O Globo
Talvez consigamos produzir similar nacional
para a palavra de primeira necessidade neste país
Alguém comentou no X (onde mais?) que blackface é um problema tão
grave no Brasil que nem sequer existe palavra em português para designá-lo.
Procede. Mas nem tanto.
A falta de timing é um caso sério entre nós, e tampouco encontramos um jeito nosso de expressar essa “sensibilidade para o momento propício de realizar ou de perceber a ocorrência de algo, ou senso de oportunidade quanto à duração de um processo, uma ação etc.”. Perdão, Houaiss, mas timing é melhor.
Inglês tem essa vantagem: tudo é mais
compacto. Tivemos um bom exemplo disso quando o metrô do Rio foi civilizado o
suficiente para ter locução bilíngue. Para os nativos, a mensagem era “Ao
desembarcar, verifique o vão entre o trem e a plataforma” — 11 palavras, 49
letras, quatro segundos. Em inglês bastava “Mind the
gap” — três palavrinhas, dez letrinhas, um segundinho e meio. E
aposto que os gringos caem muito menos naquele buraco do que nós.
Diferentemente do blackface, as notícias falsas são um problemaço.
Governo e oposição disputam para ver quem as cria e divulga com mais empenho,
mas a expressão remete a falsidade, farsa, fraude. Fake news, nem tanto — é
asséptica, cool. Talvez por isso tenhamos preferido a expressão alienígena.
Mesma coisa com “impedimento” — regra complicada
(vide o futebol) que dá a impressão de que algo de muito ruim precisa ser
interrompido logo, antes que piore. Ou com “cassação”, que evoca (por
homofonia) perseguição mata adentro, de espingarda em punho. Impeachment soa
como um ato cirúrgico, intervenção de rotina para resolver um probleminha e já
voltamos à programação normal. Jamais teríamos conseguido cassar Collor e
Dilma, ou impedir que fizessem o que fizeram. E parece uma graça inalcançável
que alguém tenha forças para impedir Alexandre
de Moraes, Dias
Toffoli e (sabe-se agora) Kassio
Nunes Marques de continuar fazendo o que faziam, na moita, com o
patrocínio do Banco Master. A palavra impeachment, com esse seu ritmo ágil,
esse corte abrupto no final, mantém acesas as esperanças de dias melhores nos
supremos escalões.
Precisamos de uma palavra tupiniquim para manterrupting ou mansplaining, porque continuamos
interrompendo e subestimando as mulheres. Mas há que criar, para já, um
neologismo para transterrupting e transplaining, que acontecem quando
uma pessoa trans corta a palavra ou se acha no direito de explicar às “pessoas
que parem, que menstruam, que têm útero e cromossomos XX” o que é ser mulher. E
para transpanking,
situação em que, numa quadra de vôlei, num ringue de boxe ou numa pista de
atletismo, uma trans dá uma surra numa dessas que ela considera imbeCIS (surra,
aqui, nos sentidos literal e metafórico). Talvez “misoginia” resolva, não?
Se importamos palavras para problemas que não
temos, podemos tentar equilibrar a balança comercial vernacular exportando
“maracutaia” para a Dinamarca (não
era lá que havia algo de podre, tempos atrás?), “rachadinha” para a Finlândia,
“propinoduto” para Cingapura,
“pixuleco” para a Nova Zelândia,
“laranja” (na acepção tayayá do termo) para a Noruega, “mensalão”
para a Suécia e por aí afora. Com o superávit, talvez consigamos produzir um
similar nacional para compliance — esta, sim, palavra de primeira necessidade
neste país.

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