sexta-feira, 1 de maio de 2026

Entrevista | ‘O PT cometeu um erro ao não assinar a CPI do Master’

Por Vera Rosa / O Estado de S. Paulo

Dirigente petista critica rejeição de Messias pelo Senado e vê Executivo refém das emendas impositivas

Presidente do PT e coordenador da campanha de Lula à reeleição, foi ministro da Secom de Dilma e prefeito de Araraquara

Em uma semana de derrotas históricas para o governo, o presidente do PT, Edinho Silva, classificou como “erro” o fato de parlamentares de seu partido não terem assinado o requerimento pedindo a instalação da CPI do Banco Master. “O PT deveria ter assinado a CPI do Banco Master. Foi um erro que o PT cometeu”, disse Edinho ao Estadão. “É evidente que, diante da gravidade das denúncias, as bancadas deveriam ter liderado a formação das comissões de investigação.”

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), liderou, nos últimos dias, as articulações que impuseram dois importantes reveses para o Palácio do Planalto. Além disso, fez um acordo com a oposição para engavetar o pedido de abertura da CPI proposta para investigar as falcatruas do Master.

Sob o comando de Alcolumbre, o Senado rejeitou, anteontem, a indicação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Ontem, uma sessão do Congresso derrubou o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto que reduz as penas de Jair Bolsonaro (PL) e outros condenados pelos atos golpistas do 8 de Janeiro.

“Mais uma vez, o Congresso vira as costas para a sociedade”, afirmou Edinho, que é coordenador da campanha de Lula a um novo mandato. “O modelo político brasileiro ruiu. Está totalmente destruído”, completou o presidente do PT, candidato a deputado federal. 

A seguir os principais trechos da entrevista:

O governo sofreu duas importantes derrotas nesta semana. Que influência essa queda de braço entre governo e Congresso terá na campanha?

Penso que são duas questões distintas. Sobre a rejeição ao nome do ministro Messias, o Senado comete um grave erro e gera importante instabilidade institucional. É mais uma atribuição do Poder Executivo esvaziada pelo Legislativo. Messias é um jurista sério e a rejeição do nome dele revela a disposição de setores do Congresso de enfraquecer o Judiciário e transformar uma indicação qualificada em disputa política.

Mas nessa disputa política também houve a derrubada do veto do presidente Lula ao projeto que diminui a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro...

Mais uma vez, o Congresso vira as costas para a sociedade, que, em sua maioria, rejeita a proposta. Os responsáveis pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 planejaram assassinar o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e o presidente do TSE na época, Alexandre de Moraes. Aliviar a punição de crimes dessa natureza é ignorar a gravidade da tentativa de ruptura institucional.

Que tipo de reforma o PT defende para o Judiciário? É o código de ética proposto pelo presidente do STF, Edson Fachin?

Não. Eu acho que é muito simplismo você dizer que uma reforma do Judiciário equivale a um código de ética. Nós temos que olhar aquilo que os países europeus fizeram que deu certo. Não precisamos inventar o ovo. Nós podemos olhar a África do Sul, que fez uma reforma, e ver o que deu certo. Eu penso que o próprio Poder Judiciário deveria construir uma comissão formada por integrantes do Judiciário e envolver o Ministério Público (...) Olhar as experiências internacionais e buscar um caminho para que a gente combata qualquer tipo de privilégio e aproxime o Judiciário da sociedade.

Desde os atos do 8 de Janeiro, o STF tem sido aliado do governo Lula. O PT e o presidente só adotaram essa posição agora porque o Judiciário enfrenta crise de credibilidade, não?

Sempre defendemos a reforma, o controle externo do Judiciário. Agora, é evidente que, se nós estamos vivendo uma crise, tem que ter resposta para a crise. Mas que a resposta seja no campo da democracia, e não no campo do autoritarismo. Que o Judiciário seja protagonista da construção das suas reformas, como eu penso que o Congresso tem que ter protagonismo na reforma político-eleitoral. O modelo político brasileiro ruiu. Está totalmente destruído.

E ruiu por quê? Por causa das emendas?

As emendas são um sintoma do desgaste do modelo político. Quando você torna a emenda uma moeda de troca para votar projetos, é um sintoma gravíssimo. Nós temos que recuperar a credibilidade do Legislativo. Por que a sociedade não pode escolher o que é prioridade para o Orçamento? Podemos regulamentar o plebiscito e chamar a sociedade para o jogo democrático. Nós queremos o fim desse modelo de emendas que está aí. Não pode o Congresso executar, como está previsto no Orçamento de 2026, R$ 60 bilhões.

