sexta-feira, 1 de maio de 2026

Botija, rombo, buraco e presente, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Para salvar o Master, o Governo do Distrito Federal comprometeu as finanças públicas a ponto de não conseguir financiar a comemoração de aniversário de Brasília

Chamava-se botija à caixa cheia de dinheiro enterrada no terreno de uma casa. O dono do Banco Master descobriu uma botija guardada nos cofres do BRB e corrompeu seus zeladores para repassarem R$ 12 bilhões ao seu banco. Quando o roubo foi descoberto, fizeram uma lei para colocar dentro da botija o terreno onde ela estava. Os donos do dinheiro roubado pagam seu prejuízo vendendo sua propriedade fundiária. A crise na saúde, o desastre na segurança, a vergonha na educação e a corrupção astronômica não são vistos como ameaças à ordem social mas, em nome da ordem, o Supremo Tribunal Federal (STF) aceita vender terreno do povo para cobrir o roubo feito contra o povo.

Para salvar o Master, o Governo do Distrito Federal comprometeu as finanças públicas a ponto de não conseguir financiar a comemoração de aniversário de Brasília (e bastaria 1% da propina identificada pela Polícia Federal em benefício do presidente do BRB).

O rombo do BRB e a falta de dinheiro para a festa de 66 anos da nossa cidade são dois lados de um mesmo fato: um governo corrupto, ineficiente e desprovido de valores morais, capaz de destruir as finanças do DF em troca de propinas para seus dirigentes. A população merece investimentos para enfrentar a tragédia na saúde, a crise na segurança, o abandono da educação, o caos no trânsito e também celebrar o aniversário de Brasília. No lugar da festa, recebemos o carimbo de que este governo escolhido por nossos eleitores promove o desperdício e a corrupção usando dinheiro que o Brasil envia ao DF por determinação constitucional para sua manutenção. A imagem é a de que não sabemos eleger nossos governantes, acusados de corrupção, desperdício e ineficiência; e de que não merecemos os valores que recebemos do Fundo Constitucional. Triste que este governo continua: o agora ex-governador está solto, sua imensa fortuna intacta e a atual governadora continua sendo controlada por ele. 

Esse é o presente que o atual governo nos dá pelos 66 anos: cofre vazio, a ponto de não termos a festa de aniversário; a destruição de um banco que nos orgulhava; a ameaça de alienação da propriedade fundiária de nossas futuras gerações; e a vergonha diante do resto do Brasil, como se cada um de nós fosse conivente ou, no mínimo, omisso.

Felizmente, muitos em todo o Brasil ainda lembram que já elegemos governos diferentes do atual. Mesmo antes da criação do Fundo Constitucional, o GDF foi capaz, com competência, imaginação e sem corrupção, de eleger  prioridades corretas, universalizar o saneamento, construir escolas e ampliar o horário escolar; adotar o telematrícula, reduzir a tarifa do transporte público, elevar o salário do professor ao maior nível do Brasil; fazer a Rodoviária do Plano Piloto parecer um aeroporto; implantar o Corujão, decidir e executar o projeto arquitetônico da Ponte JK com o desenho que ela mantém até hoje; receber as obras do metrô paradas e colocá-lo para funcionar da Ceilândia até a Galeria dos Estados; construir praças comunitárias, graças ao orçamento participativo.

Além de ações como essas, tivemos governos exemplares para o mundo, que criaram programas como o Bolsa-Escola (depois espalhado pelo Brasil e pelo mundo, embora com menos ênfase na educação), o Poupança-Escola (renascido 30 anos depois como Pé-de-Meia), a Campanha de Respeito à Faixa de Pedestres (gesto educacional até hoje não repetido em outras cidades), o Saúde em Casa (que ofereceu um sistema inteligente e eficiente que, em vez de fila para ser atendido, o paciente recebia atendimento na  própria residência); promoveram as inesquecíveis Temporadas Populares. Governos éticos, sem escândalo ou denúncia de corrupção.

A lembrança de que foi possível termos governos eficientes, socialmente comprometidos e com comportamento decente e a percepção de que o atual tanto roubou que não é capaz de comemorar o aniversário da cidade, devem nos motivar a dar um presente ao Distrito Federal: não ficarmos omissos nas eleições de outubro. Nosso presente a Brasília é participarmos da eleição com brilho nos olhos, como ocorria no passado, na qualidade de eleitor ou de candidato, elegendo dirigentes, governantes ou parlamentares que orgulhem o DF diante do Brasil.

Este ano não permita a omissão do acomodamento: Brasília exige dedicação de todos, candidatos ou eleitores, com empolgação para mudar nossos governantes e nossos representantes no Senado, na Câmara de Deputados e na Câmara Legislativa.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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