Juros de títulos do Tesouro expõem gasto insustentável
Por Folha de S. Paulo
Taxas chegam a superar 8% acima do IPCA;
inflação em alta trava abrandamento
Cenário deixa poucas opções ao próximo
governo além de ajuste rigoroso. Alternativa será fechar as contas com alta de
preços, à custa dos mais pobres
Como tem sido a regra na gestão de Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), a conduta perdulária com as contas públicas cobra
seu preço na forma de juros cada
vez mais altos.
Desde maio, dispararam as taxas futuras no mercado, que já não consideram haver mais espaço para cortes na estratosférica Selic, hoje em 14,5% ao ano.
Se tanto, o Banco Central talvez
reduza a taxa básica em 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de
Política Monetária (Copom),
mas, a partir daí, é muito provável que o país tenha de conviver por muitos
meses com o arrocho que onera famílias, empresas e governo.
Na prática, o custo de financiamento do
Tesouro Nacional vai ficando cada vez maior. Os juros do título indexado ao
IPCA com vencimento em 2032 saltaram
de 7,63% para 8,1% ao ano em menos de 30 dias. Trata-se de patamar
obviamente insustentável.
Parte da piora recente decerto tem origem em
choques globais de oferta que pressionam a inflação:
altas de preços de combustíveis, fertilizantes e insumos petroquímicos e
industriais, agravadas por tensões geopolíticas.
No entanto a dinâmica mais persistente
decorre do expansionismo fiscal de Lula. Estima-se que o crescimento real do
gasto não financeiro em quatro anos de governo deva ficar próximo de 20%
—também considerando, é verdade, a regularização do pagamento de precatórios
postergados por Jair Bolsonaro (PL).
Esse ritmo impulsiona diretamente a inflação
de serviços, que resiste aos juros elevados porque a despesa pública sustenta
demanda aquecida sem contrapartida de produtividade.
Nesse contexto, cabe qualificar a declaração
do ministro da Fazenda, Dario Durigan, de que a inflação está "sob
controle" e será a menor já medida em um mandato presidencial no Brasil.
É fato que a autonomia do BC, tão criticada
pelas lideranças petistas, vai demonstrando sua eficácia no controle monetário.
Sem a colaboração da política fiscal, entretanto, os custos são exorbitantes
diante dos resultados.
Pelas projeções do setor privado, o IPCA deste
ano vai superar 5%, com média próxima a 4,8% anuais desde 2023,
acima da meta de 3% e do teto de 4,5%.
Com a proximidade das eleições, a
administração petista redobrou os estímulos econômicos com dinheiro e crédito
público. Financiamentos favorecidos por meio de BNDES, Caixa Econômica Federal
e fundos estatais já somam mais de R$ 150 bilhões.
As aparentes bondades produzem, em prazos
mais longos, mais inflação, juros e inadimplência. Os reais beneficiários são
os famigerados rentistas —ou os que dispõem de dinheiro para emprestar ao
governo.
O cenário deixa poucas opções ao próximo
governo além de um ajuste orçamentário imediato, rigoroso e politicamente
difícil para viabilizar a queda dos juros. A alternativa espúria será fechar as
contas com inflação elevada, à custa dos mais pobres.
Menos ideologia em segurança pública
Por Folha de S. Paulo
Embate político polarizado prejudica ação
integrada dos governos e encobre propostas efetivas
Esquerda nunca deu prioridade ao setor;
direita faz proposições sem base em evidências, como redução da maioridade
penal
Pesquisa
feita em março pelo Datafolha apontou que, para 19% do
eleitorado brasileiro, o maior problema do país é a segurança pública —só
abaixo da saúde (21%).
Historicamente, esse setor nunca esteve entre
as prioridades da esquerda, a despeito de muitos planos
lançados. Já a direita aproveita esse vácuo com propostas, em geral,
punitivistas e de grande apelo popular, mas baseadas em ideologia e carentes de
respaldo em evidências.
O governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
ensaiou um movimento com uma proposta de emenda constitucional, a PEC da
Segurança, aprovada em março na Câmara e enviada ao Senado.
O texto tem pontos relevantes, como a
previsão de um regime jurídico mais rigoroso para organizações criminosas e
ampliação da atuação da Polícia
Federal nesses casos. Também inclui na Carta o Sistema Único de
Segurança Pública (Susp), que foi criado por lei em 2018 e até hoje não
produziu resultados efetivos.
