Folha de S. Paulo
Pretos e pardos representam 86% dos mortos em
razão da intervenção policial
Para vergonha nacional, esse é um padrão que
se repete
"O Estado tirou o direito de ver meu
filho crescer" (Bruna Silva). "Como confunde marmita com
revólver"? (Fabiana Hoytil da Silva); "O Estado acabou com a minha
vida." (Rosicleide Cruz Bispo de Jesus).
As declarações saíram das bocas de três
mulheres que perderam filhos para a violência policial
no Brasil nos últimos anos. Além da juventude, Marcus Vinícius da Silva (14),
Gabriel Hoytil Araújo (19) e Michel Cruz (21) tinham outro traço em comum:
a negritude.
Para vergonha nacional, esse é um padrão que se repete. Os números falam por si e demonstram, ano a ano, que o futuro é um tempo marcado para não se realizar nas vidas de parcela expressiva de brasileiros.
Em 2025, o aumento da letalidade policial foi de 6,4% em relação a 2024. O
percentual equivale a 4.330 pessoas mortas em decorrência de intervenção policial (entre as quais, 312 crianças
e adolescentes de até 17 anos) em nove dos 27 estados do país.
Pretos e pardos representam 86% dos mortos em
razão da intervenção policial. A maioria é de homens jovens, moradores das
periferias e favelas, que tiveram as vidas ceifadas antes dos 30 anos.
É que "falar de racismo e
segurança pública é incorrer num paradoxo insustentável", como consta na
sétima edição do relatório "Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o
amanhã", divulgado recentemente pela Rede de Observatórios de Segurança
com dados do AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ e SP.
O estudo lança luz ao debate sobre a
letalidade policial, denuncia desigualdades contra a população negra e fomenta o debate público. Coisa
oportuna e necessária diante da persistência do perfil racial das vítimas da
polícia e da disparidade entre a demografia e a proporção de pretos e pardos
mortos.
O extermínio de vidas negras por agentes do Estado é mais um dos frutos do racismo institucionalizado numa nação que naturaliza a desigualdade étnico-racial e insiste em negar direitos e cidadania à maioria do povo. Como bem disse a escritora negra Conceição Evaristo, "eles combinaram de nos matar…"

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