sábado, 18 de abril de 2026

Estamos todos à venda? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Corrupção é fenômeno mais disseminado do que gostaríamos de acreditar

Desonestidade é fruto de negociação interna entre ganho material e autoimagem

Sou meio ingênuo para esquemas de corrupção e outras promiscuidades público-privadas. Já há anos me queixo do circuito Elizabeth Arden de palestras e viagens de ministros do STF. Acreditava, talvez tolamente, que os atrativos oferecidos para conquistar a boa vontade de julgadores ficavam mais ou menos limitados à hospitalidade de luxo e outros prazeres efêmeros. A percepção de que os arranjos podem envolver significativo aumento patrimonial foi, para mim, um pouco chocante.

Falha minha, pois eu deveria saber. Essa não foi minha primeira epifania de venalidade. Nos anos 1990, vieram à tona vários escândalos de corrupção, que envolviam políticos de quase todos os partidos. Mas havia uma legenda cujos membros nunca apareciam nas falcatruas. Era o PT. Àquela altura, parecia crível que o partido fosse diferente dos demais. O tempo mostrou que isso era uma ilusão. Petistas não figuravam em escândalos mais por falta de oportunidade do que por excesso de virtude. Bastou que a sigla ganhasse mais prefeituras e outras posições no Executivo para que sua lista de malfeitorias ganhasse volume e densidade.

Isso significa que seres humanos estamos todos à venda? É um jeito meio lúgubre de ver as coisas. Prefiro, na esteira de Dan Ariely, pensar que as pessoas são 90% honestas. O psicólogo submeteu seus estudantes a experimentos que lhes davam a oportunidade de trapacear em jogos em diferentes circunstâncias. Concluiu que, de modo geral, as pessoas respeitam as regras, mesmo quando sabem que não serão punidas. A desonestidade é o resultado de uma negociação interna entre o ganho material esperado e a preservação da autoimagem. Quanto mais fácil for montar uma narrativa para "justificar" a burla, mais provável ela se torna. Os alunos de Ariely se sentiam confortáveis roubando "só um pouquinho", entre 10% e 15%.

Numa daquelas ironias que só a realidade sabe produzir, a carreira acadêmica de Ariely sofreu forte avaria com a revelação de que um dos seus estudos continha dados fraudulentos.

 

 

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