sábado, 18 de abril de 2026

O vão entre as palavras, por Eduardo Affonso

O Globo

Talvez consigamos produzir similar nacional para a palavra de primeira necessidade neste país

Alguém comentou no X (onde mais?) que blackface é um problema tão grave no Brasil que nem sequer existe palavra em português para designá-lo. Procede. Mas nem tanto.

A falta de timing é um caso sério entre nós, e tampouco encontramos um jeito nosso de expressar essa “sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo, ou senso de oportunidade quanto à duração de um processo, uma ação etc.”. Perdão, Houaiss, mas timing é melhor.

Inglês tem essa vantagem: tudo é mais compacto. Tivemos um bom exemplo disso quando o metrô do Rio foi civilizado o suficiente para ter locução bilíngue. Para os nativos, a mensagem era “Ao desembarcar, verifique o vão entre o trem e a plataforma” — 11 palavras, 49 letras, quatro segundos. Em inglês bastava “Mind the gap” — três palavrinhas, dez letrinhas, um segundinho e meio. E aposto que os gringos caem muito menos naquele buraco do que nós.

Diferentemente do blackface, as notícias falsas são um problemaço. Governo e oposição disputam para ver quem as cria e divulga com mais empenho, mas a expressão remete a falsidade, farsa, fraude. Fake news, nem tanto — é asséptica, cool. Talvez por isso tenhamos preferido a expressão alienígena.

Mesma coisa com “impedimento” — regra complicada (vide o futebol) que dá a impressão de que algo de muito ruim precisa ser interrompido logo, antes que piore. Ou com “cassação”, que evoca (por homofonia) perseguição mata adentro, de espingarda em punho. Impeachment soa como um ato cirúrgico, intervenção de rotina para resolver um probleminha e já voltamos à programação normal. Jamais teríamos conseguido cassar Collor e Dilma, ou impedir que fizessem o que fizeram. E parece uma graça inalcançável que alguém tenha forças para impedir Alexandre de MoraesDias Toffoli e (sabe-se agora) Kassio Nunes Marques de continuar fazendo o que faziam, na moita, com o patrocínio do Banco Master. A palavra impeachment, com esse seu ritmo ágil, esse corte abrupto no final, mantém acesas as esperanças de dias melhores nos supremos escalões.

Precisamos de uma palavra tupiniquim para manterrupting ou mansplaining, porque continuamos interrompendo e subestimando as mulheres. Mas há que criar, para já, um neologismo para transterrupting e transplaining, que acontecem quando uma pessoa trans corta a palavra ou se acha no direito de explicar às “pessoas que parem, que menstruam, que têm útero e cromossomos XX” o que é ser mulher. E para transpanking, situação em que, numa quadra de vôlei, num ringue de boxe ou numa pista de atletismo, uma trans dá uma surra numa dessas que ela considera imbeCIS (surra, aqui, nos sentidos literal e metafórico). Talvez “misoginia” resolva, não?

Se importamos palavras para problemas que não temos, podemos tentar equilibrar a balança comercial vernacular exportando “maracutaia” para a Dinamarca (não era lá que havia algo de podre, tempos atrás?), “rachadinha” para a Finlândia, “propinoduto” para Cingapura, “pixuleco” para a Nova Zelândia, “laranja” (na acepção tayayá do termo) para a Noruega, “mensalão” para a Suécia e por aí afora. Com o superávit, talvez consigamos produzir um similar nacional para compliance — esta, sim, palavra de primeira necessidade neste país.

 

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