Folha de S. Paulo
A conferir se as pesquisas registram uma
tendência ou só captaram um momento ruim para o governo
Seja como for, presidente perdeu a aura de
imbatível e deve a isso à ação do ego inflado, seu pior inimigo
Aguardemos as próximas pesquisas para
conferir se as primeiras depois do desastroso Carnaval apontaram
uma tendência ou se apenas captaram um mau momento para o governo.
Seja como for, um dado é inquestionável: Luiz Inácio da Silva (PT) perdeu a aura de imbatível e pode perder o lugar de favorito habitualmente reservado aos ocupantes do poder. Escrita quebrada na derrota de Jair Bolsonaro, em 2022, e sinal de que o instituto da reeleição não tem taxa de sucesso garantido.
É cedo para constatações definitivas, mas o
cenário traz de volta a questão sobre a permanência do presidente na disputa,
dúvida afastada por ele mesmo depois que os erros dos adversários no ambiente
do tarifaço lhe deram a chance de recuperação.
A oportunidade pode, ou não, ter sido perdida
no embalo da bajulação afrontosa
na Sapucaí. Ali houve de fato um desperdício, cuja extensão está para ser
demonstrada, a depender de vários fatores, sendo o principal o comportamento
de Lula.
Ele é bom no quesito volta por cima, mas tem
no ego inflado um inimigo. O excesso de autoconfiança faz mal à análise da
conjuntura e favorece o autoengano. O presidente tem de si uma imagem que não é
a mesma projetada nas lentes de metade da população.
Não vivesse a ilusão da quase unanimidade de
anos atrás, Lula teria tido ao menos alguma desconfiança de que o candidato e o
presidente deveriam brincar separados no ambiente transgressor do Carnaval.
Antes disso, a suposição de que está acima
das críticas já havia levado o presidente a agir ao arrepio da lei, que veda ao
governante o uso do aparelho de Estado, patrimônio público, em prol do
interesse individual. No caso, eleitoral. O episódio do desfile chamou atenção
para o que até então era tratado na base da cegueira deliberada e ainda
contrariou setores que precisariam ser conquistados.
Resultado: recuou casas na escala de intenção
de votos e cedeu espaço ao adversário. Só por achar que estava abafando e, como
vemos, não é bem assim.

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