segunda-feira, 6 de julho de 2026

Mudanças no cenário indicam PIB mais forte em 2026 e mais fraco em 2027, por Sergio Lamucci

Valor Econômico

O quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da economia no ano que vem

Após um primeiro semestre atribulado, o cenário que se vislumbra hoje para a economia brasileira em 2026 tem algumas diferenças significativas em relação ao que se via há seis meses, o que deverá ter efeitos não desprezíveis sobre o quadro que se desenha para 2027. Neste ano, o PIB tende a crescer mais do que se imaginava no fim de 2025, avançando perto de 2%, a inflação será mais alta, atingindo um nível um pouco acima de 5%, e os juros deverão ficar perto de 14% ao ano - consideravelmente acima dos 12% a 12,5% projetados em dezembro do ano passado.

O impacto do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo pressionou as cotações de combustíveis e alimentos (neste caso, pelo efeito sobre fretes e fertilizantes), ao mesmo tempo em que os estímulos fiscais têm impulsionado a demanda, reduzindo o espaço para cortes da Selic, ainda que a taxa, em 14,25% ao ano, esteja nas alturas. As incertezas sobre as contas públicas, num ambiente de déficit nominal (incluindo gastos com juros) elevadíssimo e dívida pública crescente, contribuem para que os juros sigam altos.

Esse quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da economia no ano que vem, ainda que obviamente elas tenham elevado grau de incerteza. Bancos e consultorias têm reduzido as estimativas de expansão do PIB para 2027, indicando que o ganhador das eleições presidenciais deste ano assumirá com uma atividade em ritmo mais lento. O Bradesco, por exemplo, revisou a previsão de avanço do PIB em 2027 de 2% para 1,5%, ao mesmo tempo em que elevou a deste ano de 1,8% para 2%. A consultoria 4intelligence, por sua vez, trabalha com um número ainda mais baixo para o ano que vem - cortou no mês passado a estimativa de 1,6% para 1,2%. Para 2026, a 4intelligence também trabalha com 2%, como o Bradesco.

O crescimento neste ano será mais forte do que se imaginava em boa parte devido aos estímulos à economia do governo num ano eleitoral. A 4intelligence observa que várias iniciativas têm efeito significativo” sobre a expansão do PIB em 2026, “como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR), a liberação de recursos extraordinários do FGTS e a aceleração do investimento público, da União e dos governos subnacionais, com destaque para os Estados”, aponta a consultoria, em relatório. Como a política fiscal não deverá repetir “o substancial impulso que vem dando à atividade econômica neste ano eleitoral”, o PIB tende a sofrer uma desaceleração relevante em 2027, diz a 4intelligence.

Na revisão do cenário divulgada na semana passada, o Bradesco também ressalta o impacto dos “fortes estímulos que se contrapõem à política monetária” para explicar a avaliação de uma economia mais forte em 2026, que levou à revisão do crescimento de 1,8% para 2%. Com uma política fiscal expansionista, o Banco Central (BC) tem ainda mais dificuldades para reduzir os juros, algo já complicado num cenário de pressão dos combustíveis e dos preços de alimentos.

Com perspectivas mais favoráveis para o petróleo, após a diminuição das tensões entre EUA e Irã, o quadro inflacionário pode ser menos desfavorável do que se temia há algumas semanas, mas as previsões continuam a apontar um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre 5% e 5,5% neste ano, distante da meta de 3% perseguida pelo BC. Além disso, um IPCA mais alto neste ano contamina o indicador do ano que vem, por meio da inércia, o fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a inflação futura. Em 2027, o IPCA deverá ficar acima de 4%, segundo as previsões dos economistas.

Os juros, nesse quadro, ficarão mais altos do que se estimava na virada do ano. O Bradesco ainda vê a Selic em 13,75% no fim de 2026, 0,5 ponto percentual abaixo do nível atual da taxa. A 4intelligence, porém, espera que os juros continuem em 14,25% até o fim deste ano. Com isso, “o espaço para expansão do crédito tende a permanecer limitado” no ano que vem, “em linha com a expectativa de condução mais conservadora da política monetária”, avalia a consultoria. É mais um dos motivos que justificam o crescimento mais fraco da economia em 2027, ainda que a 4intelligence tenha elevado a projeção de aumento da massa de renda de 2,7% para 3,5%, descontada a inflação, por causa da força do mercado de trabalho. O ponto é que, além do efeito dos juros altos sobre o crédito, “estará em curso um processo de desalavancagem financeira das famílias”, diz a consultoria, para quem, “diante de um nível de endividamento historicamente elevado, parcela relevante do aumento de renda será direcionada à amortização de dívidas, em detrimento do consumo”.

A desaceleração da atividade em 2027 deverá diminuir a pressão da demanda sobre os preços, o que pode ajudar a abrir espaço para um ciclo de queda um pouco mais intenso dos juros, à medida que o ano avance. No entanto, para que a Selic possa cair para níveis mais baixos, algo urgente num país em que muitas empresas e famílias estão endividadas e o setor público tem despesas financeiras pesadíssimas, será fundamental que o presidente eleito neste ano enfrente de fato o desequilíbrio das contas públicas, com um ajuste concentrado no lado das despesas. Se isso for feito, haverá uma redução dos estímulos do governo à economia e uma melhora da percepção de risco fiscal do país. Não é algo fácil do ponto de vista político, mas é essencial para que a Selic e os juros de longo prazo possam recuar mais e para o câmbio ficar valorizado, contribuindo para o controle da inflação.

 

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