Ameaça de Gilmar Mendes a senador é desproporcional
Por Folha de S. Paulo
Reação do ministro do STF viola o princípio
constitucional que protege palavras e votos dos parlamentares
Mendes e colegas optam por fechar-se em copas
e contra-atacar com superpoderes os críticos que cobram limites e compostura no
tribunal
Para um ministro do Supremo Tribunal Federal,
há dois modos de lidar com a crise de credibilidade que atinge o colegiado. O
mais razoável é admitir que existem problemas de
condutas de juízes e de excesso de poder da corte e, a partir
daí, entabular uma agenda para corrigi-los com cuidado e equilíbrio.
O segundo é o encastelamento. Faz-se de conta que toda crítica a um colega ou ao modo de operação do tribunal compõe um complô para acabar com a democracia. A partir daí, a receita manda contra-atacar, valendo-se de todo o amplo arsenal hoje acessível a um integrante do STF.
O ministro Gilmar Mendes se
filia ao clube dos que preferem se fechar em copas e bater de volta. Não é de
estranhar, embora seja de lamentar, a sua reação desproporcional à tentativa
demagógica de indiciá-lo pelo relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro
Vieira (MDB-SE).
Vieira não consta de nenhuma relação de
direitistas extremados do Congresso
Nacional, mas cometeu o erro primário de tentar responsabilizar
criminalmente um juiz pelo teor das suas decisões. Trata-se, no
caso, das ordens de Mendes que impediram a quebra de sigilos de empresas
ligadas a Dias Toffoli,
requeridas pela CPI.
A proposta infeliz do relator foi severamente
criticada e logo derrotada em votação pela própria comissão senatorial. Seria
só mais um episódio de politicagem parlamentar, fulminada no ninho, não fossem
as reações ameaçadoras de dois ministros do STF.
Toffoli, em declaração confusa, ameaçou o
senador com a inelegibilidade. Gilmar Mendes foi além da vociferação e requereu
ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, uma
investigação contra o senador sergipano.
Da mesma maneira que não se pode punir um
magistrado apenas pelo conteúdo da decisão que profere, é vedado pela
Constituição assediar criminalmente um senador pelas declarações e pelos votos
que dá. Espera-se que a maioria criativa do Supremo não esteja a ponto de
reescrever também esse princípio fundamental dos direitos políticos no Brasil.
Pelo lançamento dessa espécie de míssil
jurídico contra um senador da República, Gilmar Mendes talvez esteja enviando
recado para quem se atrever a fazer andar pedidos de impeachment contra
integrantes da corte, que se acumulam sobre a mesa do presidente Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP).
A insistência de Gilmar Mendes e colegas na
corrida armamentista, no entanto, arrisca-se a levar o estrato moderado da
opinião pública e da política a entender que não haverá caminho que não seja
conflituoso para reformar o STF e estabelecer limites à atuação dos seus integrantes.
Pela primeira vez na Nova República, a
reforma do Supremo caminha para ser pauta obrigatória de todas as principais
candidaturas, incluindo a petista. Isso mostra que reequilibrar o papel da
corte tornou-se uma agenda da maioria da população, não restrita a minorias
radicais. Só não vê o ministro que não quer ver.
Cabe ao TSE decidir sobre vácuo de poder no
Rio
Por Folha de S. Paulo
Impasse decorre de interpretações
divergentes; presidente da Alerj deveria assumir até solução definitiva
O imbróglio, como tem sido mais frequente do
que desejável, chegou por várias vias ao STF; proliferaram pontos de dissenso
na corte
O Rio de
Janeiro não é mesmo para amadores. Nas últimas semanas, o
segundo estado mais rico do país tem desafiado uma das máximas mais repetidas
da política: a de que não existe vácuo de poder.
Desde que Cláudio
Castro (PL) renunciou
à cadeira de governador, em 23 de março, não se sabe ao certo quem
manda —e menos ainda quem mandará daqui em diante— no Palácio Guanabara.
