O Globo
A segurança da camarilha no poder, não o
auxílio às vítimas dos terremotos, é a prioridade absoluta do governo
Não faltou ajuda internacional. No socorro às
vítimas dos terremotos na Venezuela, engajaram-se 17 países com equipes de
resgatistas, especialistas, equipamentos, hospitais de campanha. Mas, diante de
tragédias naturais de grandes proporções, nenhuma operação humanitária externa
substitui eficientemente os recursos internos. À medida que passavam as horas e
os dias, ficou patente o colapso estatal venezuelano.
O regime chavista dilapidou sistematicamente os bens públicos ao longo de anos. Na hora da catástrofe, as vítimas foram deixadas à própria sorte por uma camarilha habituada apenas a roubar e reprimir. Faltou tudo, inclusive combustível, num país que se jacta de possuir as maiores reservas petrolíferas do planeta.
Em Los Corales, no litoral caribenho, a menos
de 40 quilômetros de Caracas, o
operador de uma retroescavadeira governamental não apareceu na cena, de modo
que os residentes fizeram uma vaquinha para remunerar um substituto.
— Havia pessoas respondendo sob as ruínas
quando as chamamos, mas agora estão mortas — testemunhou Rosalia Bustamante,
moradora local.
Lá, mais de uma dúzia de cadáveres foram
recuperados de um edifício destroçado. Na ausência de sacos apropriados,
terminaram embrulhados em plásticos de lixo e começaram a se decompor sob o sol
dos trópicos.
Centenas de voluntários deslocaram-se em
motos de Caracas a Cátia La Mar, em La Guaira, para auxiliar os resgates. Uma
barreira policial tentou bloquear-lhes o trajeto.
— Aqui, há mais fuzis que pás, irmão! —
gritou um deles aos homens armados.
O general reformado Antonio Rivero registrou
que o governo poderia ter convocado as Forças Armadas com seus caminhões,
geradores e sensores, mas não convocou. Ángel Rangel, ex-chefe da agência de
defesa civil, explicou:
— Eles estão preparados para distúrbios
sociais, não desastres naturais.
Terremotos implodem ditaduras cleptocráticas.
Na Nicarágua,
depois da catástrofe de dezembro de 1972, o roubo descarado da ajuda
internacional pelo tirano Anastasio Somoza impulsionou a guerrilha sandinista
que acabaria por derrubá-lo sete anos mais tarde.
Na Venezuela, do desespero, tristeza e
desalento brotou uma indignação sólida. Autoridades foram vaiadas nas ruas e
insultadas nas redes. O terremoto abalou as fundações do plano da Casa Branca
de reforma da ditadura venezuelana.
A extração de Nicolás Maduro e sua
substituição por Delcy
Rodríguez (na prática, pelo novo homem forte, o ministro do Interior
Diosdado Cabello) assinalaram uma brusca reorientação geopolítica. Os Estados Unidos converteram
a Venezuela em protetorado informal, trocando acordos petrolíferos e minerais
pela sustentação do regime falido. A ideia era deflagrar um ciclo de
recuperação econômica, por meio da reativação da indústria do petróleo, a fim
de estabilizar a ditadura reinventada como governo títere. Mas as ramificações
políticas da tragédia ameaçam demolir o plano.
María
Corina Machado, a líder opositora que concentrou as esperanças do povo,
ganha nova oportunidade. Em janeiro, ao apoiar o sequestro de Maduro, imolou o
princípio da soberania nacional na expectativa frustrada de um retorno triunfal
patrocinado pelos Estados Unidos. Depois, acomodou-se às conveniências do
governo Trump, curvando-se à vaga promessa de uma transição adiada. A crise
aberta pelo desastre natural a coloca numa encruzilhada.
Dias atrás, uma dura advertência americana
barrou seu ensaio de voltar clandestinamente ao país, via Curaçao. Segundo
alega a Casa Branca, seria preciso evitar tensões políticas no pós-terremoto.
Delcy Rodríguez invocou o mesmo álibi para impor a exigência de autorização
oficial à chegada de voos internacionais a Caracas. Fuzis, em lugar de pás. A
segurança da camarilha no poder, não o auxílio às vítimas, é a prioridade
absoluta do governo.
Há indícios de que o terremoto servirá como
pretexto, tanto em Caracas como em Washington, para enterrar a perspectiva de
eleições livres. Corina Machado encara uma escolha decisiva: permanecer
alinhada a Trump, à custa de sua liderança popular, ou empunhar a bandeira da
democracia, correndo os riscos do retorno.

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