Forças políticas conservadoras no Congresso
que advogam políticas linha-dura avançam com medidas populistas, como a redução
da maioridade penal, objeto de PEC
recém-aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.
Disputas polarizadas prejudicam uma atuação
pública integrada e de longo prazo, além de encobrirem a viabilidade de
proposições baseadas em dados, com foco em gestão racional de recursos e
potencialmente mais eficazes do que mudar a Constituição ou endurecer penas.
Nesse sentido, são bem-vindas iniciativas
como a do Instituto Sou da Paz, que lançou recentemente um documento em que
apresenta uma série de políticas públicas em segurança concretas e viáveis. O
objetivo é superar a sanha meramente punitivista e orientar candidatos e
eleitores.
Entre os focos escolhidos pelo estudo estão o
fortalecimento das polícias, a proteção de meninas e mulheres contra a violência de
gênero, o enfrentamento do crime
organizado, a redução de roubos e a retirada de armas ilegais de
circulação.
No caso do fortalecimento das polícias, o
texto sugere fomento ao uso de tecnologias como câmeras corporais, melhoria em
inteligência investigativa para elucidação de crimes, treinamento permanente
das forças policiais, oferta de cuidados de saúde dos agentes e redução de
abordagens discriminatórias de cidadãos.
Apontar alternativas realistas para a atuação do poder público que não se resumam a mais prisões e mais mortes oxigena um debate há muito sufocado.
Incúria fiscal de Lula e Congresso é crime
contra o país
Por O Globo
Só 4% da gastança eleitoreira do Executivo
entram na conta das regras fiscais. Parlamento não fica atrás
Apenas 4% do montante resultante das medidas
eleitoreiras do governo Luiz Inácio Lula da
Silva serão computados dentro das regras fiscais, segundo cálculos do
economista Marcos Mendes, do Insper. Quase tudo dribla as regras que o próprio
governo se impôs no início do mandato. Não há motivos para ilusões. Cada
centavo dos R$ 215 bilhões de impulso fiscal extra — calculado até o momento
apenas com as medidas do Executivo — terá efeito negativo sobre o indicador que
realmente importa: a dívida pública. Efeito idêntico terão os R$ 217 bilhões em
medidas que tramitam no Legislativo, se forem aprovadas.
É certo que a saúde financeira do país será
afetada. Não há processo civil ou penal em andamento nem, aparentemente, lei
que tenha sido violada, mas parece não haver palavra melhor para definir a
irresponsabilidade fiscal do atual governo e do Parlamento: ela é um crime
contra o bolso do cidadão.
No caso do Executivo, as manobras para
driblar as regras fiscais são escandalosas. Seis em dez reais do expansionismo
perdulário estão em duas categorias: ou bem as medidas são financeiras, como
linhas de crédito subsidiado (usam recursos orçamentários, mas não impactam as
contas primárias); ou então são extraorçamentárias (usam recursos e patrimônio
públicos fora do Orçamento, como o Fundo de Amparo ao Trabalhador). Ao oferecer
crédito subsidiado para a compra de veículos por taxistas, motoristas de
aplicativo ou caminhoneiros, o governo não acrescenta despesas na conta do teto
de gastos. Mas isso não significa que não tenha de desembolsar o dinheiro.
À primeira vista, a regra faz sentido. Os
recursos do Tesouro não são gastos, mas emprestados, e, quando os
financiamentos forem quitados, voltarão. Mas na prática os juros subsidiados
representam perda patrimonial para o Tesouro, porque ele também toma dinheiro
emprestado para se financiar — só que a taxa mais alta. “E raramente os
recursos liberados para bancos públicos voltam ao Tesouro. A prática tem sido
usar ‘sobras’ de uma linha de crédito para criar outras”, diz Mendes.
Diferentes fundos — do Fundo de Garantia de
Operações (FGO) ao Garantidor de Habitação Popular — são originalmente
capitalizados pelo Tesouro. Um governo responsável cogitaria usar parte do
dinheiro extra desses fundos para quitar uma parcela da dívida pública, que não
para de crescer. Ou adotar uma estratégia conservadora na concessão de crédito
para evitar calotes. Mas a atual administração prefere trilhar outro caminho.
Decidiu que vale usar qualquer fundo para emprestar dinheiro a juros baixos. “O
Fundo Clima também está fora do Orçamento e é composto por recursos do Tesouro.
