quarta-feira, 29 de abril de 2026

A briga pelas expectativas, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

A desancoragem das expectativas de inflação é ameaça que paira sobre a decisão do Copom

Paira uma ameaça iminente sobre a decisão do Copom de hoje: a desancoragem das expectativas de inflação. A esmagadora maioria dos analistas aposta em um corte de 0,25 ponto porcentual da taxa Selic, para 14,50%, mas o que está em jogo é o que o Banco Central irá sinalizar no comunicado sobre os próximos passos da política monetária. O tom da mensagem será decisivo para interromper ou não a piora recente nas projeções de inflação para 2026 e 2027.

O impacto da guerra no Irã – a disparada no preço do petróleo e de outros insumos importantes, como fertilizantes – contribuiu para o salto nas estimativas para o IPCA deste ano, contaminando, por tabela, as previsões para 2027. Na semana que antecedeu o início do conflito no Oriente Médio, a pesquisa Focus mostrava uma projeção de 3,91% para a inflação deste ano. Agora, essa estimativa subiu para 4,86%, acima do teto da meta perseguida pelo BC. E essa é a mediana das previsões. Há quem projete inflação acima de 5% em 2026. Para 2027, a expectativa subiu de 3,80% para 4,0%.

Sem falar que a inflação corrente vem surpreendendo para cima, mesmo com os analistas já esperando maior pressão dos preços de combustíveis. O IPCA de março, que subiu 0,88%, superou até a projeção mais pessimista do mercado para o mês (alta de 0,82%).

O IPCA de fevereiro (alta de 0,70%) também veio pior do que o consenso do mercado e perto do teto das projeções (de 0,72%). Ou seja, dois meses de números muito ruins dos índices de preços.

É bom lembrar que, na sua última reunião, em março, o Copom foi criticado por ter sido bastante tímido na sua projeção de inflação para o horizonte relevante da política monetária, o terceiro trimestre de 2027. Esse número foi revisado de 3,2% para apenas 3,3%. Há, agora, uma ansiedade do mercado em relação a uma revisão maior dessa projeção de IPCA. Aliás, a expectativa de inflação do Copom para 2026 também está bem defasada: 3,9%. Outro ponto de atenção é como será a avaliação do BC sobre a atividade econômica, cujos dados no primeiro trimestre do ano vêm apontando para uma reaceleração – ao contrário da visão do Copom na última reunião.

Assim, não há outra opção a não ser uma mensagem mais dura no comunicado, incluindo a projeção de inflação e a avaliação sobre o ritmo da economia. Isso vai dar pistas sobre o tamanho total do ciclo atual de corte de juros. O mercado prevê a Selic em 13% ao fim do ano. Mas a esse nível, as projeções de IPCA seguem acima da meta na pesquisa Focus. Na briga pelas expectativas, quão duro precisará ser o Copom?

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