terça-feira, 3 de março de 2026

A guerra em quatro pensamentos, por Thomas Friedman

O Estado de S. Paulo

A queda do regime iraniano contribuiria para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva, mas não será fácil derrubá-lo

Devemos lembrar das ameaças à democracia e ao estado de direito de Trump e Netanyahu em seus países

Queda do regime melhoraria o Oriente Médio, mas não será fácil derrubá-lo.

Para pensar com clareza sobre guerras no Oriente Médio, é preciso raciocinar com vários cenários em mente. Falamos de uma região complexa e caleidoscópica, onde religião, petróleo, políticas tribais e políticas de grandes potências se entrelaçam. Se você busca uma narrativa maniqueísta, talvez seja melhor consultar outras fontes. Eis meus quatro pensamentos sobre Irã – ao menos até hoje.

1. Primeiro, espero que esse esforço para derrubar o regime clerical de Teerã seja bem-sucedido. Trata-se de um regime que assassina seu povo, desestabiliza vizinhos e destruiu uma grande civilização. Nenhum evento isolado contribuiria mais para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança com foco exclusivo em capacitar o povo iraniano para realizar seu pleno potencial, com uma voz real, em seu próprio futuro.

2. Segundo, isso não será fácil, porque o regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado por meio apenas de uma ofensiva aérea. Israel não conseguiu eliminar o Hamas em Gaza após mais de dois anos de uma guerra implacável por terra e ar – eo Hamas está bem ao lado. Dito isto, mesmo que não ocasione a revolta do povo iraniano que o presidente Trump tanto incentiva, este ataque contra o Irã poderá surtir outros efeitos benéficos e imprevistos, como a criação de uma república islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e seus vizinhos. Mas também pode resultar em perigos imprevistos, como a desintegração do Irã enquanto ente geográfico único.

3. Em terceiro lugar, devemos lembrar que o momento do fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e financeiros quanto pela situação militar interna do Irã. O Irã está à beira do colapso econômico, com uma moeda que não vale quase nada. A Europa tornouse muito mais dependente do gás natural liquefeito do Golfo Pérsico para sustentar suas economias, desde que reduziu as compras da Rússia. Uma onda inflacionária prolongada, causada pelo aumento dos preços da energia, irritaria a base de Trump, onde muitos já não gostam de ser arrastados para mais uma guerra no Oriente Médio. Há muita gente desejando que esta guerra seja curta, e isso influenciará como e quando Trump e Teerã negociarão.

4. Em quarto lugar, não devemos permitir que esta guerra – para levar democracia e estado de direito ao Irã – nos distraia da ameaça à democracia e ao estado de direito representada por Trump nos EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em Israel. Trump quer promover esses ideais em Teerã mesmo enquanto seus agentes do ICE atuaram por dois meses com pouco respeito às leis em meu estado natal, Minnesota, e enquanto ele cogita restringir eleitores em nossa próxima eleição. A guerra no Irã permitir que Netanyahu vença as eleições israelenses planejadas para este ano será um grande impulso para seus esforços de anexar a Cisjordânia, enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um Estado de apartheid – um grande golpe para os interesses americanos na região além do Irã.

O fim desta guerra será determinado tanto pela economia quanto pela situação militar interna do Irã

A vida de colunista seria fácil se todo conflito fosse a Guerra Civil Americana e todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então analisemos um pouco mais a fundo essas quatro reflexões sobre o Irã.

Embora você jamais soubesse se desse ouvidos à esquerda universitária, a república islâmica do Irã é a maior potência imperialista da região desde 1979, cultivando aliados para controlar Síria, Líbano, Iraque e Iêmen – minando reformistas progressistas e promovendo divisões sectárias nos quatro.

O enfraquecimento de Teerã, graças aos golpes contundentes de Israel e EUA nos dois anos recentes, levou à queda do regime de Bashar Assad na Síria e permitiu ao Líbano escapar do domínio do Hezbollah, o que, por sua vez, abriu espaço para o governo mais decente do país em décadas – liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph Aoun. É por isso que a morte do aiatolá Ali Khamenei está sendo celebrada, discretamente ou ruidosamente, em toda a região.

Além disso, o povo iraniano está entre os mais pró-Ocidente da região. Se esse impulso for capaz de emergir e se espalhar, substituindo o veneno sectário e radical islâmico propagado pelo regime iraniano, haverá possibilidade de um Oriente Médio muito mais inclusivo.

INDIGNAÇÃO. Como me disse o estrategista Nadim Koteich, não é por acaso que um dos cânticos mais populares dos manifestantes antirregime no Irã seja: “Nada de Gaza, nada de Líbano. Minha vida pelo Irã”. Muitos iranianos estão revoltados ao ver seus recursos desperdiçados em milícias que lutam contra Israel. Também não é por acaso, observou Koteich, que o Irã acaba de lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados árabes do Golfo em processo de modernização.

“Eles estão atacando a infraestrutura de abertura e integração e os Acordos de Abraão. O velho Oriente Médio atacando o novo Oriente Médio”, acrescentou Koteich. A morte de Khamenei,

tomara, “representa a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio deveria se definir pela resistência e não por inclusão e integração”.

Tomara também que isso acabe com o jogo duplo praticado por Khamenei e seus antecessores, como Mahmoud Ahmadinejad – que foi presidente do Irã de 2005 a 2013 e também foi morto em um ataque aéreo israeloamericano – de que o Irã tem o direito de gritar abertamente “Morte aos EUA” e “Morte a Israel” e, ao mesmo tempo, alegar que também tem o direito de ser tratado como a Dinamarca, ou enriquecer urânio para fins “pacíficos”.

Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse jogo.

Quanto à união do povo iraniano para derrubar o regime, é difícil imaginar que isso aconteça em breve sem um líder claro e uma agenda comum.

TEOCRACIA 2.0. Analistas iranianos dizem que o resultado mais provável é uma espécie de república islâmica 2.0, na qual os principais reformistas – como Hassan Rohani, o sétimo presidente do Irã, de 2013 a 2021, um crítico cada vez mais ferrenho da linha-dura de Khamenei, ou o ex-chanceler e negociador nuclear Javad Zarif – pressionem a liderança remanescente a negociar um acordo com Trump. Esse pacto poderia incluir o fim do programa nuclear iraniano e limites às suas guerras por procuração e mísseis balísticos – em outras palavras, tudo o que Trump quiser – em troca do fim das sanções econômicas e da sobrevivência do regime.

Essa república islâmica 2.0 poderia então ser capaz de organizar uma transição para uma democracia verdadeira. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de dar uma tábua de salvação a um regime moribundo que recentemente matou pelo menos 6,8 mil manifestantes, segundo a agência de notícias Human Rights Activists, sediada nos EUA, provavelmente muito mais. Em outras palavras, iniciar esta guerra foi relativamente fácil; encerrá-la será difícil.

NEGOCIAÇÃO. Mas um acordo desse tipo pode ser tentador para Trump, por evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada pela disparada dos preços do petróleo ou a desintegração do Irã. Por isso, não me surpreendeu ouvir Trump dizer à revista The Atlantic: “Eles querem conversar, e eu concordei, então vou conversar com eles”.

Como já observei nesta coluna, no Oriente Médio, o oposto de autocracia não é necessariamente democracia. Com frequência é desordem. Porque quando ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece: ou elas implodem, como a Líbia, ou explodem, como a Síria.

Os persas representam apenas cerca de 60% da população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente azerbaijanos, curdos, luros, árabes e balúchis. Cada uma delas tem ligações com terras fora do Irã, especialmente os azerbaijanos com o Azerbaijão e os curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um a se separar e, na prática, explodir o Irã.

DESMEMBRAMENTO. O Irã testemunhou o colapso de governos e quedas de governantes ao longo de sua história. Em todas as ocasiões, “o país permaneceu intacto”, disse Koteich. “Pela primeira vez, não tenho certeza se o Irã permanecerá intacto.”

Se você quer o barril do petróleo a US$ 150, esse tipo de desintegração ocasionaria isso. As exportações de petróleo do Irã – de 1,6 milhão de barris diários, destinados principalmente à China – seriam completamente retiradas do mercado global. Cerca de 20% de todo o comércio de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, que o Irã tem capacidade de fechar. Os preços dos seguros para navios petroleiros já estão disparando, e cerca de 150 petroleiros no Golfo Pérsico estariam parados.

Enquanto isso, em Pequim, o presidente Xi Jinping deve estar se perguntando como seus sistemas de armas se comparariam aos fornecidos pelos EUA a Taiwan, depois de ver caças e mísseis inteligentes de fabricação americana burlar facilmente ou destruir os sistemas antiaéreos iranianos, de origem russa, e matar grande parte da elite de segurança nacional do Irã dentro de suas casas e escritórios. Talvez não seja esta a semana para invadir Taiwan – nem a próxima.

Mas esta pode ser uma boa semana para Pequim ver todo o povo iraniano dançando espontaneamente nas ruas para celebrar a morte de Khamenei e se perguntar se a República Popular da China deveria ter sustentado seu regime com compras de petróleo durante todos esses anos. Talvez devesse ter estado do lado do povo iraniano.

URNAS. É muito cedo para prever como esta guerra influenciará duas eleições cruciais este ano – em Israel e nos EUA. Para Trump, a coisa é simples. Ele não quer ver seu nome associado com a palavra “atoleiro” em nenhuma manchete antes das eleições de meio de mandato, em novembro. Quanto a Netanyahu, posso imaginá-lo convocando eleições antecipadas para usar a queda do regime iraniano para se manter no poder. Mas uma vitória sobre o Irã também poderia complicar sua política.

Netanyahu derrotou militarmente a curto prazo o Hamas, a Jihad Islâmica, o Hezbollah e o Irã, mas não transformou nenhuma dessas vitórias em ganhos diplomáticos ou políticos de longo prazo. Para isso, ele precisaria concordar em negociar novamente com os palestinos com base na estrutura de dois Estados para dois povos.

A oportunidade para Israel pode ser enorme: se a república islâmica do Irã for derrubada ou enfraquecida, não tenho dúvidas de que Arábia Saudita, Líbano, Síria, Omã, Catar, Kuwait e talvez até o Iraque se sentiriam muito mais confortáveis em normalizar as relações com Israel – sob a condição de que Netanyahu não anexe Gaza nem a Cisjordânia, mas concorde com um plano de separação e uma solução de dois Estados. Netanyahu aproveitará essa oportunidade? Os eleitores israelenses o puniriam se ele não o fizer?

Mas estou me adiantando. Imagino que até amanhã haverá pelo menos mais três pontos em competição na minha cabeça tentando dar sentido a isso tudo, porque este é o momento mais imprevisível no Oriente Médio desde a revolução iraniana de 1979. Tudo – e o contrário disso – é possível.

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