusive, adiar o encontro entre os dois, previsto para este março, em Washington. Não só porque Trump está ocupado com a guerra, mas porque o Brasil condenou os bombardeios ao Irã, como a invasão da Venezuela e sucessivas posições trumpistas.

Para a oposição bolsonarista, Lula deveria fazer tudo o que seu mestre Trump mandasse e aplaudir bombas e caneladas contra Venezuela, Irã, Cuba... O Brasil, entretanto, respeita a ONU, a diplomacia e as leis internacionais e Lula acertou ao não se omitir em troca da boa vontade de Trump.

Acertou, inclusive, ao “sair à francesa” do tal “Conselho da Paz”. Lula não disse sim ou não, apenas não compareceu e deixou para lá o conselho que vinha classificando – aliás, devidamente – como uma ONU paralela para Trump chamar de sua.

Logo depois de sua primeira reunião, o conselho “da paz de Gaza” virou conselho “da guerra de todo o Oriente Médio”, com o ataque ao Irã, que responde disparando contra países que abrigam bases americanas. A grande dúvida é sobre o real poderio bélico iraniano, que vai definir a duração da guerra. Quanto mais tempo de guerra e investigações de Lulinha, pior para a reeleição.

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