O Globo
Indicado ao Supremo pode pagar por fatores
alheios à sua biografia, como apetite de Alcolumbre e proximidade da eleição
Depois de cinco meses de espera, Jorge
Messias enfrenta hoje seu dia D no Senado. O indicado de Lula ao Supremo foi
avisado de que a sabatina será dura. Aliados projetam um placar apertado, com
poucos votos a mais que os 41 necessários para aprová-lo.
Ontem à noite, governistas ainda admitiam o
risco de uma zebra na votação secreta. Seria uma derrota histórica para o
Planalto. Desde 1894, na República da Espada, o Senado não barra uma nomeação
para a Suprema Corte.
Servidor de carreira, Messias ascendeu como quadro do petismo. Foi secretário de Assuntos Jurídicos de Dilma, quando ganhou fama involuntária ao ser chamado de “Bessias” num grampo da Lava-Jato. No governo Bolsonaro, refugiou-se no Senado como assessor de Jaques Wagner.
Com a volta de Lula ao poder, assumiu a
Advocacia-Geral da União e virou homem de confiança do presidente. Enquanto
exercia o cargo, doutorou-se na Universidade de Brasília com uma tese repleta
de elogios ao chefe.
A oposição citou esses dados biográficos para
criticar a escolha de Messias. Mas as dificuldades do indicado têm pouco a ver
com sua trajetória pessoal ou com o preenchimento dos requisitos
constitucionais de notável saber jurídico e reputação ilibada.
A indicação ficou na geladeira porque o
senador Davi Alcolumbre queria um ministro para chamar de seu. Ele tentou
emplacar o aliado Rodrigo Pacheco, que também contava com apoio dos supremos
Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.
Contrariado com a negativa de Lula, o
presidente do Senado passou a criar problemas para Messias. O impasse foi
parcialmente contornado com a barganha de cargos e emendas. Em nota, Alcolumbre
disse que as tratativas com o governo foram “estritamente republicanas”.
Além de enfrentar o apetite do senador, o
indicado arrisca pagar por outros fatores alheios à sua biografia — da
proximidade da eleição ao clima de animosidade contra o Judiciário.
Curiosamente, o avanço do caso Master pode ajudar Messias. Senadores que
tenderiam a rejeitá-lo devem pensar duas vezes diante do risco de ganhar um
desafeto no Supremo.

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