O Globo
O Estado é disfuncional: gasta mais do que
arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas
‘Hoje nós temos uma convicção muito grande de que a República está podre. Hoje os Poderes estão contaminados com ineficiência, e isso acaba abalando a confiança da sociedade brasileira na República.’ O diagnóstico, contundente, é de Gilberto Kassab, presidente do PSD. Foi enunciado na semana passada, quando o político assumiu a posição de vice na chapa do ex-governador Ronaldo Caiado, pré-candidato a presidente. Caiado não deixou por menos. Disse que a política brasileira está tomada por práticas de corrupção, negociatas e acordos ilegais e imorais. A imprensa registrou, o mundo político tomou conhecimento... e ficou por isso mesmo.
Não que as denúncias sejam infundadas. As
operações da Polícia
Federal têm apanhado figuras dos três Poderes, envolvidas em práticas
“imorais e ilegais”. Se não é toda a República que está podre, pode-se dizer
que há muita podridão em muitas esferas do poder. A imprensa independente tem
colocado nas manchetes essas operações. Por que não fez o mesmo com as
denúncias de Caiado e Kassab? Por um motivo simples: fatos valem mais do que
declarações. E a chapa do PSD mal passa dos 3% nas pesquisas.
Há, no entanto, uma explicação mais
interessante do que a aritmética eleitoral. É uma espécie de lei das campanhas
presidenciais: quanto menos pontos tem o candidato, mais contundente é seu
programa. O corolário é igualmente confiável — quanto mais ele sobe nas
pesquisas, mais prudente se torna.
Caiado e Kassab estão livres para dizer o que
pensam precisamente porque ninguém espera que cheguem ao segundo turno. Nenhum
dos dois, registre-se, foi apanhado em qualquer malfeito — mas talvez o
eleitorado, cansado, esteja mesmo em busca de gente nova, e isso já baste para
explicar o desinteresse.
Em circunstâncias normais, essa prudência
crescente é até positiva. Melhor um moderado que um radical. Ocorre que o
Brasil não vive um momento normal — e é aí que a lei das campanhas vira
armadilha. Ignorar o mensageiro, desta vez, tem um custo: não invalida a
mensagem. O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é
ineficiente na maior parte de suas políticas. E a velha política segue tomada por
práticas imorais e ilegais.
Dito de outro modo: os dois, Caiado e Kassab,
podem estar isolados nas pesquisas e, ainda assim, estar certos. Têm razão,
inclusive nas propostas: reforma administrativa para eliminar privilégios e
rever subsídios; corte de despesas correntes; mais investimentos públicos; e
nada de aumento de impostos.
Eis onde estamos: o país precisa de reformas,
especialmente na economia e, mais especialmente ainda, na Previdência. Mas não
se vê no horizonte nenhuma liderança capaz e com vontade de comandá-las. Entre
economistas independentes, circula o entendimento de que as reformas fiscais
serão necessariamente feitas no ano que vem, impostas pela realidade.
Os dados são eloquentes. Há uma tendência de
aumento do gasto público, que tem sido pago com elevação de impostos e dívida
pública. E uma inflação que tem sido controlada com juros muito altos,
asfixiando empresas e famílias. Se essa tendência não for invertida, o futuro
não distante aponta para outro período de recessão com inflação — como visto na
gestão de Dilma
Rousseff.
Sim, é grave assim.
Nada disso aparece nas campanhas de Lula e Flávio
Bolsonaro, os ponteiros nas pesquisas. O governo Lula aumentou os gastos
todos os anos e acelerou neste momento eleitoral. Mais: o presidente não perde
oportunidade de criticar quem sugere políticas de ajuste fiscal. Flávio é
herdeiro de um governo Bolsonaro que também aumentou os gastos no ano
eleitoral, além de ter cometido pecados ainda mais graves no período da
pandemia e na tentativa de golpe. Além disso, a polarização impede a abertura
de um debate consistente.
A criação do Real foi mais difícil. Mas havia
FH para liderar a inédita e brilhante reforma monetária. O problema atual é
mais simples do que liquidar a hiperinflação. Todo mundo sabe o que é um ajuste
fiscal. Mas falta a liderança.

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