É que a linha sucessória fluminense começou a
ser borrada em maio do ano passado, quando Thiago Pampolha (MDB), então
vice-governador, abandonou o posto para se tornar conselheiro do Tribunal de
Contas do Estado.
O próximo nome na cadeia de comando seria o
de Rodrigo
Bacellar (União Brasil),
presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Após
operação da Polícia Federal, contudo, ele foi afastado do cargo por
ordem do ministro Alexandre de
Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A missão, assim, caiu no colo de Ricardo
Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio. Em condições
normais, o desembargador, que reconheceu seu despreparo para a função, deveria
exercer um mandato-tampão de curtíssimo prazo.
Da política fluminense, entretanto, pode-se
esperar tudo, menos condições normais.
A valer a Constituição Estadual,
a Alerj conduziria uma eleição indireta 30 dias após a renúncia de Castro. Só
que há um asterisco: como ele saiu do cargo às vésperas de ser julgado no
Tribunal Superior Eleitoral, pode-se considerar que seu verdadeiro propósito
era evitar a cassação.
Se era isso, não deu certo, pois o TSE o
declarou inelegível da mesma forma. Mas as consequências da manobra não
terminam aí. Caso a corte avalie que Castro tentou fraudar o processo, a
renúncia pode restar sem efeito —e, com a cassação do diploma, o Código
Eleitoral prevê a realização de nova eleição direta.
O imbróglio, como tem sido mais frequente do
que desejável, chegou por várias vias ao STF. Nas
inúmeras manifestações dos ministros, multiplicaram-se os pontos de dissenso,
do formato da eleição ao prazo de desincompatibilização para os candidatos.
Em meio a tanta confusão, duas coisas parecem
certas. A primeira é que, com a escolha de Douglas Ruas (PL) como
novo presidente da Alerj, ele deveria assumir o mandato-tampão,
conforme estatui a Constituição Estadual.
A segunda é que cabe ao TSE, não ao STF, esclarecer sua avaliação sobre a renúncia de Castro. Que a corte eleitoral anuncie seu entendimento o quanto antes, para ajudar a dissipar a espuma.
Projeto orçamentário de 2027 reflete incúria
fiscal
Por O Globo
Dívida pública, de 73,5% do PIB no início do
mandato, é projetada em 86% até o final do ano que vem
Enviado nesta semana ao Congresso, o Projeto
de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) para 2027 é mais uma evidência de que
o presidente Luiz Inácio da Silva não dá a menor importância ao imperativo de
ajustar as contas do governo. Na projeção otimista da equipe econômica, a
dívida pública, atualmente equivalente a 79% do Produto Interno Bruto (PIB),
chegará no ano que vem a 86% e, dois anos depois, a 87,8%. Quando Lula assumiu,
estava em 73,5%. A postura do governo diante de tal quadro não surpreende. A
incúria fiscal foi a marca do terceiro mandato de Lula.
É verdade que o PLDO para o ano que vem tem
pontos positivos. Um deles diz respeito às dívidas da União em que não há mais
recurso judicial possível, chamadas precatórios. No governo Jair Bolsonaro, o
Congresso aprovou um calote disfarçado. Em vez de os débitos serem quitados
após decisão da Justiça, o governo passou a saldar dívidas apenas até um limite
anual. No início do atual mandato, os pagamentos de precatórios foram excluídos
do cálculo da meta fiscal, de modo a abrir espaço a mais gastos. Mas, pela
regra, em 2027, deveriam entrar na meta pelo menos 10% desses pagamentos. É um
alento que, no material enviado ao Congresso, o governo tenha se comprometido a
aumentar essa parcela a 39,4%. Outra notícia alvissareira foi a manutenção da
meta de superávit primário em 0,5% do PIB. É um percentual ainda distante do
necessário para um ajuste gradual das contas
públicas (estimado em no mínimo 1,5% do PIB). Mesmo assim, ante o
histórico deste governo, foi uma surpresa positiva.
