Folha de S. Paulo
Na série 'A Saga do Tri', ele fuma em todos
os takes; na vida real, era quase isso mesmo
Seu intérprete Rodrigo Santoro, não fumante,
acende 200 cigarros nos cinco episódios
Em clima de Copa, assisti a "Brasil
70: A Saga do Tri", a série de Pedro e Paulo Morelli sobre a
seleção no México em 1970. Os personagens principais são um Zagallo enfezado
e morrinha, como ele era, um Pelé mais
angustiado do que os personagens de Kafka ou Dostoievski —como ele não era— e
um delicioso João Saldanha, arguto, debochado, pródigo em bordões, fingindo
acreditar nas histórias que contava.
Como todo mundo aqui no Rio, conheci Saldanha, claro. Era figura fácil no Bar do Osmar, um botequim na rua Miguel Lemos, em Copacabana, em que bebuns, ex-craques, jornalistas esportivos (Hans Henningsen, Sergio Noronha, Sandro Moreyra), intelectuais, poetas, ministros do Supremo, todos superbem informados, bebiam em pé e discutiam os segredos da República. Saldanha pontificava sobre a seleção como se treiná-la fosse a coisa mais fácil do mundo. Um dia, em 1969, foi da Miguel que ele saiu para falar com João Havelange, presidente da então CBD, e ser convidado a assumi-la.
Na série, Saldanha é mostrado como fumante
impenitente —o que ele era. Rodrigo
Santoro, magnífico no papel, deve acender uns 200 cigarros
(Continental, acho) nos cinco episódios. Não há um único take em que Saldanha
não esteja fumando. Mas, pelo que via dele ao vivo, às vezes dava alguns
minutos entre um cigarro e outro. Não adiantou —morreu aos 73 anos, de um
enfisema brabo, em Roma, durante a Copa de 1990, para a qual viajou
contrariando os médicos.
Eu, que parei há 21 anos e hoje considero que
fumar foi a coisa mais estúpida que fiz na vida, posso imaginar o fim de
Saldanha sem conseguir andar ou respirar. Por isso, fiquei preocupado com
Rodrigo Santoro —se já não fosse fumante, só podia ter se tornado depois desse
papel. E os que teve de fumar nos ensaios e nos muitos takes de cada cena? O
cigarro não precisa de tanto para fazer um dependente.
Mas fui pesquisar e descobri que tudo bem. Santoro não fumava e seus cigarros eram cenográficos, feitos de ervas e flores, sem tabaco e nicotina. Assim, até eu.

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