terça-feira, 3 de março de 2026

Irã entre a ditadura e a paz americana, por Fernando Gabeira

O Globo

A tática dos EUA é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais

Quem tem memória lembra bem a guerra do Iraque. Colin Powell foi à ONU com umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça. Agora, Donald Trump, de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à segurança do povo americano.

Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.

Neste momento em que todos buscam notícias e em que, como no início de guerras, elas são muito desencontradas, creio ser possível demonstrar um tipo de angústia que domina os iranianos. Eu intuía isso, mas escrevo agora baseado em depoimentos deles, postados no fim de semana passado. Um desses depoimentos diz:

— Como iraniano, posso afirmar que a situação não é mais apenas política, mas existencial. Caímos numa armadilha de duas estruturas em colapso, uma interna, outra externa.

O depoimento mostra que a esperança interna foi dissipada pela constante repressão às tentativas de reforma. Mas acentua aí o paradoxo: estão aterrorizados pelo colapso do regime injusto porque conhecem os resultados das intervenções ocidentais em países como Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão.

O depoimento afirma ainda que os iranianos não confiam nos Estados Unidos e em Israel. Não porque apoiem o regime repressor do Irã, mas porque sabem como os poderes imperiais tratam as nações “liberadas” do Oriente Médio.

O que aparece para muitos iranianos é um dilema entre a terrível repressão dos aiatolás e a alternativa oferecida pelos ocidentais, que não é liberação, mas colapso. Para eles, o país é refém de um regime, como se vivessem numa casa de ódio, aterrorizados pelo fogo exterior — pelo destino de seus vizinhos.

Essa visão interna do Irã nos ajuda a compreender como é difícil obter um dos objetivos de Trump: a mudança de regime. Uma chuva de bombas, inclusive algumas que atingem escolas e hospitais, não consegue mudar o regime, mesmo matando seu líder máximo, um homem velho e doente, cuja substituição já era preparada.

No fundo, a política externa de Trump usa o termo mudança de regime como retórica. A tática é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais, como na Venezuela. Trump inaugurou uma política de violência, baseada em intimidação, bombardeio e ações de comando. Mas tem uma limitação evidente: seus eleitores não perdoariam as botas no terreno, uma invasão real.

Alguns do movimento Make America Great Again já não apoiam nem a própria guerra do Irã, vista como de interesse apenas de Israel.

 

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