Ainda entre os avanços, a proposta prevê, em
respeito às regras do arcabouço fiscal, a ativação de gatilhos para conter
despesas, devido ao déficit registrado em 2025. Ficam vedadas concessão,
ampliação ou prorrogação de benefício tributário e proibido o crescimento real
da despesa de pessoal acima de 0,6%. “O governo se embasou numa ambiguidade da
lei para fazer com que o descumprimento da regra em 2025 tivesse efeito apenas
em 2027”, diz a consultoria BRCG. “Feita essa ressalva, é importante que regras
como essas sejam cumpridas.”
Tais acertos do PLDO não compensam, porém, as
enormes deficiências. Além de as metas fiscais serem tímidas ante a lista de
exceções que costumam ficar fora do cálculo, o cenário usado como base pelo
Tesouro é irreal. As projeções oficiais de crescimento da economia estão acima
da média dos analistas de instituições financeiras. Esse otimismo não é
inofensivo, porque infla as estimativas de receita. Na opinião de analistas,
elas estão superestimadas no PLDO. As despesas, em contraste, continuam a ser
engessadas e a crescer em razão de regras sem sentido, como a vinculação dos
benefícios previdenciários ao salário mínimo ou os pisos obrigatórios de gasto
em áreas como educação e saúde.
Quando assumiu, Lula era veemente no
compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Chegava a ficar ofendido
quando criticado e mencionava mandatos anteriores para lembrar suas credenciais
na área fiscal. Quando acabar seu terceiro mandato, a dívida pública terá
crescido quase 10 pontos percentuais. O que se viu desde 2023 foi gastança e
aumento de impostos. Pelo PLDO enviado ao Congresso nesta semana, o próximo
governo — seja quem for o presidente eleito — não terá escapatória a não ser
promover um ajuste fiscal robusto e confiável.
Descontrole no uso de voos da FAB requer
regras transparentes e objetivas
Por O Globo
TCU constatou desperdício e ineficiência, com baixa ocupação e viagens sem justificativa convincente
São flagrantes o descontrole, o desperdício e
a ineficiência no uso de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) por
autoridades, como constatou auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU). Num
país de gastos públicos nas alturas, é injustificável o uso contumaz de voos da
FAB, 6,4 vezes mais caros que aviões de carreira de acordo com o TCU. O hábito
se torna mais pernicioso quando se constata que as baixas taxas de ocupação não
justificariam a decolagem.
O TCU analisou 7.491 voos e o transporte de
73 mil passageiros, entre janeiro de 2020 e julho de 2024. Desses, foram
registrados 111 com apenas um passageiro. Em 1.585 (21%), havia no máximo
cinco. Não se trata de situação excepcional. A taxa média de ocupação é de 55%,
revelando subutilização recorrente. Os gastos estimados no período chegaram a
R$ 285 milhões.
Outro problema é a falta de controle. Numa
amostra de 266 voos, não havia identificação adequada dos passageiros em cerca
de 70%. Havia casos sem indicação da finalidade da viagem ou agenda oficial da
autoridade, dificultando a verificação de interesse público. O TCU constatou
ainda que faltavam justificativas consistentes para escolha das aeronaves
oficiais em detrimento de voos de carreira.
Pelas regras vigentes, podem utilizar aviões
da FAB o vice-presidente da República, os presidentes do Supremo Tribunal
Federal, do Senado e da Câmara dos Deputados, ministros de Estado, comandantes
das Forças
Armadas e o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. O
ministro da Defesa pode autorizar o uso das aeronaves por autoridades nacionais
e estrangeiras. Deve-se obedecer a uma ordem de prioridade: emergência médica
(exige-se documento assinado por profissional de saúde), segurança, viagem a
serviço (com registro da atividade oficial). Normas, portanto, existem. Nem
sempre são cumpridas.
Diante das falhas detectadas, o TCU
determinou que Casa Civil, Ministério da Defesa e Comando da Aeronáutica apresentem,
em até 30 dias, um plano para reformular as regras do transporte aéreo de
autoridades, de modo que as novas diretrizes possam ser implementadas em 180
dias. A Corte tem razão ao exigir critérios objetivos para justificar o uso do
avião da FAB, como comprovação de necessidade e identificação completa dos
passageiros, incluindo cargos e CPFs. E também normas claras para ocupação de
vagas remanescentes ou para autoridades sem a prerrogativa de usar os aviões.