Sua alocação em linha de crédito para compra de bens de capital igualmente
corresponde a perda de oportunidade de quitar dívida pública ou evitar
endividamento adicional”, diz Mendes.
Em sua ânsia por recursos, o governo adotou
outra manobra contábil que decerto deverá ser contestada na Justiça. Uma lei
determinava que o dinheiro “esquecido” por correntistas nos bancos fosse
transferido ao Tesouro. Para evitar que estivesse sujeito às regras fiscais, o
governo decidiu transferi-lo ao FGO. O truque permitiu ampliar as medidas
populistas. Parece não haver limite na sanha gastadora de Lula e dos
congressistas. Vale tudo para se manter no poder. Se reeleitos, porém, herdarão
de si mesmos um país que eles próprios levaram à bancarrota.
Lentidão para evitar novas enchentes no Sul
traz lições ao resto do país
Por O Globo
Depois da tragédia há dois anos, poder
público não responde na velocidade devida com medidas de proteção
A proteção das populações dos efeitos de
eventos climáticos extremos desafia o poder público no mundo todo. No Brasil, o
caso do Rio Grande do Sul, atingido por cheia histórica, dá uma demonstração
das dificuldades. Mesmo quando governantes tomam decisões corretas na definição
de programas de prevenção, a máquina do Estado não responde na velocidade
devida. Dois anos depois da enchente que atingiu 478 dos 497 municípios
gaúchos, deixando quase 200 mortos, dezenas de desaparecidos e pouco mais de
600 mil desabrigados, o governo não conseguiu dar ampla assistência a todos os
atingidos. Boa parte dos que perderam a casa ainda não foi atendida. E talvez
nem venha a ser.
Há apoio e mobilização. Com repasses do
governo federal, foram reservados R$ 37,6 bilhões para novas moradias e
contratadas 10.588. Mas apenas 112 foram entregues. O governo estadual destinou
R$ 647 milhões à construção de casas, prevendo 2.723 em 56 municípios. Até
agora, só 218 já estão com seus proprietários. A Prefeitura de Porto Alegre
definiu que era preciso construir 20.781 novas casas para os atingidos pelo
transbordamento do Rio Guaíba. A grande maioria, no entanto, não se inscreveu
no programa habitacional de emergência por não cumprir requisitos burocráticos,
diz o urbanista Eber Pires Marzulo, da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Ora, este não é um programa habitacional qualquer, mas de assistência a
famílias que perderam suas casas num cataclismo. A cultura do Estado, contudo,
se mostra incapaz de entender isso.
O governo estadual parece mais bem preparado
para responder a uma emergência climática, por ter reforçado a estrutura da
Defesa Civil. “Mas, se a gente for pensar em avanço na proteção da população,
mudou pouco. O campo da mitigação e adaptação é frágil”, diz o engenheiro
sanitarista e ambiental Vicente Fiametti. São vários os exemplos de lentidão na
resposta. Em Eldorado do Sul, uma das cidades mais afetadas, o anteprojeto do
novo sistema de proteção contra cheias foi concluído. Ainda falta, porém, o projeto
executivo para que as obras comecem e a verba de R$ 1,1 bilhão seja usada. É
grande o risco de nova enchente exigir outra atualização do projeto. O
anteprojeto para os novos sistemas de Porto Alegre e Alvorada, na Região
Metropolitana, ainda está na fase final de licitação.
Pelas características da Lagoa dos Patos, com rios desaguando em conexão estreita ao mar, o estado dispõe há muito tempo de sistema de controle de enchentes. Mas é antigo e está desatualizado diante da pressão criada pelas mudanças climáticas. Com acerto, o governo criou o Plano Rio Grande, para, em três anos, modernizar diques, canais e comportas. Dois terços do prazo estipulado já venceram e, dos R$ 14,2 bilhões reservados para 227 projetos, só 36% foram gastos. As únicas obras que começaram são reformas do sistema antigo. A cultura do poder público torna tudo mais lento. O contraste entre essa lentidão na reação e a urgência da nova realidade determinada pelas mudanças no clima não é exclusividade do Rio Grande do Sul.
Justiça surda
Por O Estado de S.
