terça-feira, 3 de março de 2026

Aposta de Trump na guerra do Irã, Por Míriam Leitão

O Globo

O presidente norte-americano posa de vencedor no conflito com o Irã e aposta que a população deixará questões internas em segundo plano na eleição

Não há no mundo falta de petróleo. O que é previsível, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, é uma crise logística no escoamento do Oriente Médio, que pode fazer com que os países não tenham acesso ao petróleo e gás. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o fluxo, o que afeta muito mais a Ásia. A Índia, por exemplo, depende drasticamente do gás natural liquefeito do Catar, que ontem suspendeu o fornecimento. O Catar é a Arábia Saudita do GNL, e seu gás é escoado por navios.

Quem explica é o especialista David Zylbersztajn, professor do Departamento de Energia da PUC. Ele avalia que, neste momento, ninguém se atreveria a optar por esse caminho.

—Há, no Estreito, duas vias para navios, uma que vai, outra que volta, cada uma com três quilômetros. Então para bombardear um petroleiro é a coisa mais simples do mundo. Não precisa de grande sofisticação. O Irã não precisa colocar navios ou uma força militar. De onde está, pode bombardear. É um caminho muito estreito. Quem tem um petroleiro não o colocará em risco. A insegurança contra a integridade do navio faz com que o transportador não passe por lá — explica Zylbersztajn.

O conflito decorrente da morte de Ali Khamenei pelo ataque americano-israelense encontra o mundo super ofertado de petróleo. O barril tinha caído a níveis de US$ 60. Na última segunda-feira, havia subido para US$ 71 já com as trombetas da guerra soando. Ontem, a cotação do petróleo avançou e pode manter a trajetória de alta nos próximos dias. O Citibank projeta um nível de US$ 90, mas segundo Zylbersztajn o preço não deve se sustentar.

— Esse petróleo da segunda-feira, ou da terça-feira, é de papel. É um preço especulativo. Nos dias seguintes, muita gente vai ganhar dinheiro por que vendeu na alta e vai comprar mais barato. A oferta de petróleo tem crescido três vezes mais do que a demanda.

Nas últimas décadas, a produção de petróleo se espalhou pelo mundo. Os Estados Unidos têm seu próprio petróleo e gás. O Brasil se tornou um exportador, tanto que ontem a ação da Petrobras subiu. Não é mais aquele mundo que dependia totalmente do Oriente Médio, como nas crises dos anos 1970 do século passado.

Mesmo assim, o conflito adicionou muita incerteza à economia global. O presidente Donald Trump fala que a duração do ataque pode ser de quatro ou cinco semanas. Isso é o suficiente para fazer um grande estrago. O mundo não é mais tão dependente quanto já foi, mas o problema logístico é o suficiente para afetar a economia de diversas formas.

Do ponto de vista político, o Irã está isolado externamente e enfraquecido internamente, lembra o embaixador Rubens Ricupero. Ele avalia que os Estados Unidos estão experimentando uma nova estratégia, primeiro com a Venezuela e agora com o Irã, que é remover o líder. A diferença é que enquanto no país latino, Trump não mexeu com o regime, e no Irã, este era o objetivo declarado.

—A morte do líder não significa automaticamente a queda do regime. No Irã não se tem uma oposição organizada, houve movimentos espontâneos de protesto que mostraram a impopularidade do regime, que só consegue se manter na base da repressão. Pode ser que tenha chegado a hora desse regime que está no poder há 47 anos. Diante do poderio americano, ninguém pode reagir. Na região, eles estão totalmente isolados. Os vizinhos são quase todos hostis — diz o embaixador.

A situação do presidente norte-americano também não é tão fácil. Numa guerra há sempre o imponderável. Ele não consegue marcar a data do fim do confronto. A alta do petróleo afetará o preço interno que, nos Estados Unidos, segue automaticamente a cotação internacional. Trump disse que não iniciaria uma nova guerra e está fazendo o oposto do que prometeu. Garantiu que derrubaria a inflação e está elevando o preço do combustível na bomba. As eleições de meio de mandato podem ser um acerto de contas desse eleitor com Trump. Por outro lado, conseguiu prender Maduro e matar Khamenei. E, na visão de Ricupero, o próximo alvo pode ser Cuba, que neste momento está vivendo uma aguda escassez de tudo. Trump joga com a aposta de que o eleitor esquecerá seu envolvimento nos arquivos de Jeffrey Epstein, seu desrespeito à Constituição dos Estados Unidos, os assassinatos de americanos pela sua polícia migratória. Neste momento, todos os olhos estão no Irã e Trump posa de vencedor.

 

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