Independentemente das medidas administrativas, é desejável que o Congresso debata o assunto. Em março, o senador Eduardo Girão (Novo-CE) protocolou projeto restringindo o uso dos aviões da FAB para transporte institucional. Passou da hora de disciplinar a questão. Para além dos abusos, costuma haver sigilos injustificáveis sobre as viagens. Operar e manter as aeronaves custa caro ao contribuinte. Não faz sentido levantar voo com pouquíssimos passageiros a bordo, em viagens nem sempre defensáveis, para atender a interesses obscuros. Avião da FAB não é jatinho particular.
Corrupção pura e simples
Por O Estado de S. Paulo
Prisão do ex-presidente do BRB sugere que o
banco do Distrito Federal foi parte ativa do esquema criminoso do Master, e não
apenas vítima de negligência administrativa ou má governança
Até ontem, o governo federal não havia
respondido ao pedido do Distrito Federal para ajudar no plano de socorro ao
Banco de Brasília (BRB), que é estatal. A governadora do DF, Celina Leão (PP),
queixou-se de que falta “boa vontade” ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Ora, o problema do BRB é do DF, e não da União, razão pela qual faz bem o
presidente Lula de nem sequer responder ao desarrazoado pedido. Ainda mais na
semana em que o País teve a confirmação de que o BRB entrou em colapso não
somente como consequência de barbeiragens administrativas, mas sobretudo porque
se deixou envolver em relações corruptas com o Banco Master.
Investigações da Polícia Federal encontraram
indícios robustos de que, em troca de um punhado de apartamentos de luxo, o
então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, teria aceitado transformar o
banco público no rim que manteria vivo o organismo do Master, que respirava à
base de papelório fraudulento e fundos picaretas.
Quando anunciou a operação de compra de parte
do Master, em março do ano passado, Costa declarou que o negócio casava com a
estratégia de crescimento do BRB, banco regional que buscava converter-se em
nacional.
Na decisão em que autorizou a prisão do
ex-presidente do BRB, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André
Mendonça afirmou que Costa “teria colocado a presidência do BRB a serviço da
manutenção da liquidez do Master” e, ao mesmo tempo, sido “beneficiário direto
de vantagem indevida”. Ademais, a atuação de Costa, segundo Mendonça, “não se
limita a uma negligência administrativa ou deficiência de governança, mas
alcança, em tese, a adesão consciente ao arranjo criminoso”.
Barrada pelo Banco Central, que
posteriormente decretou a liquidação extrajudicial do Master, a compra desse
banco pelo BRB foi desde o início vista com suspeição pelo mercado financeiro.
Temia-se, não sem razão, que recursos públicos estivessem sendo empregados para
salvar um empreendimento privado gerido de forma temerária, para dizer o
mínimo.
Mas as investigações da PF que resultaram na
prisão de Costa, contudo, sugerem que algo ainda pior teria ocorrido: o BRB,
até então um banco sólido, foi conscientemente utilizado em uma trama que
buscava, apenas e tão somente, encobrir as falcatruas do Master.
Em vez de ganhar musculatura nacional, o BRB
agora precisa desesperadamente encontrar uma salvação para si mesmo, missão que
já era difícil e que, com a prisão de seu ex-presidente, torna-se ainda mais
complicada.
Embora o Banco Central tenha reiterado que
não pretende tomar decisões extremas em relação ao BRB, a possibilidade de que
a instituição do Distrito Federal acabe, ironicamente, tendo o mesmo destino do
Master e sendo liquidado extrajudicialmente não é desprezível.
A esta altura dos eventos, muito dificilmente
um grupo privado se comprometeria com um banco tão encalacrado quanto o BRB,
cujo balanço, que nem sequer foi divulgado, está contaminado pelos ativos
podres do Master e cujo rombo é provavelmente superior a R$ 5 bilhões.