Paulo
Cada
vez mais, advogados se queixam de que, em razão de uma resolução do CNJ,
barreiras são impostas às sustentações orais em órgãos colegiados, numa afronta
ao devido processo legal
A Justiça, que é
cega, agora parece também estar ficando surda. Há mais de um ano, uma resolução
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) tem tapado os ouvidos dos magistrados às
demandas dos jurisdicionados – no caso, os cidadãos – ao impor barreiras às
sustentações orais dos advogados durante julgamentos em órgãos colegiados.
Trata-se da
Resolução n.º 591, que estabeleceu “os requisitos mínimos para o julgamento de
processos em ambiente eletrônico” – ou seja, em sessões virtuais assíncronas realizadas
nos tribunais estaduais, regionais e superiores.
Pelo normativo,
cabe ao relator – um desembargador ou ministro – decidir se o caso será digno
de julgamento presencial ou se a análise será virtual. No julgamento virtual, o
relator deposita seu voto num ambiente online, onde cada colega indica
“acompanho o relator”, “acompanho o relator com ressalva de entendimento”,
“divirjo do relator” ou “acompanho a divergência”. E ao advogado é facultado
fazer ou não o upload de sua sustentação oral em arquivo de
vídeo ou voz.
A iniciativa do
CNJ até parece bem intencionada: agilizar a prestação jurisdicional. Segundo os
“considerandos” da resolução, a celeridade e a eficiência do trâmite processual
são fundamentais para a efetividade da Justiça, assim como a informatização é
essencial para a modernização e a transparência do sistema judiciário,
contribuindo para a acessibilidade à Justiça e a publicidade das decisões
judiciais.
São argumentos
sedutores, haja vista que qualquer cidadão que procura o Judiciário espera ter
suas demandas atendidas o mais rápido possível: eis o princípio da duração
razoável do processo.
Mas, como se sabe,
de boas intenções o inferno está cheio, e a celeridade e a eficiência têm sido
asseguradas à custa da advocacia – isto é, contrariando a legislação, que
garante ao advogado o direito de falar, e a Constituição, segundo a qual “o
advogado é indispensável à administração da Justiça”.
Em artigo
publicado neste jornal, sob o título Advogados e cidadãos afastados do
Judiciário (17/2), o veterano advogado Antonio Cláudio Mariz de
Oliveira mostrou como tem sido difícil advogar no Brasil: além de negar as
sustentações orais, há magistrados que não leem petições, delegam tarefas a
assessores e se recusam a atender os advogados. Mariz contou ter ouvido de um
juiz que “o advogado atrapalha”.
Os tribunais, para
piorar, editaram suas resoluções espelhando a norma do CNJ. E os advogados,
claro, têm reclamado. A OAB-SP encomendou pareceres a eminentes processualistas
a fim de fundamentar suas ações. E, segundo José Rogério Cruz e Tucci,
professor titular sênior da Faculdade de Direito da USP, é extensa a lista de
violações.
Segundo Cruz e
Tucci, a resolução ofende, a um só tempo, a oralidade e a publicidade. Torna o
julgamento mais opaco e menos dialético, “reduzindo o colegiado a um agregado
aritmético” de votos, o que, por óbvio, impacta a defesa, “que deixa de atuar
num espaço efetivamente dialógico e passa a falar para votos já em formação ou,
não raramente, já cristalizados”.
A resolução limita
o trabalho do advogado, tolhe seu direito de argumentar e o impede de persuadir
os julgadores. E mais grave: cerceia a ampla defesa e o contraditório, numa
afronta a direitos e garantias fundamentais.
O presidente da
OAB-SP, Leonardo Sica, afirmou ao Estadão que os magistrados “fingem
que escutam” e os advogados “fingem que falam”, pois ninguém garante que a
sustentação será assistida ou ouvida. Isso não é devido processo legal, é
encenação. E, contra isso, processos que questionam a resolução já estão à espera
de julgamento no CNJ, que terá a chance de corrigir seu erro.
A Justiça custa
quase R$ 150 bilhões por ano, o que equivale a 1,2% do Produto Interno Bruto
(PIB), e, mesmo cara, acumula cerca de 80 milhões de processos. É óbvio que o
País precisa de uma Justiça mais célere, e cabe ao Judiciário encontrar a
solução para o problema. Mas a agilidade não se confunde com açodamento.
Quando um advogado
não é ouvido pela Justiça, é o cidadão que é ignorado. Justiça cega é justiça
imparcial, mas Justiça surda é justiça injusta.
