sábado, 18 de abril de 2026

Dívida sai da periferia; chega ao centro, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A nova era da dívida dos países está criando uma geografia da desigualdade

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recentemente reduziu a projeção de crescimento de 2026 do PIB mundial de 3,4% para 3,1% no seu cenário base. Outros cenários apresentam que crescimento pode cair para 2,5% ou até 2%. Alertando que a economia global está sendo testada por choques, enfrentando riscos crescentes e pode entrar em cenário adverso rapidamente. Traduzindo em miúdos: O mundo ainda não entrou em recessão – mas passou a caminhar perigosamente para ela.

O ponto importante é que os governos estão menos capazes de reagir. A resiliência econômica que estávamos assistindo pode não ter força para evitar um cenário pior. Os gatilhos desse caminho são claros. As guerras e a consequente crise energética, inflação persistente e juros elevados. Um elemento que torna o sistema mais vulnerável é o alto endividamento dos países. O risco, portanto, não é apenas de desaceleração – mas de uma desaceleração mais difícil de conter.

O quadro global mostra que o problema é sistêmico. O nível da dívida pública global é de aproximadamente 94% do PIB em 2025 e a projeção é de que atinja 100% até 2029. Até mesmo os EUA que são o centro do sistema – e da dívida – já não são imunes. O déficit fiscal americano é da ordem de 7% do PIB, com uma dívida em torno de 120% do PIB.

Na Europa, hoje os países mais fragilizados são França, Itália e Reino Unido com faixa de endividamento entre 100% e 140% do PIB. Esses países são conhecidos como BIFs (acrônimo com iniciais de Britain, Italy e France) e os três com crescimento baixo, déficit persistente e aumento do custo da dívida.

Pelo nosso lado, o Brasil apresenta dívida relativa menor, mas com maior fragilidade estrutural. Nossa dívida bruta hoje está na faixa de 80% do PIB. Mais do que o tamanho da dívida, o problema brasileiro é o seu custo. Enquanto a nossa taxa básica está em 14,75% ao ano, o País destina algo próximo de 8% do PIB apenas para pagar juros – um peso fiscal que poucos emergentes enfrentam.

O que esses dados gerais estão nos mostrando é que, ao contrário de outros tempos, não mais existe um “grupo de risco isolado”. O problema deixou de ser localizado e passou a ser estrutural. A diferença entre países não está mais no tamanho da dívida, mas na capacidade de financiá-la. A nova era da dívida não cria apenas um problema de solvência; ela cria uma geografia da desigualdade.

Os países ricos conseguem postergar a conta e os pobres pagam prêmio mais alto. Em vez de o sistema financeiro internacional transferir capital para o desenvolvimento, ele passou a retirar capital dos mais frágeis. O Unicef resume isso de forma dura: quando crises fiscais apertam, os cortes costumam atingir os serviços que dão estabilidade mínima às famílias vulneráveis. 

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