Valor Econômico
Entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai se consolidando a percepção de que Flávio Bolsonaro apresenta dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu viabilizar-se
Há uma inquietação na caserna quanto ao
futuro do Ministério da Defesa em um eventual governo Lula 4.
Sim, há muito jogo pela frente até a eleição.
E o “imponderável” tem mantido presença nas eleições presidenciais brasileiras,
com a ocorrência de eventos de grande magnitude que mudam os rumos da campanha.
Mas entre militares, agentes do mercado e dirigentes partidários de centro vai
se consolidando a percepção de que o senador Flávio Bolsonaro (PL) apresenta
dificuldades para reagir e a chamada “terceira via” ainda não conseguiu
viabilizar-se.
Como consequência, embora possa parecer precoce, militares, investidores e políticos que pretendem estar no próximo governo de qualquer maneira passaram a produzir o que sabem fazer muito bem: cenários.
Essas discussões, aliás, também prosperam em
gabinetes da Esplanada. “O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem plena
confiança do chefe, mas pode permanecer no cargo a partir de janeiro? Ou
Gabriel Galípolo sai do Banco Central para a Fazenda?”, ouve-se aqui. “O
ministro do Planejamento, Bruno Moretti, que é uma referência ascendente da ala
desenvolvimentista do partido, daria continuidade ao projeto de onde está ou
tende a receber outra missão?”, escuta-se acolá. Em relação à pasta da Defesa,
porém, a informação corrente é que o ministro José Múcio Monteiro não fica no
cargo sob hipótese alguma.
As turbulências podem começar antes mesmo do
fim do governo, pois a expectativa é que o Superior Tribunal Militar (STM)
avance no julgamento dos oficiais condenados por tentativa de golpe de Estado
logo depois das eleições.
Mas existem outros temas delicados sobre a
mesa. Entre os militares, também existe o receio de que um quarto mandato do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja mais à esquerda. Preocupa a
possibilidade de retomada de iniciativas consideradas “revanchistas”, como a
Comissão da Verdade.
O compromisso público feito recentemente por
Lula de que colocará a defesa nacional pela primeira vez em seu programa de
governo não afasta a apreensão com a falta de orçamento para a aquisição de
armas e equipamentos. Sempre há uma distância entre o discurso de defesa da
soberania com a prática.
Múcio mantém interlocução privilegiada com o
Congresso e canal direto com o presidente da República. Conseguiu emplacar o
projeto de lei complementar que prevê R$ 30 bilhões (fora das regras fiscais)
para os projetos estratégicos das Forças Armadas nos próximos anos, mas mesmo
assim os recursos deste ano ainda não chegaram na ponta. O Ministério da Defesa
foi o mais afetado pelo bloqueio orçamentário realizado no mês passado.
Há gestões para que a situação seja revertida
à medida que a equipe econômica atualize a situação das receitas e despesas no
decorrer do ano, mas está claro que o ano que vem será ainda mais duro. A força
política do próximo ministro dentro do governo será vital.
Outro tema sensível que inevitavelmente
entrará em pauta será o chamado sistema de proteção social dos militares,
diante da perspectiva de que uma nova reforma previdenciária precise ser
discutida.
A atual equipe econômica tentou vincular a
liberação dos recursos para as Forças Armadas a ajustes no atual modelo do
sistema, mas não houve acordo. O Ministério da Defesa, por sua vez, quis
antecipar-se ao debate para conseguir conduzir o processo e ter mais margem de
negociação, porém também não houve concordância por parte dos militares.
A participação das Forças Armadas no combate ao
crime organizado é mais um tema sensível no horizonte. Existe um consenso,
entre militares, que os próximos anos serão cruciais para que se evite uma
“mexicanização” das facções. Em outras palavras, a replicação, no Brasil, da
forma de operação dos cartéis mexicanos: uso indiscriminado da violência,
ataques às forças de segurança, infiltração estatal e domínio de territórios. E
a pergunta que se faz aqui, além da ampliação da capacidade operacional de
defesa das fronteiras, é se o presidente Lula irá rever sua resistência à
realização de operações de garantia da lei e da ordem (GLOs). O próximo
ministro da Defesa deve enfrentar o debate sobre mecanismos de proteção e
responsabilização dos militares que participarem dessas operações.
Reeleito, Lula terá dois caminhos pela
frente. O primeiro é nomear alguém com o perfil de Múcio, que dialogue com a
parcela mais conservadora da sociedade e consiga desatar nós em diversos fronts
de batalha - dentro das Forças e nos demais Poderes, por exemplo. Neste caso,
permanecem no radar nomes já citados quando foi cogitada a saída de Múcio do
atual governo, como o do vice-presidente Geraldo Alckmin e do ministro do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa.
A outra opção seria escolher alguém do PT.
Alexandre Padilha, atualmente à frente da Saúde, também já foi citado naquelas
mesmas circunstâncias. Trabalhou com Múcio na Secretaria de Relações
Institucionais da Presidência, antes de ele próprio assumir a articulação
política do Planalto. Tem lugar reservado no primeiro escalão na próxima
administração, no caso de vitória petista em outubro, pois desistiu de
concorrer a deputado federal para servir a Lula.
O que se tem certeza nos bastidores é que, se
decidir nomear alguém do partido para comandar o Ministério da Defesa, na
prática o comandante supremo das Forças Armadas estará demonstrando disposição
de encomendar as missões que alguém de centro se recusaria a executar.

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