O futuro pouco alvissareiro do BRB está
entrelaçado à decisão passada de se envolver com o Master. Está cada vez mais
evidente que não se tratava de um negócio, mas de negociata. Consta que o agora
preso ex-presidente do BRB andou espalhando que seu celular reúne provas contra
outras pessoas supostamente envolvidas. Pode ser estratégia para buscar
proteção e algum acordo, como está fazendo o próprio dono do Master, Daniel
Vorcaro, e pode ser apenas bravata. Mais uma razão para alimentar o clima de
tensão em Brasília.
De concreto, independentemente de eventuais
revelações comprometedoras de Costa, sabe-se que durante a gestão do
ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) no Distrito Federal houve grande empenho para
que o negócio entre BRB e Master saísse do papel.
Inicialmente, a gestão de Ibaneis encaminhou
a compra do Master sem a anuência prévia da Câmara Legislativa local. Esta, por
sua vez, quando finalmente teve a oportunidade de tratar do assunto, aprovou o
negócio a toque de caixa.
Ibaneis jura de pés juntos que não tem nada a
ver com o escândalo do Master.
O superávit de mentirinha
Por O Estado de S. Paulo
Governo Lula apresenta diretrizes
orçamentárias com superávit de R$ 73,6 bi, que, na prática, pode virar rombo de
R$ 29,1 bi, o que confirma o descompromisso com as contas públicas
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva
apresentou o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027.
Trata-se do instrumento legal que estabelece as regras para a elaboração do
Orçamento do primeiro ano do próximo presidente. E, se depender do otimismo da
gestão lulopetista, quem ocupar o Palácio do Planalto a partir de 1.º de
janeiro só terá bonança.
Isso porque o governo federal projeta um
superávit primário de R$ 73,6 bilhões. Ou seja, a equipe econômica de Lula
promete que a diferença entre as receitas e as despesas, descontados os juros
da dívida pública, fechará no azul. Com isso, a meta fiscal estabelecida é de
0,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
Ocorre que o arcabouço fiscal do PT é
camarada: a meta fiscal tem um limite para baixo e para cima. Isso, por si só,
permite um estica e puxa nos números. Não menos importante, há despesas que,
convenientemente, ficam fora da meta – e para 2027 essas exceções, como parte
dos precatórios (dívidas judiciais), chegarão a R$ 65,7 bilhões.
Logo, a realidade desautoriza o entusiasmo: o
PLDO pode até prever um saldo positivo, mas, quando os cálculos são feitos sem
contorcionismos orçamentários, o resultado fiscal varia de um modesto superávit
primário efetivo de R$ 8 bilhões a um rombo significativo de R$ 29,1 bilhões no
ano que vem. Ou seja, a conta, na verdade, pode fechar no vermelho de novo.
E é claro que tamanho descompasso causa
distorções. Como bem escreveram os economistas Felipe Salto, Josué Pellegrini e
Daniel Ferraz, em relatório da Warren Rena, persiste, no PLDO de 2027, “a
situação observada nos últimos anos, vale dizer, metas cumpridas, mas com
sucessivos déficits primários, que acabam pressionando os juros e a dívida
pública”.
Não restam dúvidas de que as metas e as
projeções traçadas pelo governo estão superestimadas. Exemplo disso é a
previsão para o PIB: para o próximo ano, o governo Lula estima uma alta de
2,56%, enquanto o mais recente boletim Focus,
do Banco Central (BC), que compila as projeções de analistas de mercado, prevê
um crescimento bem menor, de 1,8%.
Já a dívida pública bruta, no cenário do
governo, chegará a 86% do PIB em 2027. O Fundo Monetário Internacional (FMI),
por sua vez, estima que a dívida do País baterá 100% do PIB. Embora o
Ministério da Fazenda justifique que as projeções menos favoráveis do FMI
derivem de uma diferença metodológica, o fato inconteste é que,
independentemente do modelo de cálculo, a trajetória da dívida é de crescimento
e em alta velocidade: antes da posse de Lula, em 2022, a dívida era de 71,7% do
PIB. Como se vê, a matemática é implacável.