O presidente fica refém do Congresso...

Fica refém e se estabelece um balcão de negociação que enfraquece o sistema político inteiro. E, seja o presidente, o governador, o prefeito, onde existe emenda impositiva ele tem o seu poder usurpado.

A estratégia traçada para a campanha do presidente tem o objetivo de se aproximar do centro. Mas como reconquistar o eleitor tradicional do PT que o partido vem perdendo até no Nordeste, seu antigo reduto eleitoral?

Acho que não tem essa contradição. Estamos vivendo uma sociedade muito polarizada e onde, lá na frente, o que vai ser decidido é se nós queremos um Brasil democrático ou um Brasil autoritário. O que vai estar em escolha é muito mais que uma votação com esse recorte ideológico.

E a aproximação do PT com a direita liberal, defendida em um dos documentos apresentados no 8.º Congresso do partido? Isso não é uma contradição?

Não. Eu acho que nós temos que ter uma construção com o campo democrático. Você tem partidos de centro que valorizam a democracia. Alguns partidos de direita também valorizam a democracia.

O PT divulgou um vídeo nas redes sociais que associa o senador Flávio Bolsonaro ao escândalo do Banco Master. Só que ele não é investigado nesse caso e o Centrão saiu em sua defesa. Uma estratégia assim não atrapalha alianças do PT com esses setores nas eleições?

O Banco Master é uma criação do governo Bolsonaro. As operações que depois foram demonstradas fraudulentas foram autorizadas pelo Banco Central na gestão do Campos Neto. Quem pediu para apurar as denúncias de corrupção contra o Banco Master e estruturou a Polícia Federal para fazer as investigações foi o presidente Lula.

Mas por que no manifesto do PT foi tirada a referência à questão da reforma do sistema financeiro, justamente o trecho que falava do Banco Master?

Porque, quando nós elaboramos o manifesto, tratamos de diretrizes que, de fato, sinalizem a atuação do PT no próximo período. Então, não é correto pôr uma questão conjuntural tão específica. Agora, em todos os nossos debates, nós enfatizamos a necessidade de investigação do Banco Master.

E por que nas diretrizes do programa de governo de Lula também não entrou a questão relativa ao desvio de aposentadorias do INSS?

As diretrizes são maiores que os fatos conjunturais. O que nós estamos dizendo é que temos que combater todas as formas de corrupção. Foi o presidente Lula que pediu para apurar as denúncias do desvio de dinheiro dos aposentados do INSS, que teve início no governo Bolsonaro.

Mas o caso Master não se refere apenas a um grupo político. Embora o banco tenha sido criado em 2019, na gestão de Bolsonaro, a Polícia Federal analisa a relação do Master com políticos do PT da Bahia, como o senador Jaques Wagner e o ex-ministro Rui Costa. O PT também não tem telhado de vidro nessa história?

Não. Eu não vi nenhuma denúncia de corrupção contra os governos da Bahia.

Está no relatório da Polícia Federal.

A Polícia Federal está investigando o Brasil inteiro: prefeituras e Estados que compraram títulos do Banco Master. Quando tentaram envolver o senador Jaques Wagner, ele foi a público, explicou e disse que, absolutamente, não tinha nada a ver com aquela denúncia. A questão não é quem se envolveu de má-fé ou de boa-fé com o Banco Master. A questão é por que, no governo Bolsonaro, autorizaram o Master a fazer operações, quando os relatórios já apontavam que o banco não tinha lastro?

E por que o PT não assinou a CPI do Banco Master?

Não sei. Acho que foi um erro. O PT deveria ter assinado a CPI do Banco Master. O PT deveria ter liderado a criação da CPMI do INSS. O presidente Lula defendeu isso para as lideranças do PT o tempo todo. Foi um erro que o PT cometeu, porque a gente tem uma concepção, e de todo não está errado, que as comissões de inquérito paralisam o Congresso, impedem a aprovação dos projetos. Portanto, elas paralisam o governo também. Mas é evidente que, diante da gravidade das denúncias, as bancadas deveriam ter liderado a formação das comissões de investigação. 

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