quinta-feira, 2 de julho de 2026

O pastor que escondia dinheiro no armário e os escândalos na gaveta do bolsonarismo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

PF investiga deputado federal Sóstenes Cavalcante, que segue líder dos bolsonaristas

Excesso de barracos na direita talvez abafe o caso do dinheirão vivo sem origem justificada

Jaques Wagner (PT-BA) foi saído da liderança do governo no Senado por suspeitas de fazer negócio com gente vorcarenta. Levou uns dias até cair. Talvez pelo odor de santidade, digamos, o pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do seu partido na Câmara, resiste faz meses, desde que a Polícia Federal achou um saco de dinheiro no flat brasiliense desse deputado federal, em dezembro do ano passado.

Sóstenes disse que a dinheirama viria da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). Eram R$ 467,8 mil em notas de cem, juntadas em um saco plástico achado em um guarda-roupa. Não caberia tudo em roupas de baixo, decerto. A polícia e parte do Supremo suspeitam que o dinheiro seria resultado de desvios de verba parlamentar.

A extrema direita, a direita, boa parte da dita e velha opinião pública mais vocal ou o evangelismo político-partidário parecem querer que o caso fique dentro do armário. Sóstenes não causa sensação maior nem depois de a Polícia Federal seguir umas pistas, como etiquetas dos maços de tutu, e chegar a mais amigos do dinheiro vivo, ao que parece parceiros do deputado. É uma turma dona de empresas esquisitas, de gente que costuma sacar milhões em notas de reais. Quem sabe sejam apenas aquelas pessoas excêntricas amalucadas, que desconfiam de bancos e gostam de depósitos no colchão ou no armário. Ou gente em quem a polícia não deve confiar.

Sóstenes já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica. Formou-se em teologia. É pastor evangélico. É de uma Assembleia de Deus. É amigo de Silas Malafaia. Foi contra o isolamento sanitário na Covid-19. Defende a "vida" (é contra a interrupção voluntária da gravidez) e armas, família e bons costumes, apesar de ter esse costume de guardar dinheiro no saco dentro do armário. É um bolsonarista ferrabrás.

Pode ser que o caso de Sóstenes ainda não tenha causado escândalo maior por causa do congestionamento de podres, mumunhas e salseiros na direita extrema. Há, por exemplo, o barraco que envolve Flávio Bolsonaro com Michelle Bolsonaro, dita "Firmo" pelos inimigos íntimos. A madrasta dos filhos de Bolsonaro diz temer a revelação de mais mutretas do enteado e reposta vídeos que tratam das cafajestadas de políticos, empresários e outros nas bandalhas de Daniel Vorcaro. Está dizendo "não mexam comigo", respondendo a ameaças veladas de bolsonaristas que a detestam.

Há ainda o ajudante de ordens de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos a dizer que "mulher vota mal". Segundo esse sujeito, um Paulo Figueiredo, mulher não "vota errado porque é burra ou inferior, mas sim porque uma ideologia demoníaca, marxista, está destruindo a cabeça delas: o feminismo", como disse a Monica Bergamo, nesta Folha.

O excesso de vexames pode ser uma explicação circunstancial para a tolerância com bandalheiras bolsonaristas. O fato maior é que Flávio Bolsonaro tem enorme ficha corrida, processos ensacados no armário, amizade fraterna com Vorcaro e relações históricas com milicianos. Bolsonaristas estavam no comando do poder político estadual do Rio de Janeiro até o início deste ano, mandando em governo e Assembleia Legislativa (Alerj) infiltrados pelo crime, pela corrupção policial, por facções como o Comando Vermelho, que talvez domine ou dominasse a Alerj. Não tem causado escândalo terminal que essa turma tenha um projeto de comandar o governo da República. Sóstenes inclusive.

 

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