O compromisso com o superávit primário não é
uma firula orçamentária: é a sinalização aos investidores de que o governo
trabalha pela sustentabilidade da dívida pública, reduzindo o risco de calote.
Quem faz o contrário rola a bola de neve, como uma fatura do cartão de crédito
paga só pelo valor mínimo. Prova disso é a dívida legada por Lula ao Brasil.
Num círculo vicioso, o País está preso à
armadilha dos juros e da dívida em alta. Os gastos públicos crescentes do
governo Lula pressionam a inflação, obrigando o BC a manter a taxa básica de
juros, a Selic, em patamar elevadíssimo, desestimulando os investimentos,
encarecendo o crédito e o custo de vida, dificultando os financiamentos, como o
imobiliário, e elevando ainda mais a dívida pública.
Lula chegou a dizer que o BC precisa
reconhecer o esforço do seu governo em cortar gastos e, assim, baixar a Selic.
Ora, se esforço há, ninguém notou. É justamente por reconhecer que as contas
públicas não vão nada bem, como atestam todos esses números, que a Selic está
em 14,75% ao ano. E, sem ela, a inflação estaria fora da meta.
Realismo fantástico fiscal não é compromisso
com as contas públicas, é maquiagem. O Brasil precisa abraçar a
responsabilidade fiscal na gestão do Orçamento, garantir a sustentabilidade das
contas públicas, transmitir confiança aos agentes de mercado e recuperar a
credibilidade perdida. Por ora, seja lá quem vença a eleição, o próximo
presidente da República terá de ser prestidigitador e executar um planejamento
orçamentário ficcional.
O dilema do Líbano
Por O Estado de S. Paulo
Entre Israel e Hezbollah, libaneses decidem
seu futuro sob risco de guerra civil
O cessar-fogo de dez dias entre Israel e o
Líbano trouxe alívio imediato a uma fronteira que, por semanas, esteve à beira
de uma escalada brutal. Mas a trégua nasceu sob pressão externa, com termos
incompletos e interpretações divergentes. Nem de longe ela encerra o conflito.
É uma pausa operacional – e volátil –, não um acordo político.
Para Beirute, o intervalo é ao mesmo tempo um
ganho e um teste. O governo conseguiu conter a guerra no curto prazo ao aceitar
negociações diretas – um gesto impensável até recentemente. Agora, precisa
lidar com o problema que a trégua apenas adiou. O Hezbollah segue armado, ativo
e fora do controle estatal. O dilema é conhecido, mas nunca foi tão explícito:
avançar contra o grupo implica risco de convulsão interna; evitar o confronto
deixa aberta a possibilidade de novas ofensivas de Israel.
Essa escolha, no entanto, não é plenamente
soberana. O Estado libanês carece de instrumentos para impor suas decisões. O
Hezbollah não é apenas uma milícia, mas um ator político e social com presença
enraizada em partes da população. Ao mesmo tempo, o espaço de manobra de
Beirute é limitado por pressões externas. Washington impulsiona a negociação;
Teerã preserva sua influência por meio do grupo; Israel define suas exigências
em termos de segurança. O Líbano precisa decidir, mas não controla todas as
variáveis que determinam o resultado.
Do outro lado da fronteira, a estratégia
israelense aponta para um modelo de contenção contínua. A manutenção de uma
zona de segurança dentro do território libanês e a insistência em liberdade de
ação militar sugerem que, mesmo sob cessar-fogo, o conflito não desaparece, só
assume novas formas. Essa abordagem pode reduzir riscos imediatos para Israel,
mas tampouco resolve o problema que pretende administrar. A presença prolongada
pode aprofundar a fragilidade do Estado libanês e reforçar, entre os xiitas, a
narrativa de resistência que sustenta o Hezbollah.
Tudo isso confere uma densidade incomum ao
drama libanês. O desafio não é apenas desarmar um grupo armado, mas lidar com
um ator que combina à sua capacidade militar inserção política e base social.