A universidade que
o Brasil não construiu
Por O Estado de S.
Paulo
Como
mostram os rankings internacionais, a universidade brasileira perderá se não se
abrir para o mundo e para o setor produtivo e não adotar governança
profissional e meritocracia
Quase 90% das
universidades brasileiras caíram no ranking do Center for World
University Rankings (CWUR). A principal razão foi a piora dos
indicadores de pesquisa. Não se deve atribuir valor excessivo aos rankings.
Seus critérios e metodologias podem ser questionados. No detalhe pode haver
idiossincrasias estatísticas. Mas no conjunto o ranking capta uma degradação
sistêmica.
O Brasil tem uma
deficiência crônica de produtividade, cresce menos do que poderia e sofre para
transformar conhecimento em inovação. Nesse contexto, universidades têm um
papel estratégico. Formam profissionais, produzem pesquisa e preservam e
renovam o patrimônio intelectual de uma sociedade, determinando sua capacidade
de competir numa economia cada vez mais baseada em conhecimento e tecnologia.
O País expandiu
significativamente o acesso ao ensino superior. Multiplicaram-se vagas,
matrículas, campi e diplomas. Uma sociedade complexa e urbana não pode limitar
a educação superior a uma pequena elite. O problema é que a expansão avançou
sem que o sistema fosse redesenhado para sua nova escala. O Brasil massificou a
educação superior preservando uma arquitetura concebida para um universo muito
menor. Objetivos distintos operam em estruturas homogêneas.
Em todo o mundo, a
ampliação do acesso veio acompanhada de diferenciação institucional.
Universidades de pesquisa coexistem com faculdades voltadas ao ensino,
institutos tecnológicos, cursos mais curtos e trajetórias profissionais
variadas. Cada instituição responde a missões específicas. A eficiência e o
prestígio acadêmicos não dependem de todas fazerem a mesma coisa.
O Brasil seguiu outro
caminho. A universidade tradicional tornou-se a referência para o sistema
inteiro. A pesquisa passou a ser uma aspiração difusa, mesmo onde faltavam
escala, recursos ou vocação para sustentá-la. Ao mesmo tempo, modalidades
voltadas à formação tecnológica e profissional permaneceram em posição
secundária. O resultado é um sistema que patina, simultaneamente, na educação
em larga escala e na produção de pesquisa de classe mundial.
O impacto
internacional da atividade científica é abaixo da crítica para um país do porte
do Brasil. A inserção em redes globais é limitada. O intercâmbio de professores
e estudantes é provinciano. A distância entre universidades, empresas e
ambientes de inovação é grande. Estruturas administrativas burocráticas e
rígidas dificultam ajustes, recrutamento de talentos, parcerias e estratégias
de longo prazo.
Não é que o País
precise optar entre inclusão e excelência. As experiências bem-sucedidas
mostram o contrário. Países que ampliaram rapidamente sua capacidade científica
e tecnológica construíram sistemas diversos, capazes de acomodar funções
distintas. Algumas instituições concentram pesquisa de ponta. Outras se dedicam
à formação profissional. Há espaço para ambas.
Uma universidade
forte é indispensável para o crescimento econômico, mas não só: ela amplia
horizontes intelectuais, forma lideranças cívicas, produz conhecimento e
fortalece a capacidade de uma sociedade compreender e enfrentar seus desafios.
Num mundo moldado pela revolução digital e pela competição tecnológica, esse
patrimônio tornou-se ainda mais valioso.
O debate sobre o
ensino superior brasileiro costuma se concentrar na disputa por recursos ou na
expansão do acesso. São temas relevantes. Mas a universidade não pode ser
reduzida a instrumento de “justiça social”. O País precisa de um sistema mais
coerente com as exigências da educação superior de massas e da economia do
conhecimento. Isso exige universidades de pesquisa mais fortes, percursos
tecnológicos mais valorizados, autonomia acompanhada de responsabilização por
desempenho, maior integração internacional e formas eficazes de sinergia entre
produção científica, inovação tecnológica e atividade produtiva.
O desafio
brasileiro é estrutural e mais profundo. Trata-se de construir instituições
capazes de transformar expansão em qualidade, conhecimento em inovação e
talento em prosperidade. Nenhum ranking dará a receita para esse trabalho. Mas
poucos indicadores lembram com tanta clareza o quanto ele continua inacabado.
