quarta-feira, 29 de abril de 2026

O dia D de Messias, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Indicado ao Supremo pode pagar por fatores alheios à sua biografia, como apetite de Alcolumbre e proximidade da eleição

Depois de cinco meses de espera, Jorge Messias enfrenta hoje seu dia D no Senado. O indicado de Lula ao Supremo foi avisado de que a sabatina será dura. Aliados projetam um placar apertado, com poucos votos a mais que os 41 necessários para aprová-lo.

Ontem à noite, governistas ainda admitiam o risco de uma zebra na votação secreta. Seria uma derrota histórica para o Planalto. Desde 1894, na República da Espada, o Senado não barra uma nomeação para a Suprema Corte.

Servidor de carreira, Messias ascendeu como quadro do petismo. Foi secretário de Assuntos Jurídicos de Dilma, quando ganhou fama involuntária ao ser chamado de “Bessias” num grampo da Lava-Jato. No governo Bolsonaro, refugiou-se no Senado como assessor de Jaques Wagner.

Com a volta de Lula ao poder, assumiu a Advocacia-Geral da União e virou homem de confiança do presidente. Enquanto exercia o cargo, doutorou-se na Universidade de Brasília com uma tese repleta de elogios ao chefe.

A oposição citou esses dados biográficos para criticar a escolha de Messias. Mas as dificuldades do indicado têm pouco a ver com sua trajetória pessoal ou com o preenchimento dos requisitos constitucionais de notável saber jurídico e reputação ilibada.

A indicação ficou na geladeira porque o senador Davi Alcolumbre queria um ministro para chamar de seu. Ele tentou emplacar o aliado Rodrigo Pacheco, que também contava com apoio dos supremos Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.

Contrariado com a negativa de Lula, o presidente do Senado passou a criar problemas para Messias. O impasse foi parcialmente contornado com a barganha de cargos e emendas. Em nota, Alcolumbre disse que as tratativas com o governo foram “estritamente republicanas”.

Além de enfrentar o apetite do senador, o indicado arrisca pagar por outros fatores alheios à sua biografia — da proximidade da eleição ao clima de animosidade contra o Judiciário. Curiosamente, o avanço do caso Master pode ajudar Messias. Senadores que tenderiam a rejeitá-lo devem pensar duas vezes diante do risco de ganhar um desafeto no Supremo.

 

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