O Globo
O presidente norte-americano posa de vencedor
no conflito com o Irã e aposta que a população deixará questões internas em
segundo plano na eleição
Não há no mundo falta de petróleo. O que é
previsível, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, é uma crise
logística no escoamento do Oriente Médio, que pode fazer com que os países não
tenham acesso ao petróleo e gás. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o
fluxo, o que afeta muito mais a Ásia. A Índia, por exemplo, depende
drasticamente do gás natural liquefeito do Catar, que ontem suspendeu o
fornecimento. O Catar é a Arábia Saudita do GNL, e seu gás é escoado por
navios.
Quem explica é o especialista David Zylbersztajn, professor do Departamento de Energia da PUC. Ele avalia que, neste momento, ninguém se atreveria a optar por esse caminho.
—Há, no Estreito, duas vias para navios, uma
que vai, outra que volta, cada uma com três quilômetros. Então para bombardear
um petroleiro é a coisa mais simples do mundo. Não precisa de grande
sofisticação. O Irã não precisa colocar navios ou uma força militar. De onde
está, pode bombardear. É um caminho muito estreito. Quem tem um petroleiro não
o colocará em risco. A insegurança contra a integridade do navio faz com que o
transportador não passe por lá — explica Zylbersztajn.
O conflito decorrente da morte de Ali
Khamenei pelo ataque americano-israelense encontra o mundo super ofertado de
petróleo. O barril tinha caído a níveis de US$ 60. Na última segunda-feira,
havia subido para US$ 71 já com as trombetas da guerra soando. Ontem, a cotação
do petróleo avançou e pode manter a trajetória de alta nos próximos dias. O
Citibank projeta um nível de US$ 90, mas segundo Zylbersztajn o preço não deve
se sustentar.
— Esse petróleo da segunda-feira, ou da
terça-feira, é de papel. É um preço especulativo. Nos dias seguintes, muita
gente vai ganhar dinheiro por que vendeu na alta e vai comprar mais barato. A
oferta de petróleo tem crescido três vezes mais do que a demanda.
Nas últimas décadas, a produção de petróleo
se espalhou pelo mundo. Os Estados Unidos têm seu próprio petróleo e gás. O
Brasil se tornou um exportador, tanto que ontem a ação da Petrobras subiu. Não
é mais aquele mundo que dependia totalmente do Oriente Médio, como nas crises
dos anos 1970 do século passado.
Mesmo assim, o conflito adicionou muita
incerteza à economia global. O presidente Donald Trump fala que a duração do
ataque pode ser de quatro ou cinco semanas. Isso é o suficiente para fazer um
grande estrago. O mundo não é mais tão dependente quanto já foi, mas o problema
logístico é o suficiente para afetar a economia de diversas formas.
Do ponto de vista político, o Irã está
isolado externamente e enfraquecido internamente, lembra o embaixador Rubens
Ricupero. Ele avalia que os Estados Unidos estão experimentando uma nova
estratégia, primeiro com a Venezuela e agora com o Irã, que é remover o líder.
A diferença é que enquanto no país latino, Trump não mexeu com o regime, e no
Irã, este era o objetivo declarado.
—A morte do líder não significa
automaticamente a queda do regime. No Irã não se tem uma oposição organizada,
houve movimentos espontâneos de protesto que mostraram a impopularidade do
regime, que só consegue se manter na base da repressão. Pode ser que tenha
chegado a hora desse regime que está no poder há 47 anos. Diante do poderio
americano, ninguém pode reagir. Na região, eles estão totalmente isolados. Os
vizinhos são quase todos hostis — diz o embaixador.
A situação do presidente norte-americano
também não é tão fácil. Numa guerra há sempre o imponderável. Ele não consegue
marcar a data do fim do confronto. A alta do petróleo afetará o preço interno
que, nos Estados Unidos, segue automaticamente a cotação internacional. Trump
disse que não iniciaria uma nova guerra e está fazendo o oposto do que
prometeu. Garantiu que derrubaria a inflação e está elevando o preço do
combustível na bomba. As eleições de meio de mandato podem ser um acerto de
contas desse eleitor com Trump. Por outro lado, conseguiu prender Maduro e
matar Khamenei. E, na visão de Ricupero, o próximo alvo pode ser Cuba, que
neste momento está vivendo uma aguda escassez de tudo. Trump joga com a aposta
de que o eleitor esquecerá seu envolvimento nos arquivos de Jeffrey Epstein,
seu desrespeito à Constituição dos Estados Unidos, os assassinatos de
americanos pela sua polícia migratória. Neste momento, todos os olhos estão no
Irã e Trump posa de vencedor.

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