Deseducação fiscal
Por O Estado de S.
Paulo
Programa
do governo para escolas em tempo integral é outro drible no arcabouço fiscal
O governo de Luiz
Inácio Lula da Silva pretende lançar um programa de construção de escolas
públicas em todo o Brasil para, em dez anos, o País universalizar o acesso ao
ensino em tempo integral. A iniciativa é nobre, pois a escola integral
impulsiona o desempenho dos estudantes, reduz a evasão e amplia o acesso ao
mercado de trabalho. Portanto, ninguém em sã consciência ignora o mérito da
iniciativa.
Ademais, há ainda
muito trabalho pela frente: de acordo com o último Censo Escolar, apenas 8,8
milhões dos alunos, ou 19% do total, estavam matriculados em escolas integrais
em 2025. Já a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) é alcançar 50% das
matrículas na modalidade até 2036.
O problema, como
sempre acontece, mora nos detalhes. Como falta dinheiro e sobra criatividade, a
ideia é driblar as regras fiscais, tirando dos limites de gastos do arcabouço
fiscal os recursos que serão destinados para o Programa Nacional de
Infraestrutura Escolar.
Segundo reportagem
do Estadão, o Palácio do Planalto está empenhado na aprovação de um
projeto de lei que vai turbinar o orçamento do Ministério da Educação (MEC) em
R$ 280 bilhões ao longo da próxima década, à margem das regras fiscais.
Isso quer dizer
que o governo estabelece uma meta fiscal com superávit, prometendo pôr as
contas no azul, mas na prática, sem a maquiagem, entrega rombos bilionários ano
após ano – e tudo isso é aprovado no Congresso. Todos vão fingir que os
recursos necessários para as obras das escolas, da ordem de R$ 30 bilhões por
ano, não causarão nenhum impacto fiscal.
O relator do
projeto de lei que trata do assunto, deputado Moses Rodrigues (União
Brasil-CE), minimiza as críticas. Segundo ele, trata-se de um programa de
infraestrutura que “não é para o resto da vida”, como se não houvesse, além do
evidente dano fiscal, outros desafios futuros, como a contratação e o pagamento
de salários de professores, manutenção das escolas e aquisição de equipamentos
e material didático.
Ocorre que
governar e legislar é sempre fazer escolhas: nenhuma despesa, por mais
meritória que seja, pode ficar de fora dos limites fiscais estabelecidos. Do
contrário, não haveria necessidade de debate democrático sobre as prioridades
do País e a destinação do dinheiro dos contribuintes.
E, quando o
assunto é afrontar o compromisso republicano com as contas públicas, as
diferenças ideológicas são postas de lado. A iniciativa é apoiada por
parlamentares da esquerda à direita. Ou seja, na defesa de interesses próprios,
sobretudo em ano eleitoral, todos ignoram a responsabilidade fiscal.
A bem da verdade,
a gestão petista e os congressistas formaram um consórcio que vem
deslegitimando a âncora fiscal praticamente desde o nascedouro. Ora, se o
arcabouço é ruim, institua-se outro. O que não pode é fingir que ele está em
vigor quando todos em Brasília, sob os mais variados pretextos, o sabotam à luz
do dia.
O fanatismo que
nos falta
Por O Estado de S.
Paulo
Sem
um presidente obcecado por educação e saúde, o Brasil continuará desviando do
único caminho que leva ao progresso
O segundo encontro
do projeto Brasil Adiante, realizado em 11 de junho, confirmou o
que já havia sido demonstrado pelo primeiro. Há, na sociedade civil, cidadãos
dispostos a discutir os problemas do País com seriedade e espírito público e
sem a estreiteza da polarização política. Nas áreas de educação e saúde, foco
da nova rodada de propostas, o engajamento cívico revela-se ainda mais animador
– o que é um bálsamo, haja vista que o sucesso em uma e outra áreas é condição
indispensável para que o Brasil realize todo o seu potencial de
desenvolvimento.
Fábio Barbosa,
curador do Brasil Adiante, ofereceu logo de início a síntese mais
precisa do encontro ao lembrar que a má distribuição de renda no País é
decorrência direta de desigualdades mais profundas no acesso à educação e à
saúde. Essa reflexão de Barbosa chega às raias da subversão num país viciado em
tratar a pobreza como mero problema de transferência de renda, não como
corolário de um déficit de cidadania muito mais amplo.