Pressões externas podem degradar suas estruturas, mas dificilmente eliminam as
condições de sua resiliência. Por outro lado, a inação perpetua um arranjo em
que o Estado compartilha, de fato, o monopólio da força.
Nesse cenário, a perspectiva mais plausível
não é a de uma solução rápida. Se houver avanço, virá por etapas: medidas
limitadas de segurança, negociações prolongadas, tentativas graduais de
reforçar a autoridade estatal. Cada passo envolve custos e pode ser revertido.
O tempo, que hoje abre uma janela, pode também fechá-la.
O cessar-fogo, portanto, não resolve os conflitos que o tornaram necessário. Apenas cria um espaço em que eles podem ser administrados. O Líbano se vê diante de escolhas duras, feitas sob condições que não controla plenamente. Cada uma delas envolve custos e não virá sem dor. O risco não está apenas em optar por um caminho equivocado, mas em descobrir que nenhuma das opções é suficiente para produzir estabilidade duradoura.
O valor estratégico das terras raras
Por Correio Braziliense
O Brasil precisa integrar a mineração de
terras raras a um projeto de reindustrialização, sobretudo em setores como
energia renovável, mobilidade elétrica e defesa
O debate sobre terras raras ressalta um
dilema secular da economia brasileira: permanecer como exportador de
matérias-primas ou avançar na direção de uma estratégia de industrialização e
agregação de valor capaz de transformar recursos naturais em riqueza,
tecnologia e poder geopolítico. Em um mundo marcado pela transição energética e
pela digitalização, minerais como neodímio, praseodímio, disprósio, térbio,
lantânio e cério, insumos industriais com demanda crescente, passaram a ocupar
o centro de uma disputa estratégica entre grandes potências.
Terras raras são elementos essenciais para a
produção de ímãs permanentes usados em veículos elétricos e turbinas eólicas,
baterias, catalisadores, fibras ópticas, equipamentos médicos e sistemas de
defesa. O Brasil não é irrelevante nesse tabuleiro. Contamos com algumas das
maiores reservas potenciais de terras raras do mundo, estimadas em dezenas de
milhões de toneladas, com destaque para depósitos em Minas Gerais, Goiás
e Amazonas. Também há ocorrência significativa desses minerais em rejeitos de
mineração e em depósitos associados ao nióbio, o que amplia o potencial de
exploração.
Apesar dessa vocação geológica, o país ainda
ocupa uma posição marginal nessa cadeia global de valor; a produção nacional é
incipiente, concentrada em operações piloto ou de pequena escala. São raros os
projetos em fase mais avançada. Não dominamos as etapas críticas de separação e
refino, que são processos químicos complexos e intensivos em tecnologia, nem
possuímos uma indústria consolidada de produtos de alto valor agregado, como
ímãs de alto desempenho. Repete-se o padrão histórico retardatário: exportamos
minério bruto ou concentrado e importamos, a preços muito mais elevados, os
mesmos materiais industrializados ou embarcados em bens de consumo duráveis,
máquinas e equipamentos.
Há um conjunto de projetos de lei que tratam
da exploração de minerais estratégicos, incluindo terras raras, com propostas
que vão desde maior controle estatal até incentivos à participação privada. A
indefinição regulatória, somada à morosidade legislativa, cria insegurança
jurídica e afasta investimentos de longo prazo — justamente aqueles necessários
para viabilizar plantas de beneficiamento, centros de pesquisa e cadeias
industriais completas.
No plano político, o senador Flávio Bolsonaro
sinaliza uma estratégia de alinhamento com os EUA, país que busca reduzir sua
dependência da China, que hoje é responsável por cerca de 70% a 80% da produção
global e a quase totalidade do refino de terras raras. Já o presidente Lula
defende que a exploração desses recursos deve estar condicionada ao
beneficiamento interno, como forma de garantir geração de emprego, renda e
desenvolvimento industrial.
