Por Amado Mundo/Matinal (GO)
Socióloga e vereadora de Goiânia pelo PSB,
Aava Santiago, que é cristã pentecostal, critica relação da esquerda com
religiosos e diz que eleitor evangélico está cansado do histrionismo de
Malafaia e da ostentação de André Valadão
O Palácio do Planalto traçou uma linha clara
para as próximas eleições: não é possível governar o Brasil de 2026 ignorando
que o “valor família” é o amálgama que une brasileiros independentemente da vertente
ideológica. Desde as eleições de 2022, o governo de Lula tem operado uma
diplomacia silenciosa para reduzir os índices de rejeição de evangélicos e
conservadores ao seu nome, utilizando reuniões estratégicas, diálogo direto com
lideranças e a interlocução com nomes que transitam bem no meio religioso.
No entanto, a comunicação governamental segue enfrentando o desafio das “guerras culturais”. O recente desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente no carnaval do Sambódromo do Rio, tornou-se combustível para a oposição com a ala “Família em Conserva”, uma crítica aos conservadores, mais alinhados à direita.
O impacto foi mensurado: um estudo da agência Ativaweb registrou 28,9
milhões de menções ao tema nas redes sociais, revelando que 70,7% das
interações foram negativas, associadas a críticas aos supostos ataques a
valores religiosos e familiares. Em contrapartida, apenas 21,8% defenderam o
desfile como liberdade artística.
“Nós falhamos quando deixamos que a extrema
direita conseguisse emplacar a tese de que eles é que fazem a defesa da
família”, analisa a vereadora do PSB Aava
Santiago, de Goiânia, em entrevista ao Matinal da sexta-feira
(27). Segundo ela, que se declara cristã pentescostal, as famílias
brasileiras não são um patrimônio exclusivo dos conservadores.
Sobre as perspectivas para o comportamento do
eleitor conservador nas eleições deste ano, Santiago foi taxativa: “O eleitor
evangélico está estafado da performance histriônica do Silas Malafaia e da
ostentação faraônica do André Valadão”.
Leia abaixo os principais trechos da
entrevista
Como você avalia os acenos
que o presidente Lula tem feito ao segmento evangélico até agora?
Eu avalio que processos simultâneos
aconteceram. O bolsonarismo instalou uma crise de liderança eclesiástica
dentro das nossas igrejas. Passada a eleição de 2022, a vida se impõe
sobre a histeria. As demandas reais não desaparecem junto com a mentira da
“mamadeira de piroca” ou com o fantasma do comunismo. O governo acertou em
cheio com entregas como o pleno emprego e a isenção do IR para quem ganha até
R$ 5 mil, porque somos uma maioria de periféricos. A indicação do ministro
Jorge Messias [ao Supremo Tribunal Federal]
também foi um golaço, pois ele é um homem de extrema confiança do presidente e
respeitado pelos evangélicos. Os avanços são inegáveis, mas ainda
insuficientes.
O episódio da “Família em
Conserva” no Carnaval foi um erro tático para essa aproximação?
Acho que a escola quis surfar no hype do presidente Lula. Mas precisava da ala da família? Não precisava. Embora a crítica faça sentido, pois muitos que se dizem defensores da família operam contra a redução da jornada de trabalho e contra o Bolsa Família, esse era o ponto mais sensível. Eu disse ao presidente: o senhor precisa assumir politicamente a defesa da família, porque é isso que o seu governo faz. Essa crise é produto da falta de reflexão das esquerdas sobre a urgência de que a gente diga que nós somos as famílias brasileiras, nós defendemos as famílias brasileiras, nós amamos as famílias brasileiras. As famílias brasileiras não são um patrimônio dos conservadores.
Por que existe um “muro” tão
alto entre a esquerda e os evangélicos hoje?
Evangélicos são cidadãos múltiplos e
complexos. A fé é apenas um aspecto da vida, não o único. Historicamente,
nós fomos alvo tanto da elite burguesa quanto da elite intelectual de
esquerda. Éramos chacota. Eu me lembro de ouvir na escola: “Lá vai a
crente trouxa que dá o dízimo”. Em 2022, a Benedita da Silva começou a
chorar comigo dizendo que, 40 anos depois, eu passava pela mesma coisa que ela:
apanhava na igreja por estar no PT e apanhava no PT por ser da igreja. A
esquerda foi incapaz de, ao longo de quatro décadas, refletir sobre os “Brasis
de fé”.
Qual a sua perspectiva para o
comportamento desse eleitor nas urnas este ano?
O eleitor evangélico está estafado da performance histriônica do Silas Malafaia e da ostentação faraônica do André Valadão. Existe um cansaço com esses nomes midiáticos. O bolsonarismo exige uma adesão integral quase religiosa, e isso gerou descrédito entre as lideranças mais sérias. Agora, os outros campos da política precisam saber trabalhar esse cansaço, mostrando que esse modelo de fazer política associando a fé evangélica à extrema-direita é um modelo que só serve para manter poucas pessoas no poder operando grandes fortunas.

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