A inflexão
virtuosa só ocorrerá quando o País for governado por alguém “fanático” e
“obcecado” por educação, como disse Denis Mizne, da Fundação Lemann. Até que
este homem ou esta mulher chegue à Presidência da República, o Brasil seguirá
sem priorizar a área que levará ao salto para o progresso. Nenhum país jamais
se arrependeu por ter priorizado a educação, como bem lembrou Priscila Cruz, do
Todos Pela Educação.
De fato, casos de
sucesso que vão da Coreia do Sul à Finlândia só foram possíveis porque, no
coração do poder nesses países, havia uma convicção inabalável de que educar os
cidadãos era a grande prioridade nacional como política de Estado, não como
slogan de campanha deste ou daquele governo. Lamentavelmente, essa mentalidade
ainda não anima nossas lideranças políticas.
Há muito este
jornal sustenta que garantir o acesso à educação básica, gratuita e de
qualidade de todas as crianças brasileiras não só é um direito fundamental,
como é um dever moral de todos os governantes e o mais rentável investimento
que a Nação pode fazer em si mesma. Uma criança bem educada, no futuro, irá
trabalhar bem, contribuir para a Previdência, eventualmente criar empresas,
inovar, cuidar dos mais velhos, votar com consciência e exigir políticos à sua
altura. Noutras palavras: educação é política pública de longo prazo. Talvez
seja por isso que nunca esteja no rol de prioridades de políticos que só
enxergam o próximo ciclo eleitoral.
Isso também vale
para a saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS), como já dissemos, é uma das
maiores conquistas civilizatórias do Brasil republicano. Criado pela Constituição
de 1988 como expressão do compromisso do Estado com a vida e a saúde de todos
os brasileiros, o SUS enfrenta pressões crescentes, das quais o envelhecimento
acelerado da população é a mais urgente.
O painel de
especialistas reunido pelo Brasil Adiante apontou caminhos
para lidar com esses desafios: financiar mais o sistema, fortalecer a atenção
primária, integrar saúde e assistência social, descentralizar a gestão e
modernizar a incorporação de tecnologias. São propostas exequíveis que estarão
à disposição do presidente eleito ao fim do projeto Brasil Adiante. O
que será feito delas, o futuro dirá.
O encontro da semana passada reforçou a ideia de que o País conhece seus problemas, sabe o que precisa fazer e, em grande medida, já sabe como fazer. O que falta não é diagnóstico, é liderança e vontade política capazes de transformar conhecimento em ação, e ação em resultado. Como disse Pedro Parente no encontro inaugural do Brasil Adiante, “sabemos onde estamos, mas não para onde ir”. Educação e saúde de qualidade para todos é esse caminho que o País precisa trilhar.
A lógica de Vorcaro e a proteção do organismo
Por Correio Braziliense
Vorcaro tem dado o norte às suas figuras mais
próximas sobre como agir, por que calar e o que ceder. Um recado óbvio:
resistir à pressão compensa, e é necessário para a perenidade da estrutura
criminosa
A rejeição pela Polícia Federal de mais uma
proposta de Daniel Vorcaro para ampliar e confirmar o que as investigações já
levantaram reforça a percepção de que o ex-dono do Banco Master tem muito a
ganhar nessa queda de braço. Há meses, ele vem cozinhando seus interrogadores,
oferecendo aquilo que, nas palavras de uma fonte envolvida nas negociações, é
classificado como "pastel de vento" — apetitoso por fora, mas, por
dentro, pouco traz o que se aproveite. E, assim, as apurações claudicam.
Ao contrário do tenente-coronel do Exército
Mauro Cid que, tão logo viu a família ser arrastada para o escândalo, decidiu
erguer um escudo protetor que a preservasse ao contar aquilo que sabia sobre a
tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro, Vorcaro funciona sob outra
lógica. Essa indica a existência de uma espécie de omertá, o código de silêncio
que rege a moral dos homens de honra da Cosa Nostra siciliana. Significa que,
quando alguém cai, cala-se para que o ecossistema criminoso permaneça
preservado. Tal pertencimento é que faz com que as máfias existam e atravessem
os tempos com o poder e as conexões capazes de se regenerar.
