O Estado de S. Paulo
Depois da Copa do Mundo, que tal olhar um pouco mais para a economia frágil?
Copa do Mundo, eleição e desemprego contido, embora distante da meta, têm garantido alguma animação no Brasil, apesar da inflação de 3,20% de janeiro a maio e de 4,72% em 12 meses, muito acima do alvo oficial de 3%. Se o governo insistir na gastança, o quadro pode piorar. Segundo projeções do mercado, a alta dos preços ao consumidor poderá superar 5% neste ano e 4% no próximo, pressionando mais duramente, como sempre, as famílias pobres e também as de renda média baixa. Essas famílias têm sido favorecidas muito mais pelo assistencialismo e pelo populismo do que pelas oportunidades de avanço profissional, de modernização econômica e de conquista de maior independência.
Inflação contida, mas distante da meta,
soma-se a um escasso investimento produtivo e a um baixo ritmo de expansão
econômica, mantendo o País num atoleiro de mediocridade e de enorme desperdício
de potencial. No ano passado, o setor público e o setor privado investiram em
meios físicos de produção – máquinas, equipamentos, obras e instalações – uma
soma correspondente a 16,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Outros emergentes
alcançaram taxas iguais e até superiores a 18%, ampliando muito mais velozmente
seu potencial de crescimento e de modernização.
Enquanto analistas mostram inquietação diante
das estimativas de alta de preços, o governo avança em medidas populistas, como
linhas de crédito facilitado para compras de caminhões, ônibus e táxis, com
novos custos para o poder federal. Pesquisas têm apontado ampliação da vantagem
eleitoral de Lula em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato da
oposição à Presidência da República. Mas esse avanço é atribuível também a
fatores estranhos ao desempenho do governo.
Pelo menos em parte, o enfraquecimento da
candidatura oposicionista tem sido atribuído ao relacionamento, recentemente
exposto, do filho de Jair Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, suposto
fornecedor de recursos para um filme sobre o ex-presidente. O uso de expressões
como “irmão” nas comunicações entre o senador e o bilionário indica uma
aparente proximidade, pouco recomendável neste momento. Políticos da oposição
defenderam a renúncia de Flávio Bolsonaro à candidatura, mas a ideia foi
rejeitada pelo menos inicialmente.
Carente de propostas, projetos e programas, a
disputa eleitoral se mantém, pelo menos até agora, polarizada entre a extrema
direita, representada pelo bolsonarismo e por grupos ultraconservadores, e, do
outro lado, pela esquerda e por grupos do centro liberal e do
liberal-esquerdista. Marcado principalmente pelo confronto ideológico, o
cenário contém pouquíssima indicação dos possíveis caminhos econômicos, sociais
e institucionais disponíveis para os brasileiros nos próximos anos.
Nenhum dos candidatos mais competitivos
apresentou roteiros de trabalho ilustrados com prioridades econômicas e
sociais, projetos de obras, programas de inclusão, propostas educacionais,
sequências de investimentos, formas de cooperação entre os setores público e
privado, compromissos de recuperação e estabilização das finanças públicas e
aperfeiçoamento de relações entre os Poderes da República. Os candidatos já
conhecidos ou ainda potenciais pouco ou nada representam, até agora, além de
compromissos mais ou menos firmes com a direita, a esquerda e um conjunto
vagamente rotulado de Centrão.
Enquanto isso, o presidente Lula vai usando
os meios governamentais para favorecer grupos profissionais, como taxistas e
motociclistas, num esforço para ampliar e consolidar segmentos de uma base
eleitoral. Esforço semelhante vem sendo aplicado na tentativa de atrair grupos
ideológicos e religiosos diferenciados, como algumas correntes evangélicas.
Apesar desse esforço, também o governo
continua devendo, pelo menos ao público mais atento, um discurso mais claro e
mais detalhado sobre planos e projetos para a economia e para a organização
social e política.
Estarão o presidente e seus auxiliares
dispostos a aceitar por mais quatro anos o crescimento medíocre observado na
maior parte deste século? Estarão pensando em como ampliar o investimento
produtivo e modernizador? Terão desenhado roteiros de desenvolvimento setorial,
com programas e projetos para a indústria de transformação, a agropecuária, o
mundo financeiro, o riquíssimo segmento mineral, a valorização dos diferentes
biomas, cuidando ao mesmo tempo da expansão e da diversificação da economia
externa? Quais serão suas ideias e ambições para a ciência e a tecnologia?
O Brasil tem sido há muito tempo um emergente
promissor, mas condenado, aparentemente, a um crescimento anual próximo de 2%,
completado por uma inflação mais ou menos contida, mas persistente. Em sua
última projeção, o Banco Mundial reviu de 2% para 1,9% a expansão do PIB
brasileiro estimada para este ano. Juros altos são parte da explicação, mas o
Banco Central justifica esses juros apontando a inflação resistente e a
insegurança das contas públicas. O presidente da República, no entanto, parece
continuar olhando para outro lado.

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