A divergência revela escolhas de política
externa: definir o lugar do Brasil na nova economia global. Ser apenas o elo
inicial da cadeia — exportador de concentrados minerais — implica capturar uma
fração reduzida do valor total. Por outro lado, investir em processamento,
refino e manufatura exige coordenação entre Estado e mercado, financiamento de
longo prazo, formação de mão de obra qualificada e desenvolvimento tecnológico.
Para isso, é necessário um marco regulatório claro e estável, que equilibre soberania nacional e atração de investimentos. Políticas industriais e de inovação que incentivem a instalação de plantas de separação e refino no país, reduzindo a dependência externa. E criação de fundos, crédito subsidiado, parcerias público-privadas, indispensável aos projetos de risco e maturação lenta. Portanto, precisamos integrar a mineração de terras raras a um projeto de reindustrialização, sobretudo em setores como energia renovável, mobilidade elétrica e defesa.
Aumentam as críticas ao presidente americano
Por O Povo (CE)
Democratas intensificam apelos para que se
invoque a 25ª emenda para afastar Trump do poder por incapacidade
É longa a lista de chefes de Estado, aliados
dos EUA, que o presidente americano, Donald Trump, atacou gratuitamente, com
palavras agressivas ou anunciando medidas de intervenção nesses países.
Pode-se listar o Canadá, que ele sugeria
anexar como o 51º estado americano ou a Dinamarca, ameaçando tomar a
Groenlândia pela força. Além deles, Trump já reservou palavras desagradáveis,
desdenhosas e xingamentos para os líderes da França, Alemanha, Espanha e do
Reino Unido.
Trump costuma agir como um animador de
auditório e não o chefe da maior potência econômica e militar do mundo. Seu
comportamento apequena a Presidência como nenhum outro dirigente americano o
fez, sem preocupar-se com os estragos que a sua atitude arbitrária acarreta.
Seu mais recente alvo foi o papa Leão XIV,
líder religioso de cerca de 1,4 bilhão de católicos espalhados por todo o mundo
— e chefe de Estado do Vaticano.
Incomodado pelo fato de o papa pedir pela paz
no mundo a cada aparição pública, cumprindo o seu dever de guia espiritual
cristão, Trump resolveu descarregar sua bile contra o Sumo Pontífice. É um
padrão do ocupante da Casa Branca, que, quando se vê em dificuldade — como o
fracasso que vem experimentando na guerra contra o Irã —, procura uma
"polêmica" para desviar a atenção pública do assunto central.
Em sua rede social, Trump escreveu que o papa
é "fraco no combate ao crime e péssimo em política externa". Leão XIV
respondeu com tranquilidade: "Não tenho medo do governo Trump nem de falar
abertamente sobre a mensagem do Evangelho".
Para deixar a situação ainda mais grave,
Trump publicou uma imagem gerada por inteligência artificial, mostrando-o como
uma figura semelhante a Jesus, curando um doente.
Desta vez, ele parece ter ido longe demais,
até para os seus padrões abjetos, o que levou a uma onda de solidariedade ao
papa. Até mesmo a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, com posição
ideológica próxima à de Trump, criticou a Casa Branca. Em claro posicionamento
a favor do papa, ela declarou: "Considero inaceitáveis as declarações do
presidente Trump sobre o Santo Padre". A política bélica de Washington vem
sofrendo críticas até de setores de direita da base trumpista.
Além disso, o comportamento instável do chefe
da Casa Branca vem sendo cada vez mais questionado. Em artigo no New York Times
(13/4/2026), Peter Baker, principal correspondente do jornal americano na Casa
Branca, escreve que "o comportamento errático e os comentários
extremistas" de Trump intensificaram o debate nos últimos dias "se
ele é astuto como uma raposa ou simplesmente louco".
A integridade psíquica de Trump é questionada cada vez com mais frequência, inclusive pelos seus aliados mais aguerridos. Quanto aos democratas, escreve Baker, eles intensificaram os apelos para que se invoque a 25ª emenda para afastar o presidente do poder por incapacidade".

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