O sistema corrupto em que Vorcaro opera não
foi criado por ele, tampouco os personagens do qual fazem parte, citados em
inúmeras reportagens. Todos existiam antes, mas não estavam organizados tal
como o ex-banqueiro os organizou. E eles queriam e se deixaram organizar. Os
benefícios que auferiram eram grandes demais para ficarem de fora da
bandalheira. Riscos baixos e vantagens permanentes.
O ineditismo desse esquema é o alcance dos
tentáculos. Em qualquer direção que os investigadores olhem, percebe-se a
sombra do Master. Essa onipresença é que assusta. O que veem é um organismo
vivo. Há uma luta para manter o avanço da doença, um esforço que não atenue a
ação do vírus.
Percebe-se, assim, que Vorcaro tem dado o
norte às suas figuras mais próximas — o pai, o primo e o cunhado, igualmente
presos — sobre como agir, por que calar e o que ceder. Um recado óbvio:
resistir à pressão compensa, e é necessário para a perenidade da estrutura
criminosa.
Vorcaro manobra com as camadas de influência
que construiu. Não pede ajuda, uma vez que sabe que tais estruturas são fortes
o suficiente para que mantenha o projeto, extensivo ao núcleo duro de sua
organização, da prisão domiciliar. Diligentemente, impõe um teto ao inquérito e
enfraquece a denúncia. Se alguém falar, possivelmente acrescentará pouco.
Antes atormentados pela ameaça de verem
projetos serem interrompidos por uma temporada na cadeia, alguns atores
restabeleceram a confiança de que a impunidade é um instituto fundamental à
manutenção das elites brasileiras fortes. Apesar do susto, os nacos de poder
tendem a estar preservados.
É com eles que Vorcaro conta para que o organismo cumpra o papel de protegê-lo.
A responsabilidade fiscal de Alcolumbre
Por O Povo (CE)
O presidente do Senado Federal, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP), fez um discurso correto, praticamente
irrepreensível na sessão do dia 9 último ao justificar sua resistência para
colocar em pauta uma série de matérias, apesar de forte e legítima pressão popular,
que precisavam de cálculos responsáveis quanto aos efeitos que teriam sobre as
contas públicas. Dentre elas, o projeto aprovado pela Câmara dos Deputados que
altera a jornada de trabalho no País, passando-a de 6x1 para 5x2, ou seja,
cinco dias trabalhados para dois de folga.
O problema é que o discurso de Alcolumbre, de
compromisso com a responsabilidade fiscal, caiu por terra no dia seguinte
quando o próprio levou à apreciação do plenário do Senado um conjunto de
propostas que, segundo cálculos apresentados pelos ministérios da Fazenda e do
Planejamento, na forma de advertência, podem impactar em R$ 215 bilhões nas
contas públicas ao longo dos próximos anos. Foram três projetos, todos
aprovados de maneira célere, com menos discussão do que parecia necessário, que
tratam de renegociação de dívidas de produtores rurais, de piso salarial para
médicos e cirurgiões-dentistas e de aposentadoria especial para agentes
comunitários de saúde.
As advertências feitas pelos representantes
do governo não sensibilizaram Davi Alcolumbre, colocando em xeque o
pronunciamento enfático que fizera um dia antes acerca de um conjunto de pautas
que, ele pode ter razão, exigem cálculos melhores para a sociedade entender se
devem ser mesmo abraçados pelos parlamentares e se é conveniente que avancem no
Congresso Nacional a despeito de suas consequências. Pergunta-se, então: e
aquele conjunto de matérias com efeitos financeiros precificados e anunciados,
por que seguiram tramitação? Onde estava a responsabilidade fiscal nessa hora?
Quem está sentado na cadeira de comando de
uma Casa com a importância do Senado não deve agir fazendo prevalecer seu
interesse próprio ou político, como há sinais de que pode estar acontecendo na
situação. Alcolumbre vivencia um momento de relação conflituosa com o governo
e, em especial, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, muito em função de
problemas que há enfrentado no campo da política. Pela razão que seja, é
inaceitável que isso determine uma atitude que venha a colocar em risco o equilíbrio
das contas públicas.
É tempo de as coisas se acertarem, inclusive para evitarmos que a falta de diálogo determine como única opção a busca da via judicial, o que abre espaço para mais um momento de tensão institucional. Seria interessante que o Davi Alcolumbre daquele discurso inicial, que parecia zeloso com as contas públicas voltasse à cena para recolocar ordem na situação. Faz parte de suas obrigações institucionais, pela posição em que escolheu estar.

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